Os programas de comentário de actualidades servem, sobretudo, para disseminar a arquitectura do comentário de futebol, onde, aí sim, sabemos para que lado caem as fichas, ao contrário de muitas figuras dos programas da manhã, cujo público, carece frequentemente das ferramentas necessárias para as interpretar à luz dos acontecimentos.
Essas figuras, embora não assumidamente de extrema direita, inscrevem-se na mesma dialéctica, particularmente na misoginia, o que a transporta para outros círculos subpolitizados, revestindo-o de um carácter popular, e não político.
Assim tem sido com Cristina Ferreira, misto de empreendedora e taberneira e engrenagem do feminismo meritocrático, assente num ideal de mulher, modelado algures entre a Santa Louboutin, a Princesa Diana e uma Martha Stweart sem dotes culinários, além de misturar o que nunca deve ser misturado.

Autor, tradutor e editor
Para Cristina, a leitura da realidade é feita de forma algoritimizada, originada numa interpretação personalizada e profundamente enraizada no ego, imbuída da retórica corporativista de CR7, que, tanto por vontade como por inevitabilidade, a projecta na galeria das celebridades, não humanas, mas de product placement puro e duro.
Apreendida como produto, torna-se natural a recusa, desprezo ou leviandade – todas resultando no mesmo – na conduta de Cristina, cujas interacções com o mundo real, na forma asséptica e controlada, são mediadas pelo sucesso pessoal. A partir daí ela tudo avalia, apresentando-o como um triunfo da vontade sobre as suas raízes humildes e probabilidades quase certas de fracasso, reduzindo a sua história pessoal, assim como todas as outras, ao binário vencedor/vencido, com o resultado a depender unicamente da capacidade individual do protagonista.
No seu santuário da MediaCapital, as pessoas chegam a Cristina na forma de consumíveis e consumidores sob um manto de tragicomédia, não como seres humanos.
Isso explica a desconsideração de Cristina pelos milhares de empregadas de limpeza, trabalhadoras de callcenter e empregadas de loja, todas Cristinas que nunca o chegaram a ser, sobre os quais se assenta e sustenta.

Cristina funciona para uma parte desse segmento como branding do país real, o da apologia de comportamentos retrochauvinistas numa canonização do Estado Novo revigorada pelo elitismo da machoesfera.
Não é só o facto de, no seu discurso, inocentar os quatro violadores de Loures, advogando, a possibilidade de não terem ouvido a vítima manifestar vontade de parar, que demonstra Cristina como a extensão feminina do estereótipo macho lusitano alicerçado no arquétipo masculino do velho testamento.
Também não é só por Cristina negar a possibilidade de uma mulher mudar de ideias a meio de um acto sexual, como se este fosse um contrato válido até às últimas consequências.
É tudo isso, aliado ao facto de Cristina encarar como escandalosa e culpabilizante, a possibilidade de uma mulher praticar sexo com quatro homens apenas porque o deseja, associando-o a uma perturbação, enquanto legitima o desejo de quatro homens terem sexo com uma mesma mulher, como razoável.
O comentário de Cristina é apenas a sua consolidação como produto padronizado da cultura de massas e, acima de tudo, da cultura da massa, a do papel-moeda, cristalizando o culto da personalidade individualizante que veio preencher o vazio deixado pelos ideais e colocando o sucesso medido pelos rendimentos, no seu lugar.
Nesse mundo, não há vítimas, apenas perdedores e vencedores para quem a empatia é um posicionamento publicitário.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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