São Brás de Alportel chegou ao início do século XX como uma das localidades economicamente mais relevantes do Algarve, num crescimento fortemente associado à produção e comercialização de cortiça. A prosperidade e o aumento da população acabariam por dar argumentos a quem defendia a separação administrativa de Faro, concretizada em 1914 com a criação do concelho.
De acordo com o portal Junta de Freguesia de São Brás de Alportel, durante o século XIX as plantações de sobreiros impulsionaram a atividade comercial da então freguesia, que se tornou no maior centro produtor de cortiça do país. Muito antes dessa transformação económica, porém, o território já tinha uma longa presença humana, documentada por vestígios que remontam ao Paleolítico.
Cortiça transformou a economia local
Entre os achados pré-históricos identificados na região encontram-se lascas de sílex, quartzo e quartzito, bem como um brunidor de xisto negro. Foi ainda encontrado um seixo em xisto jaspóide no qual parecem estar representados um bovídeo e um cavalo, exemplos que ajudam a perceber a antiguidade da ocupação deste território algarvio.
Apesar desse passado remoto, foi sobretudo a partir do século XIX que São Brás ganhou um peso económico capaz de mudar o seu futuro administrativo. A exploração dos sobreiros e o comércio da cortiça deram dimensão à atividade local e ajudaram a criar uma freguesia cada vez mais populosa e com maior capacidade económica dentro do concelho de Faro.
Em 1912 tinha cerca de 12.500 habitantes
No início do século XX, São Brás de Alportel já era a maior freguesia do concelho de Faro. Em 1912 contava cerca de 12.500 habitantes, número que, juntamente com a expansão económica, passou a ser utilizado como argumento por quem defendia que a localidade deveria ter administração própria.
O movimento autonomista começou a organizar-se no início desse século e ganhou novo impulso depois de 1910. A Comissão Paroquial Republicana assumiu um papel central nesse processo, beneficiando também do novo contexto político e das ligações de João Rosa Beatriz a figuras do movimento republicano.
João Rosa Beatriz levou a reivindicação até Lisboa
Natural de São Brás de Alportel e nascido em 1881, João Rosa Beatriz tornou-se uma das principais figuras da luta pela criação do município. Deslocou-se diversas vezes a Lisboa para procurar apoios políticos, enfrentando resistência às pretensões de autonomia da então freguesia.
Em dezembro de 1912, Machado Santos apresentou na Câmara dos Deputados um projeto de lei destinado a conceder autonomia administrativa a São Brás. O processo prolongou-se durante mais de um ano, mas acabaria por culminar na aprovação da proposta e na publicação da decisão oficial.
Concelho nasceu a 1 de junho de 1914
A 1 de junho de 1914 foi publicado em Diário do Governo o diploma que elevou a freguesia a concelho, com a designação de Alportel e sede na aldeia de São Brás. A localidade deixava, assim, de integrar administrativamente o concelho de Faro e passava a dispor de estruturas municipais próprias.
Nos meses seguintes começou a instalação da nova administração. Foi criada uma comissão provisória, presidida por Virgílio de Passos, e em setembro foi autorizada a utilização do Paço Episcopal, da respetiva cerca e da residência paroquial para acolher escolas e diferentes repartições públicas do novo município.
Primeira administração definiu educação e acessibilidades como prioridades
João Rosa Beatriz foi nomeado administrador interino do concelho em outubro de 1914, uma função equivalente, em termos aproximados, à liderança municipal atual. Entre as prioridades que definiu estavam a educação pública, a segurança, a manutenção da ordem e a melhoria das acessibilidades a São Brás de Alportel.
A primeira Comissão Municipal foi eleita a 8 de novembro daquele ano. As mudanças políticas seguintes acabariam por afastar João Rosa Beatriz do cargo, mas o republicano continuou a defender projetos para o concelho, entre os quais uma biblioteca móvel, um cartório municipal, um serviço de correio rural e uma ligação ferroviária a Loulé. A autonomia alcançada em 1914 ficou, assim, ligada a um período em que a cortiça, o crescimento populacional e a mobilização política alteraram definitivamente o estatuto de São Brás de Alportel.
Leia também: São Brás de Alportel dá a conhecer o património com visitas gratuitas















