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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS - Sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Ensino, Opinião

Filhos da pauta | Por José Figueiredo Santos

“Quando, por fim, as pautas aparecerem, sempre depois do prometido, haverá quem atribua o atraso ao servidor, ao algoritmo, ao fornecedor, à meteorologia ou à excessiva humidade do papel”

15:50 3 Agosto, 2026 15:57 3 Agosto, 2026
CRONISTA do POSTAL
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Se algum dia me recaísse sobre os ombros, por singular desígnio da Divina Providência ou por distração do eleitorado, a pasta da Educação, trataria logo de reparar uma das mais deploráveis desordens da vida nacional: esse profuso e dissolvente hábito da autoridade do Estado, que têm as famílias de marcar as suas férias segundo o calendário oficial dos exames. Um calendário publicado pelo Ministério não pode ser entendido como compromisso; trata-se apenas de uma delicadeza administrativa, dessas que o Governo distribui com a mesma intenção com que distribui promessas: para serem admiradas enquanto duram.

Os pais, sobretudo aqueles que persistem em imaginar que os filhos devem regressar à escola sabendo se transitam ou não de ano ou para a Universidade, precisam de compreender que a educação moderna começa justamente onde acaba a previsibilidade. Que se saiba, nada forma tão solidamente um cidadão como a incerteza. Há filhos que recebem diplomas; outros terão que receber paciência. Ambos aprendem qualquer coisa, ainda que esta última disciplina nunca tenha figurado nos programas oficiais.

Também se tem levantado um exagerado clamor em torno da resistência de alguns professores às maravilhas da digitalização. Nunca percebi semelhante acusação. O professor português nunca resistiu à inovação; limita-se a contemplá-la com a prudência de quem já sobreviveu a sucessivas reformas educativas, todas anunciadas como definitivas e todas abandonadas com a discrição de uma promessa eleitoral depois de contados os votos. Se, ainda assim, insistissem em duvidar do seu entusiasmo, sempre se lhes poderiam colocar umas respeitáveis orelhas de burro, não tanto para os humilhar quanto para recordar que certas tradições pedagógicas, quando envelhecem o suficiente, acabam inevitavelmente por regressar sob o honroso título de inovação.

A digitalização, aliás, é de uma simplicidade quase comovente. Escreve-se em papel como no tempo dos nossos avós; passa-se o papel por um scanner, converte-se em ficheiro PDF, adquire-se uma plataforma informática cujo preço inspire respeito e declara-se solenemente que a escola entrou na modernidade. Entre o papel e o ecrã decorrem apenas alguns milhões de euros, dois comunicados ministeriais, um seminário sobre transformação digital e três fotografias do senhor ministro diante de um monitor. Depois disto, quem ousará sustentar que continuamos prisioneiros do século passado?

É então que aparecem aqueles cavalheiros que vivem da inconveniência de pensar. Explicam, com uma gravidade quase ofensiva, que isto não é digitalização; que o exame continua a nascer manuscrito; que apenas se digitaliza o cadáver do papel. Acrescentam, numa crueldade pouco patriótica, que um processo onde se escreve, recolhe, organiza, digitaliza, converte, distribui, classifica, valida e publica dificilmente pode ser acusado de simplicidade. Como se a administração pública devesse alguma vez ser simples. Pelo contrário: um procedimento respeitável distingue-se precisamente por possuir etapas suficientes para que, sobrevindo um desastre, ninguém consiga determinar em que repartição tal ocorreu.

Esses espíritos dados à lógica chegam mesmo a afirmar que um exame digital só merece tal nome quando nasce digital; quando o aluno escreve diretamente numa plataforma segura, onde a resposta existe desde o primeiro instante como documento eletrónico e não como manuscrito condenado, desde o berço, à peregrinação pelos corredores da burocracia. É uma teoria sedutora, sem dúvida; mas profundamente injusta para com as máquinas fotocopiadoras, os scanners e os servidores informáticos, que tanto têm contribuído para a prosperidade nacional e para a economia de tantas empresas especializadas em resolver problemas criados por soluções anteriores.

