Quando uma professora precisa inspecionar o próprio copo de água antes de beber, por receio de ser envenenada ou ferida mortalmente na sala de aulas pelos seus alunos, compreendemos que o pacto social básico que sustenta a escola entrou em colapso. O recente caso ocorrido no passado dia 30 de junho em São José dos Campos, no Brasil, onde estudantes de um 8.º ano introduziram cacos de vidro no recipiente térmico de uma docente, ultrapassa a fronteira da indisciplina escolar. Estamos perante uma agressão de gravidade extrema que deve servir de alerta global, inclusive para Portugal.
Não se trata de um episódio isolado no tempo ou no espaço, mas sim do reflexo mais sombrio de uma escalada de desrespeito e desumanização da figura do professor. A sala de aula, que deveria ser um santuário de partilha de conhecimento, empatia e crescimento cívico, tem-se transformado, com demasiada frequência, num palco de tensões em que quem ensina se encontra vulnerável e desprotegido.
O detalhe mais perturbador desta história não é apenas a colocação dos cacos de vidro, mas a assistência silenciosa, entre risos e cochichos, de uma turma que assistia à cena como se de um espetáculo de entretenimento se tratasse. Esta banalização do mal entre adolescentes obriga-nos a uma reflexão desconfortável, mas inadiável: onde falha o processo educativo antes de um jovem atravessar o portão da escola?
A escola não pode, nem consegue, substituir a educação cívica, ética e moral que nasce no seio familiar. Nenhum estatuto, regulamento interno ou reforma curricular é capaz de compensar o vazio deixado pela ausência de limites, de responsabilização e de cultivo do respeito pelo outro dentro de casa. Educar um filho é um direito fundamental, mas é, acima de tudo, um dever moral e jurídico inegociável.
Em Portugal, onde também assistimos com crescente preocupação a episódios de indisciplina, agressões verbais e físicas a docentes e pessoal não docente, este relato vindo do outro lado do Atlântico deve ser lido sem condescendência. Não podemos cometer o erro de olhar para estes acontecimentos como realidades distantes ou “casos extremos”. A erosão da autoridade do professor é um processo gradual e silencioso que começa nas pequenas impunidades do quotidiano e culmina na total perda de noção dos limites da integridade física e humana.
É imperativo repensar os mecanismos de proteção da classe docente e questionar seriamente a responsabilização legal e civil das famílias cujos educandos praticam atos que colocam em risco a vida de terceiros. Sem professores seguros, valorizados e respeitados, não há ensino de qualidade. E sem ensino, qualquer sociedade hipoteca irremediavelmente o seu futuro.
Que o reflexo dos cacos de vidro encontrados naquele copo nos faça enxergar a urgência de travar a degradação do respeito pela escola pública e por quem lá dedica a sua vida a formar cidadãos.
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