Um dia, alguns de nós vão participar no enterro da Morte. Será a primeira vez que a Humanidade assistirá ao sepultamento daquela que sempre a acompanhou e, provavelmente, a última vez na história da Humanidade tal como hoje a conhecemos.
Não haverá um corpo dentro do caixão. Não haverá família enlutada, missa de corpo presente ou cortejo até ao cemitério. Talvez nem sequer exista uma data precisa para assinalar o acontecimento. A Morte não desaparecerá de um momento para o outro. Começará por recuar, lentamente, perante os avanços da ciência, da medicina e da tecnologia. Primeiro, deixarão de ser fatais algumas doenças. Depois, aprenderemos a substituir órgãos, a regenerar tecidos, a corrigir defeitos genéticos e a atrasar, cada vez mais, o envelhecimento.
Até que, num determinado dia, alguém perceberá que a última pessoa a morrer simplesmente de velhice morreu há muitos anos.
Esse será o dia simbólico do enterro da Morte.
Durante toda a história humana, morrer foi a única certeza verdadeiramente universal. Reis e mendigos, sábios e ignorantes, poderosos e esquecidos acabaram sempre no mesmo lugar. A Morte foi a grande força niveladora da Humanidade, indiferente à riqueza, ao estatuto, à fama ou ao poder. Podíamos adiar a sua chegada, mas nunca recusá-la definitivamente.
É possível que isso venha a mudar.
Não sabemos quando. Talvez não aconteça durante a vida de quem agora lê estas palavras. Talvez esteja mais perto do que imaginamos. A verdade é que a ciência já não encara o envelhecimento apenas como uma inevitabilidade da existência, mas também como um processo biológico que pode ser estudado, retardado e, eventualmente, controlado.
O que durante séculos pertenceu ao domínio da religião, da mitologia e da ficção começa a entrar nos laboratórios.
A eternidade não será para todos
O desaparecimento da morte natural seria, à primeira vista, a maior vitória da Humanidade. Significaria o fim de milhões de despedidas, de vidas interrompidas e de famílias destruídas pela doença. Permitiria a cada ser humano dispor de mais tempo para aprender, amar, criar, viajar, errar e recomeçar.
Mas nenhuma vitória humana chega sem novas perguntas.
Quem terá acesso a essa longevidade? Será um direito de todos ou um privilégio reservado aos mais ricos? Viveremos numa sociedade em que alguns poderão acrescentar séculos à vida enquanto outros continuarão a morrer por falta de cuidados básicos?
Se assim for, o enterro da Morte não será uma celebração da Humanidade. Será apenas mais um triunfo dos que sempre puderam comprar aquilo que aos restantes foi negado.
A desigualdade já separa quem vive confortavelmente de quem luta para sobreviver. Num futuro em que a própria duração da vida possa ser adquirida, essa divisão tornar-se-á incomparavelmente mais profunda. De um lado, os quase imortais. Do outro, os mortais de sempre.
Seria a mais cruel de todas as fronteiras.
Também teremos de perguntar como funcionará um mundo onde as pessoas deixam de morrer. Quantos habitantes poderá sustentar o planeta? Haverá lugar para novas gerações? Quem ocupará os empregos, dirigirá as instituições ou tomará decisões políticas? Como se renovará uma sociedade cujos líderes poderão permanecer no poder durante séculos?
A morte leva consigo pessoas, mas também encerra ciclos. Obriga à substituição, à mudança e à transmissão. Sem ela, poderemos conquistar tempo, mas perder movimento.
O tempo deixará de ter o mesmo valor
A consciência de que a vida termina molda quase tudo o que somos. Amamos com urgência porque sabemos que podemos perder. Fazemos escolhas porque não temos tempo para viver todas as vidas possíveis. Guardamos fotografias porque os momentos não regressam. Celebramos aniversários porque cada ano representa uma parcela irrepetível da nossa passagem pelo mundo.
Que valor terá um dia quando tivermos diante de nós milhares de anos?
Talvez deixemos tudo para amanhã. A viagem, a reconciliação, o livro, o abraço, a coragem de mudar. Quando o tempo se tornar praticamente ilimitado, corremos o risco de deixar de o considerar precioso.
A imortalidade poderá libertar-nos do medo da morte, mas não necessariamente do vazio da existência.
Poderemos viver durante séculos e, ainda assim, não saber para quê.
Há ainda uma pergunta mais perturbadora: continuaremos a ser humanos? O nosso corpo poderá ser reparado, aumentado ou parcialmente substituído. A memória poderá ser preservada fora do cérebro. A inteligência poderá fundir-se com máquinas. Talvez chegue um momento em que não seja possível distinguir claramente onde termina o ser humano e começa a tecnologia.
Por isso, o enterro da Morte poderá também assinalar o nascimento de uma nova espécie.
Não seremos deuses, embora possamos acreditar que sim. Continuaremos vulneráveis aos acidentes, às guerras, à violência, às catástrofes e, sobretudo, às nossas próprias decisões. Matar a morte natural não significará eliminar todas as formas de morrer. Muito menos significará aprender a viver.
A última Humanidade mortal
Os que assistirem ao enterro da Morte serão testemunhas de uma rutura sem paralelo. Atrás deles ficará toda a Humanidade mortal: os nossos antepassados, as civilizações desaparecidas, os milhões de homens e mulheres que nasceram sabendo, mesmo sem o dizer, que um dia deixariam de existir.
À sua frente começará um mundo para o qual não existe memória, tradição ou experiência que possa servir de guia.
Talvez esse dia seja celebrado com discursos, bandeiras e promessas de eternidade. Talvez alguém anuncie que a Humanidade venceu o seu inimigo mais antigo. Contudo, junto da sepultura simbólica, seria prudente guardar algum silêncio.
Porque a Morte, apesar de tudo, ensinou-nos que o tempo não nos pertence. Ensinou-nos a despedir, a recordar e a transmitir. Ensinou-nos que cada geração recebe o mundo por empréstimo e deve entregá-lo à seguinte.
Ao enterrá-la, teremos de garantir que não sepultamos também a humildade, a renovação, a memória e o sentido da vida.
Um dia, alguns de nós poderão participar no enterro da Morte.
Mas, nesse momento, a pergunta mais importante já não será quanto tempo conseguiremos viver.
Será saber que espécie de vida merecerá durar para sempre.
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