Com A Música do Amolador, Miguel Duarte regressa à poesia com um livro atravessado pela memória, pela infância, pela perda e pela paisagem algarvia. Natural de Loulé, o autor assume uma escrita exigente, feita de revisões, imagens intensas e fidelidade ao tempo interior da criação.
Depois da apresentação na Feira do Livro de Lisboa, fala ao Postal do Algarve sobre o lugar do Sul na sua obra, o reconhecimento de Lídia Jorge e a responsabilidade de escrever sem ceder à pressa.

P – O título A Música do Amolador sugere uma arte de afiar: a lâmina, a palavra, talvez a memória. Como surgiu este título e que lugar ocupa essa figura do amolador na ideia geral do livro?
R – O título foi mesmo a última coisa a surgir. Caiu como um raio na escuridão. Andei à procura, experimentei alguns, mas este veio calar todos os outros. Eu pertenço talvez à última geração de portugueses para quem o som com que o amolador se fazia anunciar é indissociável das memórias da juventude. Dormia muitas vezes na casa dos meus avós, em Loulé, e aí não havia sábado em que não acordasse com o trinar daquela flauta, que pousava ali no meio da gente como um pássaro raro. Enfim, tudo isso foi-se perdendo; está quase extinto. Hoje, essa vivência aparece mais como uma intrusão na paisagem regulada da modernidade. As pessoas passam-lhe cuidadosamente à roda; não sabem o que pensar. Há algo de belo e ao mesmo tempo triste na ideia de alguém carregar às costas uma arte a preto e branco.
Meditações à parte, eu também sinto que sou um escritor um pouco à antiga e, nessa maneira de ser, sou um corpo estranho. Trabalho na sombra, estrago o sono, tomo o meu tempo. Não permito interferências nesse processo. Respeito a solidão dessa luta. E o resultado é que os meus poemas surgem habitados por personagens e situações que parecem caminhar também elas no limiar da extinção. Mas aquilo é tudo o que sabem ser e há nisso uma certa ternura que as torna palpáveis. Talvez por isso A Música do Amolador tenha feito logo sentido.
Tenho fome de criar coisas novas
P – Lídia Jorge escreve que este livro anuncia “o surgimento de uma grande voz a caminho” e fala numa torrente de imagens que lembra Dylan Thomas, Álvaro de Campos e, no Sul português, Ramos Rosa, Casimiro de Brito e Nuno Júdice. Como recebeu este reconhecimento e que peso têm, para si, essas possíveis linhagens literárias?
R – Desde logo, o apoio da Lídia Jorge fez duas coisas muito importantes por mim. A primeira é que trouxe uma sensação de amparo à minha visão criativa. Porque o olhar que temos da nossa escrita muitas vezes não coincide com o olhar dos outros. É um abismo traiçoeiro que só pode ser combatido com inquietude e autocrítica constantes, mas mesmo isso não garante chão firme para coisa nenhuma. Quem quer ser publicado tem que sujeitar-se à aprovação ou à obliteração que vem de fora… E a segunda é que uma mulher que muito admiro acaba por passar-me uma responsabilidade positiva para as mãos. Um estímulo, se preferir. Um estímulo para continuar a evoluir e procurar novas formas de me expressar pela poesia. Porque o que está feito, está feito. Foi um livro importante para mim; seguirá agora o seu caminho, mas não vejo utilidade nenhuma em ficar especado perante o que fiz. Tenho fome de criar coisas novas. E eu incluo os nomes referidos nessa noção de responsabilidade. Porém, mais do que pensar em linhagens literárias, interessa-me escrever e ter quem me publique os livros.
P – Ao longo do livro surgem o mar, as falésias, a Bordeira, Aljezur, o salitre, a terra, as ruínas e uma certa luz do Sul. De que forma o Algarve entra na sua poesia: como território real, como memória, como ferida ou como matéria simbólica?
R – Como tudo isso. Tenho dois Algarves dentro de mim. O Algarve que me foi revelado pela mão dos meus pais durante a infância é um outro Algarve muito particular, de que me apropriei à medida dos meus sentimentos. Cheguei à maioridade de pertencer a um sítio, que é tão real quanto imaginado. E é no ponto onde esses dois Algarves se cruzam que brotam alguns estados de alma para o que escrevo. Mas sinto que o livro é, acima de tudo, de uma humanidade universal. Aqui e ali, o Sul entra nele, mas é porque está intimamente ligado à minha experiência. Serve sempre como elevação, nunca como redoma. Muito sinceramente, acho que se o leitor não se der ao trabalho de ler a badana, nem vai fazer essa ligação à partida. Escrevo em tantos cenários…