Há, além disso, uma elegância quase litúrgica no sistema vigente. O aluno escreve. A escola recolhe. O funcionário organiza. Outro digitaliza. Um terceiro confirma. Um quarto distribui. Um quinto classifica. Um sexto valida. Um sétimo publica… ai que me está a faltar o fôlego. Cada funcionário, ao tocar na prova por breves instantes, transmite-lhe um pouco da alma administrativa da República. Não se trata apenas de avaliar conhecimentos; trata-se de proporcionar ao exame uma verdadeira carreira no funcionalismo público.

Dir-se-á que uma folha pode ser mal digitalizada, trocada, truncada, ilegível ou apenas desaparecida naquelas regiões misteriosas da informática onde tudo se perde sem deixar rasto. Mas também não devemos querer retirar toda a emoção ao ensino. Um exame cujo destino fosse conhecido desde o princípio seria quase uma afronta ao espírito de aventura que tanto procuramos incutir na nossa juventude.

Os mesmos especialistas, sempre inclinados para o desalento, persistem em sustentar que discutir apenas os atrasos da plataforma ou os erros de digitalização é ocupar-se da febre ignorando a doença. Segundo eles, o verdadeiro problema consiste em acreditar que se moderniza uma instituição apenas porque se lhe colocaram computadores à entrada. Confesso que esta observação me parece pouco delicada para com tantos reformadores que dedicaram anos da sua existência a mudar o nome das coisas, conservando-lhes cuidadosamente a natureza.

Depois surge uma outra extravagância ainda mais inquietante. Pretendem que todos os alunos disponham de um computador adequado para realizar exames nacionais. Como se um computador fosse hoje um instrumento elementar de trabalho e não um luxo filosófico reservado às apresentações em PowerPoint sobre inclusão digital. Falam de igualdade, de cidadania, de futuro, de competências. É fácil pronunciar palavras tão sonoras quando não se tem de acomodá-las nas estreitas margens do Orçamento do Estado, esse romance fantástico onde cada capítulo promete abundância e termina, de forma invariável em contenção.

Naturalmente, admito exceções. Sempre as admitimos. Haverá alunos que, por circunstâncias particulares, continuarão durante algum tempo a escrever à mão. O Estado gosta muito das exceções; permitem-lhe conservar o princípio sem jamais o aplicar inteiramente.

E, todavia, falando agora não como ministro imaginário, mas como simples cidadão que ainda conserva a imprudência de acreditar que as palavras devem significar aquilo que dizem, ocorre-me uma dúvida bem incómoda. Talvez o problema nunca tenha residido na plataforma, nem no scanner, nem sequer nos atrasos das pautas e das mesmas suspensas numa espécie de corda de roupa. Talvez o verdadeiro equívoco tenha começado no dia em que resolvemos chamar digital a um processo que continua a brotar do papel.

É um velho hábito nacional enraizado. Mudamos o rótulo para evitar a reforma. Pintamos a fachada, inauguramos a placa, multiplicamos as conferências, distribuímos folhetos de papel reciclado sobre sustentabilidade e imaginamos que a realidade, por delicadeza institucional, acabará por se adaptar ao discurso.

Mas a realidade possui um enguiço antigo: raramente lê os comunicados ministeriais.

Assim continuaremos, porventura durante um futuro próximo de muitos anos, a chamar exame digital a uma prova manuscrita, que é como chamar automóvel elétrico a uma carroça puxada por cavalos só porque lhe colocámos um GPS.

E quando, por fim, as pautas aparecerem, sempre depois do prometido, haverá quem atribua o atraso ao servidor, ao algoritmo, ao fornecedor, à meteorologia ou à excessiva humidade do papel. Nunca ao sistema, porque os sistemas, entre nós, possuem uma dignidade quase sacral: podem falhar ad infinitum sem jamais perderem a reputação de infalíveis.

É talvez esta a mais sólida tradição da administração portuguesa. Não a de resolver os problemas, mas a de organizá-los de forma tão metódica que acabem por parecer inevitáveis.

Por favor, não nos excitemos. As pautas, tal como certas políticas públicas, cheguem sempre um bocadinho atrasadas.

Leia também: A odisseia das hérnias na rede de Expressos | Por José Figueiredo Santos

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