A cidade de Loulé guarda sob os pavimentos e alicerces de uma antiga casa senhorial um espaço sem paralelo conhecido em Portugal. Trata-se dos Banhos Islâmicos da cidade, descobertos em 2006 e considerados os primeiros e, até ao momento, únicos banhos islâmicos arqueologicamente documentados em território nacional.
Segundo o portal Património Cultural, o complexo remonta ao século XII e é também um dos mais completos do género identificados na Península Ibérica. As estruturas ficaram preservadas sob uma casa senhorial construída vários séculos depois, no século XV, que terá pertencido aos Barreto, senhores do Morgado de Quarteira e alcaides de Loulé.
Cidade algarvia chamava-se Al-‘Ulyà
Antes da conquista cristã, Loulé era conhecida como Al-‘Ulyà. A povoação tinha sido fundada por populações islâmicas que chegaram à Península Ibérica a partir do século VIII e, já perto da reconquista, era descrita como uma pequena cidade fortificada, próspera e com importância estratégica.
Apesar disso, as fontes conhecidas dessa época não indicavam onde se encontrava o hammam. Este tipo de equipamento tinha um papel importante nas cidades islâmicas, não apenas associado à higiene, mas também às práticas religiosas e à vida social da população.
Banhos foram construídos junto à muralha
O complexo foi instalado no século XII numa zona particularmente importante de Al-‘Ulyà. Segundo a mesma fonte, ficava junto à muralha construída na mesma época, próximo da alcáçova e da principal entrada da cidade islâmica, uma localização que facilitava o acesso tanto aos habitantes como a quem chegava de fora.
Os utilizadores podiam realizar ali a ablução, ritual de purificação ligado às práticas religiosas islâmicas, mas também permanecer para banhos mais prolongados. O espaço era utilizado por homens e mulheres, embora em horários diferentes, seguindo uma organização própria deste tipo de equipamento público.
Havia salas com diferentes temperaturas
A estrutura encontra-se repartida por cinco áreas distintas. Existiam uma sala fria, uma sala tépida e uma sala quente, às quais se juntavam o compartimento destinado à fornalha e um vestíbulo por onde se fazia o acesso ao conjunto.
Esta organização permite atualmente compreender de forma particularmente completa o funcionamento de um hammam medieval. O grau de conservação das estruturas tornou possível identificar não apenas as diferentes divisões, mas também alterações realizadas ao longo do tempo enquanto os banhos permaneceram em utilização.
Continuaram a ser usados depois da conquista cristã
Os Banhos Islâmicos de Loulé não desapareceram imediatamente com o fim do domínio muçulmano na região. O portal Património Cultural refere que o complexo continuou a servir a população desde o período almóada até à época moderna, atravessando diferentes momentos da história da cidade.
Essa utilização prolongada é visível nas várias campanhas de obras identificadas pelas investigações arqueológicas. As sucessivas intervenções mostram que o espaço foi sendo adaptado e mantido ao longo dos séculos, antes de acabar ocultado pelas construções que surgiram posteriormente naquele local.
Descoberta aconteceu apenas em 2006
Foi necessário chegar ao século XXI para que a dimensão destes vestígios voltasse a ser conhecida. A descoberta realizada em 2006 permitiu revelar estruturas que tinham permanecido escondidas sob uma construção muito posterior e recuperar uma parte até então pouco visível da história medieval de Loulé.
O caráter excecional do complexo resulta da conjugação entre a antiguidade, o estado de conservação e a possibilidade de interpretar integralmente um hammam. Até hoje, são os únicos vestígios conhecidos em Portugal que permitem essa leitura completa, testemunhando práticas quotidianas da sociedade islâmica e a presença de diferentes culturas na formação histórica do sul do país.
















