Conhecido por Calita, António Martins começou a pescar aos 13 ou 14 anos e passou décadas ligado ao mar da Costa da Caparica. Aos olhos do pescador, porém, a praia onde sempre trabalhou mudou profundamente: há mais concessões, regras e atividades a disputar o espaço disponível para quem vive da pesca.
Numa reportagem da Lusa publicada em 14 de junho de 2026, Calita contou como viu a utilização do areal transformar-se ao longo dos anos. O problema, segundo o seu testemunho, é que os pescadores têm cada vez menos espaço para exercer a atividade.
“Antes tínhamos uma praia mais livre”
Para António, a diferença entre a Caparica onde começou a trabalhar e aquela que conhece hoje é evidente.
“Antes tínhamos uma praia mais livre para fazermos a nossa atividade, agora temos muita regra”, afirmou à agência Lusa, explicando que as limitações acabaram por dificultar o trabalho dos pescadores.
Ao longo dos anos, segundo os testemunhos recolhidos pela agência, o areal passou a acolher mais concessões de bares e restaurantes, escolas de surf e eventos. A falta de areia em algumas praias também foi apontada como um obstáculo, reduzindo o espaço para trabalhar e colocar as embarcações em terra.
De “senhores da praia” a disputar espaço no areal
A expressão usada na reportagem resume a transformação: os pescadores, antes descritos como os “senhores da praia”, passaram a ter de adaptar a atividade a um espaço cada vez mais condicionado.
Na pesca tradicional da Caparica, a praia não serve apenas para colocar os barcos na água. É também uma parte essencial do próprio método de trabalho.
A arte-xávega, por exemplo, implica que uma embarcação largue a rede no mar e regresse à praia, onde duas cordas são puxadas em simultâneo para trazer a rede para terra. Isso exige espaço para as embarcações, as redes e as equipas que trabalham no areal.
O Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial descreve esta prática na Costa da Caparica e na Fonte da Telha e destaca a importância das praias e dos fundos arenosos, sem rochas ou outros obstáculos, para o desenvolvimento desta técnica.
Uma profissão que começou ainda na adolescência
O percurso de António também mostra como a entrada na pesca acontecia muito mais cedo noutras gerações.
O inventário oficial da arte-xávega explica que, entre os pescadores veteranos, era comum os rapazes integrarem as companhas, os grupos de pescadores, a partir dos 12 anos. Começavam por tarefas como recolher a corda ou tirar a água do barco, acompanhando os pais ou outros familiares.
No caso de Calita, a Lusa situa o início na pesca aos 13 ou 14 anos. Na reportagem, era apresentado como mestre das embarcações “O Rei dos Mares” e “A Rainha dos Mares”.
Décadas depois, a continuidade da atividade enfrenta outro problema apontado por pescadores da comunidade: a dificuldade em atrair novas gerações.
Noutra reportagem da Lusa, também publicada em 14 de junho de 2026, António Graça, conhecido por Toni, afirmou que havia cerca de uma década que não entrava um jovem para a pesca na Caparica. O pescador salientou a dureza do trabalho e lamentou a diminuição do número de pessoas interessadas na profissão. Trata-se do seu testemunho, não de uma contagem oficial apresentada pela agência.
Pesca tradicional da Caparica é património cultural imaterial
A relevância desta atividade ultrapassa a dimensão económica.
A Arte-Xávega na Costa da Caparica está inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial desde 2017. A inscrição foi publicada no Diário da República através do Anúncio n.º 14/2017, de 16 de fevereiro, que reconhece a importância desta tradição para a identidade da comunidade piscatória, a sua profundidade histórica e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
De acordo com a ficha do inventário, esta técnica chegou à região através de comunidades piscatórias oriundas de Ílhavo e Olhão, ligadas ao povoamento da Costa da Caparica a partir da segunda metade do século XVIII. Ao adaptar-se às condições locais, adquiriu características próprias.
Mais recentemente, surgiram iniciativas para dar maior projeção à tradição. Numa notícia de 6 de setembro de 2026, a Lusa deu conta da organização do jantar “Mar à Mesa”, na Caparica, anunciado para 10 de setembro. A iniciativa pretendia divulgar a arte-xávega e impulsionar os esforços para obter o reconhecimento como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Para António, contudo, a questão começa num problema muito mais concreto: ter espaço suficiente na praia para continuar a exercer a profissão que pratica desde adolescente. Foi essa a preocupação que deixou à Lusa, ao defender que os diferentes usos do areal não podem esquecer quem ali trabalha.
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