Há muito que deixei de conceder poder à dramaturgia CH para determinar o meu pensamento, sendo esse o capital determinante na economia da atenção, não obstante, como os parisienses na II Guerra Mundial, viver também em território ocupado pela extrema-direita, neste caso, Albufeira. Não existe outra possibilidade além de prosseguir com a vida, o melhor possível, atento à apropriação formal do património e erário público por parte do executivo local e ao mesmo tempo, rejeitando a sua equivalência a uma conivência com o ideário do presidente.
A mais recente encenação de Rui Cristina, de quem nada mais existe, uma vez que não atende aos problemas reais do município – em oposição aos que fabrica – não resolve os recentes e ainda cria novos, surge no seguimento, da rejeição de atribuir de casas a ciganos pelo simples facto de serem ciganos, como qualquer César de pacotilha a decidir o destino de Roma. Cristina subscreve assim a lógica portugueses primeiro, forjada pelo seu Grande Líder, excluindo a etnia cigana duma ideia de cidadania portuguesa baseada na fantasia totalitária homoerótica do homem caucasiano heteronormativo e eurocêntrico, de onde aproveito para me excluir também.

Autor, tradutor e editor
A ironia do discurso de Cristina contra os ciganos, é ser ele quem melhor se adequa ao estereótipo propalado
Nada disto esconde a inegável verdade proferida e comprovada pela sua eleição: ele é efectivamente o legítimo representante de uma Albufeira maioritária cuja norma é culpar minorias de tudo, furtando-se a qualquer responsabilidade no decurso do quotidiano local.
Não o afirmo com base em percepções criadas por inacessíveis políticos, mas através de contacto directo com Albufeira, onde tenho família, amigos e certamente detractores, em cafés, associações, restaurantes, eventos, e serviços, num dos quais houve um, entre muitos outros, episódio gritante de discriminação e humilhação de um jovem cigano por parte de um funcionário, perante a passividade de uma sala cheia, obrigando-me a intervir.
A ironia do discurso de Cristina contra os ciganos, é ser ele quem melhor se adequa ao estereótipo propalado: é nómada (Loulé-Beja-Albufeira) e vive de subsídios e esquemas, alguns deles de legalidade questionável, como trazer a irmã para o executivo, num gesto que encarna na perfeição o objecto de crítica do seu próprio partido.
Numa conversa recente com uma pessoa do CH de Albufeira, critiquei o aproveitamento da estigmatização da comunidade cigana, classificando-a de desonesta ou irreal, obtendo como resposta “eu não acredito nisso, mas é o que as pessoas querem ouvir”, solidificando o binómio racista/oportunista como motor partidário.
A defesa de Cristina, como a de todos os seus congéneres, recorre à estafada infantilização habitual, vitimiza-se, grita cabala e afirma lutar com todas as forças contra a injustiça, quando é ele a sua encarnação mais veloz.
O problema reside no eco real que o discurso encontra numa Albufeira com a maioria dos habitantes que se sente expropriada e arredada dos mecanismos democráticos, sofrendo a distância geográfica e mental para a realidade dos grandes centros decisórios urbanos. E continuará a proliferar, fruto da falta de espinha e dos interesses ocultos, frutificando num cenário de medo e instrumentalização onde a oposição política acontece apenas na assembleia sem qualquer visibilidade exterior, parecendo incapaz de criar uma frente unida, tal como aconteceu nas últimas presidenciais.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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