O Algarve está a receber um projeto experimental ligado ao vinho que envolve garrafas submersas, barricas especiais e provas periódicas realizadas no fundo do mar. Na Marina de Albufeira, duas produtoras da região colocaram milhares de garrafas em estágio subaquático para estudar os efeitos do oceano no envelhecimento dos vinhos.
De acordo com o portal NiT, o projeto arrancou em março de 2025 e junta investigação, enologia e enoturismo. Mais de um ano depois da submersão inicial, várias garrafas foram retiradas temporariamente para análises e provas técnicas realizadas no final de abril.
Adega criada debaixo de água
A experiência decorre numa das zonas da Marina de Albufeira, onde estão atualmente submersas quase 3.000 garrafas pertencentes à Quinta do Canhoto e à Adega do Cantor. Os produtores pretendem perceber de que forma fatores como a pressão constante, a ausência de luz e a estabilidade térmica do mar podem influenciar o processo de envelhecimento do vinho.
Durante a operação realizada no final de abril, algumas garrafas foram recolhidas para avaliação técnica. O procedimento incluiu provas comparativas entre vinhos mantidos em ambiente subaquático e outros envelhecidos em condições tradicionais. Escreve a publicação que, além das garrafas, também foi retirada temporariamente uma barrica para testes. Os resultados das análises ainda estão a ser estudados pelas equipas envolvidas no projeto.
Há uma barrica inédita no fundo do mar
Um dos elementos mais invulgares desta experiência encontra-se ainda submerso. Trata-se de uma barrica com capacidade para 225 litros, desenvolvida especificamente para resistir às condições marítimas. Segundo a mesma fonte, esta é a primeira barrica portuguesa colocada em estágio subaquático. A peça foi produzida pela Tanoaria J.M. Gonçalves e recebeu alterações estruturais para suportar a corrosão provocada pela água salgada.
O responsável pela tanoaria, Abílio Gonçalves, explicou que a barrica foi construída com madeira de carvalho francês sujeita a três anos de secagem. “Trata-se de uma madeira de carvalho francês, com três anos de secagem. O material é de altíssima qualidade”, afirmou, citado pelo mesmo portal. O responsável acrescentou ainda que a estrutura “teve uma construção adicional, com barras de reforço nos tampos”.
Mar deixou marcas nas garrafas
Ao fim de 13 meses no fundo do mar, as garrafas apresentam já sinais evidentes da permanência subaquática. Ostras, cracas e outros organismos marinhos ficaram presos ao vidro durante o processo. Conforme a mesma fonte, as equipas responsáveis admitem que as rolhas terão de ser protegidas com lacre, uma vez que alguns organismos marinhos acabam por danificá-las ao longo do tempo.
A Adega do Cantor acompanha atualmente cerca de 600 garrafas em estágio subaquático. Entre os vinhos selecionados encontram-se um espumante de 2022, o Vida Nova branco de 2024 e vários tintos produzidos nos últimos anos. O enólogo Rúben Pinto explicou que a escolha recaiu sobre vinhos ainda numa fase inicial da sua evolução. “Quisemos optar por vinhos que tivessem no início da sua vida”, afirmou, citado pela NiT.
Há seis métodos de envelhecimento diferentes
Já a Quinta do Canhoto colocou em ensaio um monocasta Alicante Bouschet de 2023, distribuído por diferentes formatos e condições de armazenamento. Refere a mesma fonte que o vinho está a ser envelhecido em garrafas de vários tamanhos, tanto em terra como no mar, além de barricas mantidas nos dois ambientes. No total, estão a ser comparados seis processos distintos de estágio.
Para tentar aproximar algumas condições da adega tradicional, a equipa recorre também à utilização de levedura seca ativa, simulando o chamado efeito de “borra fina”. “Isto é tudo novo, estamos a descobrir. Podemos estar a fazer uma asneira, mas não sabemos”, admitiu o enólogo Jorge Páscoa.
As provas técnicas realizam-se de três em três meses e os produtores continuam a avaliar qual será o momento ideal para retirar definitivamente os vinhos do fundo do mar. A Quinta do Canhoto admite que algumas garrafas possam regressar à superfície já em julho, embora a decisão final dependa da evolução observada nas próximas análises.















