Fala-se cada vez mais de droga. Das toneladas apreendidas, das rotas do tráfico, das organizações criminosas, dos portos por onde entra, das redes que a distribuem. Fala-se, naturalmente, do combate ao tráfico e da necessidade de reforçar os meios das autoridades para impedir que a Europa se transforme num mercado cada vez mais apetecível para quem vive do negócio da droga.
E Portugal surge, neste contexto, frequentemente mencionado como uma das portas de entrada para a Europa.
Tudo isso é importante. E tudo isso deve ser combatido.
Mas há uma pergunta que, talvez por ser mais incómoda, aparece muito menos no debate público: se há uma oferta tão grande de droga, não será também porque existe uma procura suficientemente grande para a tornar um negócio extraordinariamente rentável?
É uma pergunta simples. Mas talvez nos obrigue a olhar para um problema que não se resolve apenas com polícias, alfândegas, apreensões e prisões.
Porque uma mercadoria só adquire a dimensão de um grande negócio quando existe quem a queira comprar.
E é aqui que a questão da droga deixa de ser apenas uma questão policial. Ou mesmo apenas uma questão de saúde pública. Passa a ser, também, uma questão social.
Convém, naturalmente, não cometer uma simplificação: o aumento das apreensões ou a descoberta de novas rotas não demonstra, por si só, que o consumo tenha aumentado na mesma proporção. Mais droga apreendida pode significar mais tráfico, mas também maior eficácia policial ou mudanças nas rotas utilizadas pelos traficantes. Do mesmo modo, nem todo o consumidor procura na droga uma fuga à realidade, nem é possível reduzir fenómenos tão diversos a uma única explicação.
Mas a pergunta permanece.
Que sociedade estamos a construir para que exista uma procura tão significativa de substâncias capazes de alterar a consciência, produzir prazer, anestesiar a dor ou simplesmente permitir, ainda que por algumas horas, uma fuga à realidade?
Talvez esta seja uma das perguntas que menos gostamos de fazer.
É sempre mais fácil falar do traficante do que falar do consumidor. É mais fácil falar da fronteira do que falar da casa. É mais fácil discutir a tonelada de cocaína que chegou a um porto do que perguntar por que razão alguém, algures numa cidade europeia, está disposto a pagar por ela.
E, no entanto, as duas coisas pertencem ao mesmo fenómeno.
Vivemos numa sociedade que nos pede permanentemente desempenho. É preciso produzir, competir, ganhar, aparentar, estar disponível, responder depressa, consumir, viajar, divertir-nos, cuidar da imagem, manter-nos jovens, interessantes e profissionalmente ativos. Até o descanso parece ter adquirido uma obrigação de produtividade: temos de saber descansar, de saber divertir-nos e, aparentemente, até de saber ser felizes.
Ao mesmo tempo, os vínculos comunitários enfraquecem, muitas pessoas vivem mais sós, as relações tornam-se mais frágeis e cresce a dificuldade em encontrar espaços de pertença e de significado.
Não será isto uma explicação suficiente para o fenómeno da droga. Mas será certamente uma parte da pergunta.
Porque há uma diferença importante entre perguntar «por que razão as pessoas consomem droga?» e perguntar «o que há na sociedade em que vivem que torna tão atraente a possibilidade de escapar dela?»
Não são perguntas equivalentes.
A primeira coloca o problema sobretudo no indivíduo. A segunda obriga-nos a olhar para o ambiente social que produzimos.
E talvez seja aqui que devêssemos ter alguma coragem.
Vivemos numa cultura que procura incessantemente produzir estímulos. Mais velocidade, mais experiências, mais prazer, mais intensidade. O mercado aprendeu há muito que a atenção humana é uma mercadoria e que quase tudo pode ser transformado em consumo.
É evidente que não se pode colocar no mesmo plano a droga, o álcool, o jogo, o consumo compulsivo, a dependência das redes sociais ou outras formas de comportamento aditivo. São fenómenos diferentes, com riscos, mecanismos e consequências diferentes.
Mas podemos fazer uma pergunta sobre aquilo que têm em comum: a dificuldade crescente de estar simplesmente com a realidade tal como ela é.
O silêncio parece difícil. O aborrecimento tornou-se quase intolerável. A espera incomoda. A solidão assusta. A frustração parece exigir imediatamente uma compensação.
E, numa sociedade que dispõe de uma oferta praticamente ilimitada de formas de distração, estimulação e evasão, talvez não seja inteiramente surpreendente que também encontre mercado aquilo que oferece uma fuga química.
A droga, neste sentido, pode ser vista não apenas como uma ameaça que vem de fora, mas também como um produto que encontra dentro da própria sociedade um terreno extraordinariamente favorável.
É por isso que o combate ao tráfico, sendo indispensável, nunca poderá constituir a totalidade da resposta.
É preciso combater quem lucra criminosamente com a dependência dos outros. É preciso impedir que redes criminosas se fortaleçam. É preciso proteger os jovens. É preciso tratar quem desenvolveu uma dependência. É preciso reduzir os danos provocados pelo consumo.
Mas talvez seja igualmente necessário perguntar o que estamos a fazer — ou a deixar de fazer — para que tantas pessoas sintam necessidade de procurar uma saída química.
Uma sociedade que produz solidão não pode depois surpreender-se por haver quem procure anestesia.
Uma sociedade que transforma o sucesso numa obrigação permanente não deveria ficar completamente perplexa quando alguns procuram substâncias que lhes permitam suportar a pressão.
Uma sociedade que oferece cada vez mais meios para fugir de si própria talvez devesse perguntar por que razão se tornou tão difícil simplesmente habitar a própria vida.
E há ainda uma ironia que merece ser considerada.
Podemos declarar guerra à droga — e devemos combater o tráfico criminoso — enquanto permanecemos relativamente pouco interessados nas condições sociais, familiares, económicas e culturais que alimentam a procura.
Podemos apreender toneladas.
Podemos desmantelar redes.
Podemos fechar rotas.
Mas, se a procura permanecer intacta, outras rotas aparecerão. Outros traficantes ocuparão o lugar dos que forem presos. Outra mercadoria substituirá a anterior.
Porque o problema não está apenas naquilo que entra.
Está também naquilo que, dentro de nós, espera por alguma coisa que nos faça sair, por instantes, daquilo que somos e da vida que levamos.
Talvez, por isso, o verdadeiro debate sobre a droga tenha de ser simultaneamente policial, médico, económico, educativo e, sobretudo, humano.
Não para desculpar o consumo. Não para romantizar a droga. Muito menos para transferir a responsabilidade individual para uma abstrata «sociedade».
Mas para reconhecer uma evidência desconfortável: os mercados não inventam sozinhos os desejos. Encontram-nos. Exploram-nos. Amplificam-nos.
E se a Europa está a receber cada vez mais droga, importa, evidentemente, perguntar como ela está a entrar.
Mas talvez seja ainda mais importante perguntar por que razão encontra aqui tantos compradores.
Essa pergunta talvez seja mais difícil de responder.
E talvez seja precisamente por isso que tenhamos tanta necessidade de a fazer.
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