P – Este é o seu segundo livro de poesia. Que diferença sente entre o Miguel Duarte que escreveu o primeiro livro e o poeta que agora publica A Música do Amolador pela Guerra e Paz? Houve uma mudança de voz, de exigência ou de ambição literária?
R – Sinto que houve um trabalho literário muito mais apurado com este livro. Passou por intermináveis afinações e revisões; tentei levar a minha linguagem a novos horizontes. Os próprios enlaces oníricos: procurei que rompessem com as expectativas decorrentes da leitura. Queria que o livro entrasse pelos olhos como uma tontura. A poesia permite-nos isso. Portanto, nesse sentido, sim, maior exigência e ambição. Mas repare, a matéria-prima mantém-se a mesma. E a matéria-prima é os sentimentos. É isso que carrega o livro em ombros. A técnica está ali para servir os sentimentos, sem os quais seria apenas um corpo grotesco. Não há ali uma linha que tenha sido escrita sem esse propósito. Portanto, o importante era que cada poema levasse tudo o que podia levar de mim.
Já o primeiro livro foi um tiro de partida que tinha que ser dado. Para uma estreia, superou as minhas expectativas, embora, à distância, o veja como um objeto imperfeito. E este também, à distância, parecer-me-á um livro cada vez mais imperfeito. Mas eu sou assim, severo comigo próprio. Talvez por isso não tenha essa tentação de publicar a granel. Preciso de sentir um certo nível de satisfação com o que escrevo, o que não é fácil de atingir. E a exigência vai sendo cada vez maior. Hoje, publica-se muito, mas escreve-se pior. Perdeu-se um pouco o valor do rigor muito por culpa das editoras de vaidade, das redes sociais e da crescente infantilização do leitor, todo esse caldo de indulgências. Eu não quero render-me a essa situação. Tenho as minhas regras e vejo o tempo como um aliado.
O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam
P – Há no livro uma forte presença da infância, da mãe, da casa, do corpo, da solidão e da perda. Até que ponto estes poemas partem de uma experiência autobiográfica e em que momento essa experiência se transforma em construção poética?
R – O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam. Ou seja, há ali muito que é puramente imaginário, mas, no fundo, tudo jorra da mesma fonte, como só a pessoa que o escreve poderia experienciá-lo. O livro é táctil nesse sentido. Queria que os poemas tivessem a forma de uma presença de carne e osso.
Mas, na realidade, a construção poética começa muito antes. Tem a ver com um conflito interior. Desde cedo fui uma criança sensível e há um movimento irresistível por parte do mundo para esmagar essa sensibilidade. É tudo muito binário, ou se mata ou se morre, ou se ganha ou se perde, ou se é a favor ou contra. Enfim, isto é particularmente violento para quem se comove facilmente. Agora lembro-me de que era uma criança algo solitária. Tinha muitos amigos, mas também gostava de estar sozinho. Porquê? Então parece-me que comecei a escrever poemas na adolescência porque era preciso defender esse lado belo e intocado. Era mais importante que essa verdade se impusesse aos gestos forjados.

P – A sua escrita é marcada por imagens muito intensas, versos longos, um fluxo por vezes narrativo e uma linguagem que parece querer levar cada frase ao limite. Como se trabalha um poema: escreve por impulso ou há depois um processo rigoroso de corte, depuração e reescrita?
R – Um poema tem essas fases todas. Dá muito, muito trabalho. Creio que esse mito dos impulsos mata à nascença muitos aspirantes a poetas, porque já vão com a ideia de que esse primeiro momento de fluidez é o princípio e o fim de tudo. As imagens vêm-me com maior naturalidade comparadas com o resto, mas esse impulso, se quiser, é apenas o pincel a dizer que quer ir mais para aqui ou mais para ali. Depois, é preciso dar-lhe uma forma que lhe faça justiça e isso representa talvez noventa por cento do tempo despendido. Pelo menos, sinto isso quando escrevo. Ou seja, as palavras me levam pela mão e têm apetite por ir mais além. Mas é preciso transpor para a linguagem aquilo que se vê sem lhe travar a vivacidade. Não há uma resposta fácil para essa pergunta.
Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo
P – Depois da apresentação de A Música do Amolador na Feira do Livro de Lisboa, e tendo em conta a sua forte ligação ao Algarve, que balanço faz da receção ao livro e o que gostaria que os leitores algarvios nele encontrassem: uma voz da região, uma voz contra a ideia de periferia, ou simplesmente poesia capaz de falar para lá de qualquer geografia?
R – Gosto que saibam que sou do Algarve e que sou de Loulé. Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo. A meu ver, quem não é daqui é que é periférico. Por isso, pode dizer-se que a minha poesia é iluminada em vários momentos por essa luz do Sul, mas a verdade é que vai beber a elementos que, ao fim e ao cabo, são comuns a toda a gente e, portanto, transcendem esse lugar geográfico.
De resto, ainda é muito cedo para ter uma imagem clara do percurso que o livro vai fazer. Saiu apenas no mês passado. Estou satisfeito por ter concluído esta etapa e grato a quem confiou no meu trabalho. É esse o meu balanço para já.
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