Crescemos com o ouvido cilindrado por esta expressão infame, discriminatória na forma e xenófoba na origem. Cravou-se na pele da nossa memória coletiva como um ferrete — desses com que outrora se marcavam os animais — e fez da palavra cigano um sinónimo insinuado de desonestidade, fraude e malandragem.
Estou estarrecido.
Passei anos a ouvir que os ciganos eram criminosos. Descubro agora que também há ciganos magistrados do Ministério Público. Que desconforto para quem prefere explicar o mundo com meia dúzia de preconceitos cuidadosamente polidos.
A notícia é devastadora para os fabricantes de estereótipos. Ana Maria Jacinto Faneca acaba de ingressar na magistratura do Ministério Público. Licenciada, mestre em Direito e formada pelo Centro de Estudos Judiciários, alcançou um lugar reservado aos que transformam talento, disciplina e trabalho em mérito.
Que incómodo.
Durante demasiado tempo ensinaram-nos que, quando um cigano comete um crime, o caso deixa imediatamente de ser individual. Converte-se numa alegada prova sobre “os ciganos”. A estatística evapora-se, a razão suspende funções e um único indivíduo passa a representar milhares.
Mas eis que surge uma cigana magistrada.
Seria lógico que o raciocínio funcionasse em sentido inverso. Se um criminoso pode representar toda uma comunidade, também uma magistrada deveria poder representá-la. Mas não. Subitamente, a generalização entra de baixa médica. A magistrada transforma-se numa “exceção”. O preconceito revela, afinal, uma admirável elasticidade: sabe abrir exceções sempre que isso lhe permite sobreviver.
É um mecanismo antigo. O mérito raramente confirma uma comunidade; o crime quase sempre a condena.
Uns chamam-lhe bom senso. A lógica chama-lhe outra coisa.
Há quem atravesse a vida à procura apenas dos factos que confirmam aquilo em que decidiu acreditar. Quando surge um facto inconveniente, não revê a convicção. Limita-se a alterar o critério.
É por isso que esta notícia incomoda.
Não porque demonstre que todos os ciganos são exemplares — não demonstra, nem teria de o fazer. Tal como um criminoso cigano nunca demonstrou que todos os ciganos fossem delinquentes. Os dois raciocínios pertencem à mesma linhagem: a da preguiça intelectual.
Nenhuma comunidade humana cabe num rótulo. Em todas existem pessoas honestas e desonestas, estudiosas e negligentes, solidárias e egoístas. A Justiça sabe-o. Por isso julga pessoas, nunca etnias.
Talvez seja esse o verdadeiro alcance desta notícia.
Ela não absolve nem condena uma comunidade. Faz algo muito mais exigente: obriga-nos a olhar para o espelho.
E os espelhos têm um defeito intolerável para os preconceituosos: devolvem sempre a imagem de quem neles se contempla.
Ana Maria Jacinto Faneca não representa todos os ciganos. Representa o seu mérito, o seu trabalho e a sua perseverança. E representa, inevitavelmente, uma derrota para todos os que persistem em acreditar que o destino de uma pessoa pode ser escrito pela origem que herdou.
Talvez uma criança cigana leia esta notícia e descubra um horizonte que lhe disseram não existir.
E talvez alguém, do outro lado, descubra que o maior gueto nunca foi um bairro.
Foi uma ideia.
Uma sociedade mede-se pela capacidade de julgar cada pessoa pelo seu carácter e pelos seus atos, nunca pela etnia em que nasceu.
Tudo o resto não é prudência.
É apenas preconceito disfarçado de lucidez.
Talvez não seja coincidência que o preconceito floresça precisamente onde o conhecimento definha. Quanto menos espaço ocupam a cultura, a história, a literatura ou a filosofia, mais facilmente os estereótipos se apresentam como verdades evidentes. O preconceito alimenta-se da ignorância; o conhecimento obriga sempre à complexidade.
Não é por acaso que a ignorância costuma ser atrevida.
E há poucas coisas mais perigosas do que a ignorância convencida de que é inteligência.
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