Numa altura em que a actualidade não só se inspira nas distopias literárias mas também as supera, continuamos a cair vítimas do complexo messiânico, esperando a salvação através de O Outro, ao contrário de Bloom em O Fim dos Estados Unidos da América, que relativiza o nosso tradicional sebastianismo com um whataboutism materializado no pensamento eu, outro qualquer, tanto faz, é preciso alguém.
Alguém que nos dê outra certeza no tempo onde a nossa obsessão colectiva é, já não a mensurabilidade de tudo, mas a sua previsibilidade, apesar de, como no futebol americano, precisarmos desesperadamente da incerteza sob pena de trucidar de forma acelerada, a beleza que resta. Se alguma restar ainda.
A tecnologia surge como novo estado omniestruturador e como nova divindade omnipotente numa amálgama de ambos, qual Sharia neoliberal, onde os preceitos surgem, não do alcorão mas da invisível mão do mercado, destronadora da ciência que tanto nos aproxima de Deus como nos afasta, levando-nos a crer que o substituímos.

Autor, tradutor e editor
Gonçalo identifica com a precisão de um subtil bisturi, o lugar do corte, pretendendo instalar a dúvida onde existe agora apenas espaço para a certeza, sobretudo maniqueísta
No século do antropofake – assim o adjectiva Gonçalo – o óbvio deixa de o ser, a verdade e a mentira fundem-se em versões alternativas de ambas, a partir das quais é impossível destrinçá-las, e a cultura é combatida por um bom senso forjado num ermo onde não há, assim como não existe neste livro, uma bússola moral.
Estamos ainda longe de Jocasta, que no livro antecipa o movimento como produtor de prazer e não de objectos, no que pode ser uma crítica ambígua à transformação do hedonisto em comodidades, como a uma forma de piscar o olho ao prazer e ao orgone de Wilhelm Reich, energia vital, espécie de força orgásmica acumulada, eventualmente disparada de um canhão contra os céus, o que seria um progresso, face ao que disparamos por estes dias.
Em o Fim dos EUA, diante do anúncio da Peste, com tanto de praga egípcia como da argelina em Camus, invejamos a indiferença dos animais face ao pânico e numa América delineada a partir da vaidade do fastfood, do orgulho nas armas, da gordura repelente e da obesidade.
Não como estereótipo, mas enquanto face visível, do desperdício como afirmação de ostentação, da parafernália infinita e inutilidade fútil onde o medo nos obstrui o pensamento, sobrepondo-se o cérebro reptiliano ao córtex frontal. Nesse capitular às emoções primárias, somos mais facilmente manipuláveis, razão porque são estimuladas pelos novos extremismos.
Também o digital surge como aversão ao real, inversão do real e simultaneamente falsa versão do real, devido ao seu alcance. Modula-o, onde os fins do mundo fazem aparições, não como fim representado por um ponto a partir do qual nada é possível, mas na forma de oportunidade de negócio, assim pensa Bloom ao ver aviões despejarem flyers publicitários na eminência da cessação, sonhando com a possibilidade de convencer o mal que vem do metal pelo bem verbal, tão aprisionado como nós, no cansativo consumo em loop infinito, contentando-se em, na impossibilidade de alcançar a bondade, evitar ao menos a maldade.
Gonçalo identifica com a precisão de um subtil bisturi, o lugar do corte, pretendendo instalar a dúvida onde existe agora apenas espaço para a certeza, sobretudo maniqueísta, questionando se o poder da reza será o bastante para mover um avião como a fé fez em tempos com a montanha, embora o movimento seja tendencialmente de demolição e não de deslocação, mercê das bombas mais perigosas, as que nos baralham o sentido crítico, impedindo-nos de chegar ao porquê, em vez de ao como, persistindo assim nas questões que não nos fazem andar para a frente. Escolhemos pois, lados, como quem escolhe clubes, da forma que Ted Trash e Left Wing o fizeram, pois pouca possibilidade existe além dessa.
Questionando a utilidade de Platão, a neutralidade do algoritmo no auge de uma evolução humana possivelmente resumida ao negócio, instrumentalizando a miséria para servir os nossos próprios fins, o livro está habitado por vegans que atribuem a o contágio da peste à morte de animais, por esquerdalha a culpar o capitalismo e pelo KKK a culpar os negros, sem jamais militar em qualquer das facções ou oferecer conclusão outra que não a da cura surgir onde a rentabilidade for maior, louvado seja o senhor das transações e do enriquecimento brusco.
A nobreza dos heróis é proporcional ao número de observadores, a bondade desvanece-se se não ficar registada, a overdose do belo pode torná-lo indiferente, ou, no limite, feio, assim como toda a revolução se transforma em disciplina e as crenças contra a real dureza dos factos, provocam quedas e modos brutos.
Medimos o tempo pelo tédio, desprezamos a intensificação do prazer adiado e por isso, nem este nem muitos outros, são livros deste tempo inimigo dos livros, na medida em que nos pede isso mesmo, que não sejamos deste tempo. Atrasa-nos, abranda-nos, prende-nos e não nos recompensa na cedência.
Rico em microideias repletas de universos próprios, brinca subtilmente com as palavras, o coloquial joga com o erudito na imprevisibilidade, persistindo uma benigna dúvida sobre o que é ou não premeditado, num gracioso descomprometimento com as formalidades da linguagem, como forma de quebrar o texto numa variante espirituosa da resignação, talvez única revolta e aceitação ao nosso alcance, deixando no ar a questão se, como Laio, devemos preparar o apocalipse como quem prepara um piquenique.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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