Depois de ler o editorial «O enterro da Morte», uma profissional de saúde que trabalha no Serviço de Oncologia do Hospital de Faro respondeu-me com uma frase que vale mais do que muitas páginas dedicadas à imortalidade:
«Estamos todos em lista de espera.»
A frase não precisa de explicações. É curta, dura e absolutamente democrática. Estamos todos inscritos, embora nenhum de nós conheça a sua posição, o tempo médio de espera ou o critério pelo qual seremos chamados. Não há senha visível, painel luminoso ou funcionário a informar quantas pessoas estão à nossa frente. Há apenas uma certeza: a lista existe.
Uns serão chamados demasiado cedo. Outros terão a oportunidade de envelhecer, de ver crescer os filhos e os netos, de acumular histórias e de se despedir com tempo. Alguns passarão anos a conviver com uma doença. Outros sairão de casa numa manhã aparentemente igual a todas as outras e não regressarão.
A morte é a única lista de espera em que ninguém pode reclamar prioridade, pedir transferência ou exigir uma previsão rigorosa.
Talvez seja por isso que preferimos fingir que não estamos inscritos.
Vivemos como se a nossa chamada estivesse marcada para um futuro tão distante que não merece ocupar o presente. Adiamos conversas, reconciliações, viagens, decisões e afetos. Guardamos palavras para outra ocasião e comportamo-nos como se o tempo fosse um saldo renovável. Dizemos que um dia telefonaremos, um dia visitaremos, um dia mudaremos de vida, um dia teremos coragem.
Mas o “um dia” é uma promessa feita por quem desconhece o prazo.
Para quem trabalha num serviço de Oncologia, a morte não é um conceito filosófico nem uma personagem que poderá vir a ser enterrada num futuro dominado pela ciência. Tem nomes, rostos, famílias e histórias. Surge nos corredores, nas consultas, nos resultados de exames, nos silêncios depois de uma notícia difícil e na esperança depositada em cada tratamento.
Também surge, felizmente, nas remissões, nas recuperações e nas pessoas que regressam à vida depois de terem sido obrigadas a olhar de frente para a possibilidade de a perder.
A ciência tem prolongado vidas que, há poucas décadas, teriam terminado muito mais cedo. Há doenças que deixaram de ser sentenças imediatas. Há tratamentos mais eficazes, diagnósticos mais precoces e uma capacidade crescente de transformar algumas formas de cancro em doenças crónicas ou curáveis.
Devemos celebrar cada uma dessas conquistas. Não há qualquer nobreza no sofrimento evitável, nem devemos romantizar a doença ou aceitar a morte quando ela pode ser combatida. A medicina deve continuar a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para salvar, tratar, aliviar e prolongar vidas com dignidade.
Mas prolongar a vida não é o mesmo que vencer a morte. E vencer biologicamente a morte não significaria, por si só, saber viver.
A profissional de saúde que me escreveu recordou também que seria bonito podermos viver para sempre se fôssemos seres bons como os elfos de O Senhor dos Anéis. O problema, acrescentou, está na nossa própria humanidade. Nas imperfeições que tornam a vida mais intensa e extraordinária, mas que também alimentam a injustiça, o egoísmo, a violência e a desigualdade.
É difícil contrariá-la.
O ser humano tem uma extraordinária capacidade para transformar descobertas em progresso, mas também para converter oportunidades em privilégios. Inventamos medicamentos que salvam vidas, mas nem todos conseguem recebê-los. Produzimos alimentos suficientes, mas continuamos a tolerar a fome. Criamos tecnologias que aproximam continentes e, ao mesmo tempo, construímos novas formas de isolamento, manipulação e conflito.
Se um dia a ciência descobrir como travar radicalmente o envelhecimento, é legítimo perguntar quem terá acesso a essa possibilidade. A imortalidade seria distribuída como um direito universal ou vendida como o mais caro de todos os produtos? Teríamos uma Humanidade sem morte ou apenas uma pequena elite capaz de adiar indefinidamente a sua vez?
As nossas imperfeições “dão cabo disto tudo”, como me escreveu. Exaltam uns, mas deixam sempre outros prejudicados.
Talvez o grande obstáculo à imortalidade não esteja no corpo humano, mas naquilo que fazemos uns aos outros.
A nossa inteligência técnica tem avançado muito mais depressa do que a nossa maturidade moral. Somos capazes de imaginar a colonização de outros planetas, a criação de máquinas inteligentes e a regeneração de órgãos. No entanto, continuamos incapazes de assegurar que todas as pessoas tenham acesso atempado a cuidados de saúde, habitação, alimentação, educação e segurança.
Queremos aprender a viver para sempre antes de termos aprendido a viver em conjunto.
Ainda assim, a frase «Estamos todos em lista de espera» não deve ser lida como uma rendição. Não é um convite ao fatalismo, à passividade ou à ideia de que nada vale a pena porque tudo acaba. Pelo contrário: é uma convocatória para a vida.
Saber que estamos na lista deveria tornar-nos mais atentos ao tempo, e não mais indiferentes. Deveria ajudar-nos a distinguir o essencial do ruído, as pessoas das coisas, os problemas reais das pequenas guerras com que desperdiçamos dias inteiros.
Se a chamada é inevitável, então importa decidir o que fazemos enquanto aguardamos.
Podemos passar o tempo a tentar ultrapassar os outros, a discutir lugares, a acumular bens que não levaremos connosco e a alimentar ressentimentos que apenas encurtam a vida que ainda temos. Ou podemos olhar para quem espera ao nosso lado.
Podemos escutar. Cuidar. Perdoar. Estar presentes. Defender quem tem menos voz. Aliviar o sofrimento de alguém. Deixar um lugar um pouco melhor do que o encontrámos.
Talvez não venhamos a assistir ao enterro da Morte. Talvez a ciência consiga apenas fazê-la recuar, obrigando-a a esperar um pouco mais antes de chamar cada nome. E isso já será uma vitória imensa, desde que essa vitória não seja reservada a alguns.
Porque a vida não se mede apenas pela sua duração. Mede-se pelo que fazemos com ela, pela marca que deixamos nos outros e pela dignidade com que atravessamos o tempo que nos foi concedido.
Estamos todos em lista de espera.
Não sabemos quem será chamado primeiro. Mas sabemos que ninguém deveria esperar sozinho.
E talvez a nossa humanidade se meça, afinal, não pela capacidade de escapar à lista, mas pela forma como tratamos quem está sentado ao nosso lado.
Leia também: O enterro da Morte | Editorial de Henrique Dias Freire
















