A privatização de cinco praias da Arrábida recorrendo a um subterfúgio legal anterior à constituição, a de alguns acessos na Comporta recorrendo a seguranças ou de outros, discretamente em Albufeira, é uma consequência natural do proxenetismo dos espaços comuns pelos consecutivos governos portugueses das últimas décadas e prossegue o contínuo desmantelar de todos os braços do estado social.
A comodificação dos espaços públicos, cujo usufruto é, não só restrito, como sujeito à mediação através do consumo mínimo obrigatório dos espaços privados, tem vindo a acontecer nas zonas verdes urbanas, onde as reuniões não são já espontâneas e centradas nas afectividades humanas, mas à mesa do café.
O mesmo aconteceu com as praias, onde aceitamos passivamente a privatização de uma percentagem de até 30% do areal, sentindo como uma vitória pírrica, tão pírrica, o direito de colocar os chapéus e as toalhas em frente à zona concessionada.

Autor, tradutor e editor
Há, sobretudo no Algarve e particularmente em Albufeira, um número de cafés e restaurantes instalados no areal com a denominação legal de apoio de praia, quando na realidade são apenas uma variação das habituais PPP, tornando o cidadão duplamente pagador, através dos impostos e do consumo, se quiser usufruir de um espaço público explorado por privados.
Seja na Arrábida ou na Comporta, a relação entre a privatização de uma parte do areal e a privatização de todo o areal ou do seu acesso, redundando no mesmo, é tão gritantemente óbvia como o facto do Algarve ser há décadas o oráculo do que está por vir nas outras zonas do país, então livres da pressão turística a que o sul do país se verga voluntariosamente como se fosse a única alternativa e em muitos casos, ainda pior, defendendo com um sentimento de orgulho bairrista as razões da sua própria autodestruição como se fosse o caminho para a salvação.
Tal como o futebol, um desporto nascido das classes populares para as classes populares e cada vez mais cooptado pelas elites, também as praias estão cada vez mais próximas de um Rock in Rio a dois tempos: o do shopping center em modo feira popularucha e o outro, o da Zona Vip onde comer um croquete se torna um crime de lesa majestade.
Desde que vim morar para o Algarve, encontro, além das evidentes, poucas razões de satisfação em habitar o misto desesperante de Las Vegas e Disneylandia em que a região há muito se tornou. Mas uma delas foram as várias vezes em que o Hotel Vila Joya decidiu unilateralmente vedar o acesso à praia do Xiringuito em Albufeira e encontrou, invariavelmente, a vedação cortada, depois de a autarquia se demitir de agir sobre o assunto.
Apesar disso, existem outros locais onde situações semelhantes acontecem e às quais as autarquias locais preferem fechar os olhos e perante as quais a sociedade civil não age.
Acções judiciais ou civis, como manifestações, são uma parte importante da resistência e não devem ser desconsideradas, mas ao falharem todos os mecanismos institucionais não basta abraçar árvores quando os bulldozers as querem derrubar, por vezes é preciso encher os tanques de combustível com açúcar, como nas acções da Earth First e exercer o direito da desobediência civil, porque já não se trata de nada nos ser dado e tudo ter de ser conquistado.
Trata-se de sairmos invariavelmente a perder frente a quem tem poder financeiro para contornar as leis em mais uma confirmação de que capitalismo e democracia são realidades profundamente contraditórias.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia













