Miguel Martín é empregado de mesa de profissão, mas atravessa atualmente um período de desemprego que o deixou dependente financeiramente da pessoa com quem vive: a avó. O seu testemunho foi divulgado recentemente pelo jornal digital espanhol El Español, depois de ter contado no programa laSexta Xplica como a pensão da familiar se tornou essencial para conseguir manter as despesas do dia a dia.
Sem trabalho, Miguel reconhece que a pensão recebida todos os meses pela avó é atualmente o principal rendimento do agregado familiar. O empregado de mesa vai ainda mais longe ao descrever o impacto que a ausência desse dinheiro teria na sua vida: “Se não fosse pela pensão dela, não sei onde estaria agora. Estaria debaixo de uma ponte”, afirmou no programa da laSexta.
A história surge num setor que continua a ter um peso significativo no mercado de trabalho espanhol. De acordo com o relatório Tendências do Mercado de Trabalho em Espanha 2026, do Serviço Público de Emprego Estatal (SEPE), a hotelaria representava 8,06% da afiliação total em Espanha em 2025 e reunia 1.746.999 trabalhadores. Os especialistas consultados pelo organismo identificaram salários baixos, horários incompatíveis com a vida familiar e elevada intensidade do trabalho entre as principais causas do desajuste entre algumas vagas disponíveis e quem procura emprego no setor.
Pensão da avó tornou-se o principal rendimento da casa
Miguel explicou que a avó desempenha atualmente um papel fundamental na economia doméstica. É ela quem assegura a principal fonte de rendimento, através da pensão, e fica responsável pelas compras, enquanto o neto procura contribuir de outras formas durante o período em que permanece sem trabalho.
A divisão de tarefas entre os dois vai além do dinheiro. Enquanto a avó se ocupa das compras, Miguel limpa e organiza a habitação. Na cozinha, conta, é novamente a avó quem assume o comando, até porque, como explicou na laSexta Xplica, “é quem põe o dinheiro”.
É precisamente esta dependência que leva Miguel a rejeitar as críticas de alguns jovens ao sistema de pensões. “Deviam ter vergonha”, afirmou no programa, defendendo que as pensões não são o principal problema para a sustentabilidade do sistema e apontando antes para as condições existentes no mercado de trabalho.
Miguel aponta problemas nas condições de trabalho da hotelaria
O empregado de mesa considera que a discussão sobre a sustentabilidade económica não deve ficar centrada apenas nas pensões. Durante a sua intervenção na laSexta Xplica, chamou a atenção para problemas que atribui à hotelaria, nomeadamente horas extraordinárias não pagas, más condições de trabalho e dificuldades de conciliação entre a profissão e a vida familiar.
Parte deste diagnóstico encontra respaldo nos dados oficiais. O relatório do SEPE refere que existem desajustes entre os postos de trabalho oferecidos pelas empresas e a procura de emprego nas profissões de empregado de mesa e cozinheiro. Segundo os especialistas consultados pelo organismo, entre as principais causas estão precisamente “salários baixos, jornadas não compatíveis com a vida familiar ou alta intensidade de trabalho”.
O mesmo relatório indica que a hotelaria tinha 1.746.999 pessoas afiliadas em 2025 e uma taxa de estabilidade próxima dos 52%, indicador que corresponde à proporção de contratos sem termo no total de contratos. Mais de 85% dos trabalhadores do setor estavam concentrados, por esta ordem, em restaurantes e estabelecimentos de refeições, estabelecimentos de bebidas e hotéis e alojamentos semelhantes.
Empregados de mesa continuam entre os profissionais mais contratados
Os dados oficiais ajudam também a enquadrar a profissão de Miguel. Em 2025, ajudantes de cozinha, empregados de mesa e cozinheiros foram as ocupações maioritariamente contratadas pela hotelaria espanhola, segundo o SEPE. O organismo assinala, contudo, que nas duas últimas profissões existem desajustes entre os postos oferecidos pelas empresas e a procura por parte dos trabalhadores.
Dados distintos do SEPE, relativos especificamente às pessoas com formação em hotelaria e turismo inscritas nos serviços públicos de emprego, mostram que, em 31 de dezembro de 2025, existiam 17.910 candidatos a emprego com essa formação, dos quais 8.260 estavam desempregados. Ao longo desse ano foram comunicados 31.144 contratos de pessoas com esta formação, 9.089 dos quais sem termo e 22.055 temporários. Estes números referem-se à formação académica dos candidatos e não ao conjunto dos trabalhadores do setor da hotelaria.
Enquanto não encontra trabalho é a avó que garante a estabilidade através da pensão
No caso de Miguel, os números traduzem-se numa situação pessoal muito concreta. Sem emprego neste momento, é a pensão da avó que constitui o principal rendimento da casa e lhe permite manter um teto e alimentação enquanto procura regressar ao mercado de trabalho.
O testemunho do empregado de mesa acaba, assim, por juntar dois temas que são frequentemente discutidos separadamente: as pensões e as condições laborais. Para Miguel, a pensão da avó funciona hoje como uma rede de segurança familiar enquanto permanece desempregado, razão pela qual defende que o debate deve olhar também para as condições oferecidas aos trabalhadores e para a dificuldade de alcançar estabilidade através do emprego.
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