Durante muitos anos (e ainda hoje) discutimos uma questão que parecia decisiva: será melhor para uma criança crescer com os pais juntos ou com os pais separados?
Hoje sabemos que essa não é a pergunta mais importante.
A investigação científica das últimas décadas tem demonstrado, de forma consistente, que aquilo que mais prejudica o desenvolvimento das crianças não é a separação dos pais em si mesma. O verdadeiro problema é a exposição prolongada ao conflito, ao medo, à insegurança e à perda de relações afetivas significativas.
Uma criança que vive numa família aparentemente intacta, mas marcada por discussões constantes, hostilidade e tensão emocional, pode sofrer mais do que uma criança cujos pais se separaram, mas conseguiram construir uma relação parental respeitadora e cooperante.

Podemos simplificar a realidade em três cenários.
– Pais juntos e em conflito permanente.
– Pais separados e em conflito permanente.
– Pais separados, mas capazes de cooperar e colocar os filhos acima das suas divergências.
A evidência aponta claramente para que este último cenário seja, em regra, o mais favorável ao desenvolvimento da criança.
E aponta também para que o segundo seja frequentemente o mais destrutivo.
Porque ao conflito junta-se a perda da convivência diária com um dos pais, os conflitos de lealdade, os sentimentos de abandono e, muitas vezes, anos de litigância que transformam a infância num campo de batalha.
O problema não está na forma jurídica da família.
Está no conflito.
E hoje sabemos que esse conflito não produz apenas sofrimento emocional.
Produz alterações reais no desenvolvimento da criança.
Afeta a forma como o cérebro se organiza.
Afeta os mecanismos de resposta ao stress.
Afeta a aprendizagem.
Afeta a saúde futura.
A criança não vive o conflito apenas na mente.
Vive-o no corpo inteiro.
Talvez por isso a verdadeira questão ética não seja descobrir quem tem razão.
Nem quem ganhou o processo.
Nem quem venceu a última batalha.
A verdadeira questão é outra:
Que direito tem um adulto de sacrificar o bem-estar dos seus filhos para continuar uma guerra contra o outro progenitor?
Ao longo da minha experiência profissional aprendi uma lição simples.
Os conflitos persistentes raramente sobrevivem quando uma das partes deixa de os alimentar.
Quando deixa de responder à agressão com agressão.
Quando deixa de procurar culpados.
Quando deixa de precisar de vencer.
Quando deixa de precisar de ter razão.
Quando passa a preocupar-se mais com a saúde dos filhos do que com a derrota do outro progenitor.
Ninguém discute sozinho.
Ninguém faz uma guerra sozinho.
O conflito exige cooperação.
A paz também.
É neste contexto que deve ser entendida a residência alternada.
Não como uma solução mágica.
Não como um objetivo em si mesmo.
Mas como um possível instrumento para garantir a presença de ambos os pais na vida da criança e reduzir dinâmicas de exclusão.
O essencial continua a ser o mesmo: reduzir o conflito.
Porque a pergunta decisiva não é:
«Com quem vive a criança?»
A pergunta decisiva é:
«Em que ambiente emocional vive a criança?»
Uma criança criada na paz, no respeito e na cooperação terá normalmente condições para crescer de forma saudável.
Uma criança criada no medo, na hostilidade e na guerra permanente pagará frequentemente esse preço durante muitos anos.
Às vezes durante toda a vida.
E quando isso acontece, não perde apenas a criança.
Perde a família.
Perde a comunidade.
Perde a sociedade inteira.
Talvez esteja na altura de compreendermos uma verdade simples: proteger as crianças não significa escolher um dos pais.
Significa protegê-las da guerra entre eles.
Talvez a verdadeira medida do amor pelos filhos não esteja naquilo que fazemos por eles, mas sim naquilo que somos capazes de deixar de fazer ao outro progenitor por causa deles.
Porque o amor sem segurança não é amor; é apenas uma necessidade adulta disfarçada de afeto.
Nota bibliográfica: As ideias expostas neste texto apoiam-se na prática do autor e, doutrinalmente, entre outros, nos trabalhos de Vincent Felitti, Bruce Perry, Bessel van der Kolk, Jack Shonkoff e John Bowlby sobre trauma, desenvolvimento infantil e teoria do apego.
















