Chegou o fatídico mês das habituais críticas à nobre tradição da restauração algarvia. Críticas à comida, aos preços, ao serviço e, sobretudo, ao célebre bife algarvio — essa peça de alta gama gastronómica que, de ano para ano, aparece cada vez mais pequena no prato.
E, desta vez, confesso, tenho de sair em defesa dos proprietários e gerentes dos restaurantes, essas almas abnegadas que, todos os anos, enfrentam a ingratidão de turistas, sempre prontos a queixar-se da quantidade de comida que lhes põem no prato.
Há quem chame a isto exploração. Eu prefiro chamar-lhe progresso.
A própria palavra “crítica” vem do grego krisis: colocar em crise. Portanto, deixemo-nos de críticas construtivas. Uma crítica construtiva é uma contradição em termos, como “bife generoso” num restaurante algarvio.
Desta vez, é preciso reconhecer o mérito de quem nos serve. Coitados dos proprietários e gerentes da restauração. Passam o verão inteiro a olhar para pessoas esfomeadas e a tentar convencê-las de que a fome é uma opção sustentável.
É sempre a mesma ladainha: o cliente pede um bife e, quando este chega à mesa, começa imediatamente a indignação.
“Mas isto é um bife?”
É.
“E isto é a quantidade?”
É.
“Mas eu pedi um bife!”
E foi-lhe servido um. O que é que pretende mais? Um boi inteiro?
Convenhamos que há aqui uma tremenda falta de compreensão por parte do consumidor.
Reclama. Não percebe que está perante uma extraordinária medida de saúde pública.
Toda a gente sabe que as vacas produzem gases com efeito de estufa. Ora, se as vacas produzem gases e nós comemo-las, a conclusão científica é evidente: menos bife, mais planeta.
É uma equação de enorme complexidade. Vaca → gases → planeta aquece → cliente come menos bife → planeta agradece.
Ora, perante isto, o que faz o diligente proprietário algarvio?
Protege-nos.
E fá-lo com uma discrição admirável.
Nós pensamos que estamos a ser roubados na quantidade de carne. Nada disso. Estamos a ser salvos.
Quer os proprietários, quer os funcionários, já interiorizaram as grandes preocupações ambientais e de saúde pública do nosso tempo.
O empregado olha para o cliente, radiografa-o, vê-lhe o colesterol, as artérias empedernidas e a pegada carbónica e pensa:
“Não podemos permitir isto.”
E corta-lhe o bife. É praticamente medicina preventiva, uma espécie de Serviço Nacional de Saúde à mesa. Sem bata, sem estetoscópio e, sobretudo, sem a inconveniência de o cliente ter pedido uma segunda dose.
O cliente, na sua infinita ingratidão, pensa que pagou um bife e recebeu uma amostra grátis de carne.
Não percebe que recebeu, na verdade, uma experiência ambiental.
Uma experiência de saúde.
Uma experiência gastronómica minimalista.
Quase uma obra artística.
Mas a ciência não descansa. Para reduzir as emissões de metano e amoníaco, investigadores há que estudam uma solução verdadeiramente revolucionária: ensinar as vacas a utilizar latrinas.
Sim, latrinas.
A humanidade chegou à Lua, inventou a inteligência artificial e agora prepara-se para ensinar as vacas a usarem casas de banho.
É o verdadeiro triunfo da civilização. Quando essa missão estiver cumprida, poderemos finalmente voltar a comer carne sem culpa.
O empregado aproximar-se-á da mesa com uma travessa generosa.
— Isto é tudo para mim?
— É.
— E o ambiente?
— Não se preocupe. A vaca usa a casa de banho.
Nesse glorioso dia, o planeta estará salvo, as vacas serão educadas e os restaurantes algarvios poderão finalmente voltar a servir bifes de tamanho decente.
Aí, será de comer e chorar por mais. O cliente, emocionado, olhará para o prato e perguntará:
— Quanto custa?
Porque uma coisa é salvar o planeta.
Outra, completamente diferente, é pagar por isso.
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