As férias escolares costumam ser sinónimo de descanso, mas para muitas famílias representam também um desafio diário. Sem os horários da escola, desaparecem muitas das rotinas que organizam o dia, obrigando os pais a encontrar um novo equilíbrio entre trabalho, lazer, tarefas domésticas e tempo em família. Quando existe uma criança com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), este desafio pode tornar-se ainda maior. Para que este período seja vivido com mais serenidade e bem-estar, apresentam-se algumas sugestões práticas que podem ajudar as famílias a descansar e, simultaneamente, a apoiar o desenvolvimento dos filhos.
Com o chegar do verão, e da consequente pausa letiva prolongada, surge uma questão comum em muitas casas: como equilibrar trabalho, filhos, atividades e tarefas domésticas?

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Toda a organização familiar começa por um elemento simples: regras claras e consistentes. Vale a pena que todos os adultos que convivem com a criança conheçam e apliquem as mesmas regras, para que exista coerência nas orientações dadas. Quando as expectativas são partilhadas, evitam-se mensagens contraditórias e reduz-se a probabilidade de os adultos se desautorizarem mutuamente perante a criança. Por exemplo, se ficar definido que o tablet só pode ser utilizado depois de arrumar os brinquedos, todos devem manter essa orientação. Quando uma regra é aplicada de forma consistente, a criança compreende melhor o que se espera dela e sente os limites como mais claros e previsíveis.
É igualmente fundamental que os adultos cuidem do seu próprio bem-estar, porque a forma como se sentem influencia diretamente a qualidade da relação com a criança. Na interação com uma criança com PHDA revela-se particularmente importante que o adulto procure manter-se tranquilo, seguro, paciente e disponível para ouvir, conseguindo conversar, cuidar e estabelecer limites de forma razoável e assertiva. Reservar pequenos momentos para descansar, fazer algo prazeroso ou recuperar energia não é egoísmo: é uma condição importante para reduzir o stress e lidar melhor com as exigências do dia a dia.
As férias são também uma excelente oportunidade para sair de casa, variar o ambiente e proporcionar experiências agradáveis. Sempre que possível, podem realizar-se passeios ao ar livre, andar de bicicleta, dar mergulhos na piscina, ir ao cinema, ao teatro ou simplesmente passar algum tempo em espaços diferentes. A atividade física regular merece um destaque especial, uma vez que pode contribuir para melhorar a atenção, reduzir a inquietação motora e favorecer a regulação emocional, benefícios particularmente relevantes nas crianças com PHDA.
Em casa, também é possível criar momentos positivos, como ver um filme em família, jogar jogos de tabuleiro, cozinhar em conjunto ou envolver os filhos em pequenas tarefas domésticas adaptadas à idade. O ideal é escolher atividades equilibradas, suficientemente estimulantes, mas sem exigirem demasiado esforço mental durante longos períodos, evitando a sobrecarga e favorecendo a regulação emocional.
Mesmo durante as férias, deve existir alguma rotina, ainda que flexível e adaptada ao ritmo desta época. Todas as crianças beneficiam de previsibilidade – sobretudo as crianças com PHDA – mesmo quando os dias são mais leves e descontraídos. Quando sabem minimamente com o que podem contar, sentem-se mais seguras, menos ansiosas e mais disponíveis para colaborar. Na manhã de cada dia pode ser útil explicar, de forma simples, como se prevê que o dia irá decorrer, que atividades estão planeadas e o que se espera de todos. Esta orientação dá direção à criança e reduz a sensação de confusão.

Psicólogo, membro da direção da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
As atividades devem ser planeadas com duração adequada e objetivos realistas. Ao propor uma tarefa, é preferível que seja curta, clara e possível de concluir, para que a criança consiga manter a atenção e sentir que teve sucesso. Se correr bem, vale a pena explicar concretamente o que foi positivo, destacando o esforço, a persistência, a atenção a um determinado detalhe ou a forma como concluiu a tarefa. Quando houver aspetos a melhorar, o feedback deve ser dado de modo calmo e específico, ajudando-a a perceber o que pode fazer de forma diferente numa próxima oportunidade. Tal como acontece nos trabalhos escolares, não devemos apenas apontar o que correu menos bem, mas também valorizar aquilo que foi conseguido e apoiar de forma construtiva quando surgem dificuldades.
É benéfico acompanhar a criança nas tarefas e procurar torná-las mais leves, interessantes e até divertidas. A presença do adulto pode fazer uma grande diferença, sobretudo em atividades que exijam organização, persistência ou tolerância à frustração.
Estes momentos podem também ser aproveitados para conversar sobre interesses, preocupações e objetivos, criando oportunidades de proximidade e confiança. Muitas destas crianças são sensíveis, inseguras e nem sempre reconhecem o seu próprio valor, especialmente quando já se sentiram rejeitadas ou incompreendidas em diferentes contextos. Por isso, importa reforçar as suas qualidades, valorizar os progressos e ajudá-las a sentir-se mais seguras na relação com os outros e consigo próprias.
Quando for necessário advertir ou corrigir, é preferível fazê-lo com calma e proporcionalidade. É frequente que a criança pareça não ouvir quando alguém lhe fala diretamente, como se estivesse com o pensamento noutro assunto, mesmo sem uma distração evidente. Esta dificuldade pode contribuir para esquecimentos ou para a perda de objetos importantes, como óculos, mochila, estojo ou outros materiais necessários. Nesses momentos, convém evitar transformar pequenos incidentes em grandes crises. Uma advertência breve, clara e tranquila tende a ser mais eficaz do que uma reação intensa, ajudando a criança a compreender o que aconteceu e como pode melhorar.
É importante que o adulto procure colocar-se no lugar da criança e compreender o seu ponto de vista. O que para um adulto parece evidente pode não ser claro para ela, ou pode ser interpretado de outra forma. Sempre que existam dúvidas sobre o que a criança quis dizer, é preferível perguntar com curiosidade e serenidade, em vez de assumir imediatamente uma intenção negativa. Esta atitude favorece a empatia, melhora a comunicação e ajuda a criança a sentir-se escutada, criando menos barreiras e mais possibilidades de cooperação.
Escolher o momento certo para conversar é chave, não sendo recomendado fazê-lo quando a criança ou o adolescente estiver frustrado, zangado ou resistente. Nessas alturas, é provável que esteja menos disponível para ouvir, refletir ou aceitar orientações. Em vez de insistir no auge da tensão, pode ser mais eficaz esperar por um momento de maior calma, em que a comunicação seja possível e produtiva. Esta escolha ajuda a evitar ciclos de reação intensa e mostra que os conflitos podem ser resolvidos com respeito, paciência e diálogo, contribuindo para uma relação mais segura e cooperante.
Por fim, importa lembrar que não existem pais perfeitos, nem filhos perfeitos, e que as férias naturalmente também podem trazer cansaço, impaciência e desafios. Estas orientações não pretendem criar mais exigência ou culpa, mas sim funcionar como linhas simples, ajustáveis à realidade de cada família.
Boas férias!
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