Mia Khalifa sentiu, no cinema porno, uma glória com duração tão efémera como a das ejaculações masculinas a que foi sujeita.
Embora tenha sido apenas actriz de filmes para adultos durante três meses, foi o suficiente para carregar uma mácula frequentemente associada à da prostituição, embora a relação entre ambas seja virtualmente nula.
Desde então, tentou e falhou em vários empregos 9 às 5, de empregada de escritório até comentadora desportiva, devido à dificuldade de se libertar do estigma da pornografia, sofrendo regularmente os efeitos no já intrinsecamente ambiente de toxicidade corporativa.

Autor, tradutor e editor
Como forma de assumir o controlo da narrativa da sua própria sexualidade e corpo, e também como rejeição declarada do ciclo de exploração da produtora de filmes pornográficos que detém os direitos dos seus filmes, disponíveis na internet, optou, como tantas outras mulheres, pela plataforma onlyfans, onde pode decidir os limites e o grau de exposição.
Mia reconhece e assume toda as contradições que encarna ao afirmar-se feminista e criticando abertamente a uberização da indústria pornográfica, subsistindo, simultaneamente da mesma linha extractiva, com a lucidez de quem foi sujeita, mesmo brevemente, ao varrimento de quaisquer barreiras na maximização da rentabilidade da degradação feminina.

A controvérsia sobe de nível pela fama ter surgido quando filmou cenas de sexo envergando um hijab, numa confirmação da hipersexualização étnica, materializada no infindável fetiche da dominação eurocêntrica sobre todos os corpos femininos, em particular, os racializados.
Nunca tal a impediu de se pronunciar contra a instrumentalização cum shot das mulheres pelo capitalismo normalizador da violência sexual, de género como exercício hegemónico do poder.
Ao ser libanesa filha de emigrantes, Mia ilustra na perfeição a tese de Edward Said, onde a única característica unificadora dos orientais é uma fabricação pseudogeográfica e antropológica ocidental. Toda a sua identidade foi construída por terceiros, na impossível encruzilhada do conflito entre as exigências dum cristianismo neoliberalizado e as do neoconservadorismo islâmico. Chegou mesmo a conhecer períodos de crise aguda onde tentou, em todos os sentidos, branquear-se, para corresponder à ideia predominante da mulher ocidental, sucumbindo tanto ao beco sem saída do género feminino como à labiríntica condição de Estrangeiro, ambos, papéis desenhados pela autoridade masculina.
Surgindo como uma Barbie, não no sentido tradicional, mas no reformado como proposto pelo filme homónimo, Mia tem feito a travessia do trauma para a cura, numa manifestação exacta da cultura pós-moderna, apesar de todas as forças a empurrarem, o sentido oposto.
Todas as críticas de Mia à estrutura heteronormativa, cujas tendências são ditadas pela pornografia, são frequentemente desconsideradas, dada a razão da sua fama, numa obstrução de qualquer possibilidade de reconhecimento da sua autenticidade ou mesmo redenção – ambas, concedidas, por defeito ao género masculino.
Assim, vê todas as suas acções automaticamente remetidas para a esfera performativa e sexualizada, também devido às suas voluptuosas formas, exibindo-as despudoramente enquanto critica a mentalidade que as valoriza sobre outras características femininas, expondo assim a armadilha dessa atenção vazia. Como a própria descreve: a melhor coisa em ser eu é ter umas óptimas mamas, a pior é só verem isso.
A Mia, resta frequentar o pântano dos apátridas, não encaixando nos modelos americanos ou nos libaneses. Nessa zona cinzenta tanto autónoma como ghettificada Mia ostenta, qual estandarte, a sua unibrow – inaceitável pelos padrões de beleza ocidentais e pela qual foi humilhada – como orgulhoso símbolo de revolta e afirmação árabe, igualmente sustentada na sua permanente crítica à situação do Médio Oriente, desenhando um paralelo entre a indiferença perante o genocídio e o male gaze do voyeurismo sobre as mulheres.
O triplo grau de desumanização a que Mia tem sido sujeita – actriz porno, mulher e imigrante – remetem-na para a situação limite de decidir entre a submissão às lógicas mercantis ou à autoexploração nos próprios termos, concedendo-se espaço para recorrer a uma artificialização da beleza acompanhada de uma censura às condições que a encorajam, também na forma de autocrítica.
Identificando as tensões internas do feminismo, onde tantas vezes o moralismo burguês de raiz religiosa colide com a vontade de interseccionalidade, Mia é apátrida também nessa ideologia que a rejeita por falta de enquadramento na ideia ocidental de emancipação. Não só o seu corpo é o proverbial campo de batalha anunciado por Barbara Kruger na sua arte homónima produzida para a Marcha de Washington em 1989, mas também por ser duplamente refém, tanto do fetiche como das restrições do orientalismo.
Se o uso declarado do corpo para consumo alheio, a inscreve na categoria das trabalhadoras sexuais, essa condição proletária apenas se consegue mover nas franjas do proletariado maioritariamente conservador e assim sustentáculo involuntário da arquitectura pornoprecária, inspiradora e também continuidade do mundo do trabalho, antecipadora em décadas do pseudonarcisismo da cultura influencer / empreendedor.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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