Não sei já o que mais admirar: se a prodigiosa versatilidade de Donald Trump, capaz de afirmar uma coisa de manhã, o seu contrário ao almoço e uma terceira versão, suficientemente ambígua para acomodar as duas anteriores, antes do jantar; ou se a capacidade analítica de todo um exército de comentadores, especialistas, antigos diplomatas, estrategas, internacionalistas e demais profissionais do pensamento que, noite após noite, desfila pelas nossas televisões para nos explicar aquilo que Trump quis realmente dizer.
O que, convenhamos, seria uma tarefa perfeitamente normal, não fora o pequeno pormenor de Trump frequentemente não ter dito aquilo que, segundo os especialistas, quis dizer.
Mas é precisamente aí que começa a ciência.
Trump diz A. O comentador esclarece-nos que, naturalmente, não devemos interpretar A literalmente. Trump, na realidade, queria dizer B. Algumas horas depois, Trump diz não apenas que não queria dizer B, mas que sempre defendeu C. O comentador, longe de se deixar perturbar por tão irrelevante contradição, explica-nos que C confirma, afinal, a estratégia que já estava subjacente a A.
E todos respiramos de alívio.
Porque, sem esta indispensável mediação intelectual, correríamos o risco de tomar Trump à letra. E tomar Trump à letra é coisa que nenhum analista sério parece disposto a fazer. Quando Trump diz que vai fazer algo, talvez esteja a ameaçar. Quando ameaça, talvez esteja a negociar. Quando negocia, talvez esteja a recuar. E quando recua, é porque, evidentemente, nunca teve intenção de avançar.
É uma forma particularmente sofisticada de infalibilidade: aconteça o que acontecer, confirma a análise anterior.
Talvez seja este, afinal, o verdadeiro segredo do fenómeno Trump. Não tanto o homem, mas a extraordinária máquina interpretativa que floresceu à sua volta. Trump fornece diariamente algumas palavras, duas ou três contradições e, se houver tempo, uma ameaça à escala mundial. O resto é trabalho dos especialistas.
Estes entram em cena, de sobrolho franzido e expressão grave, para nos revelar a profundidade estratégica escondida atrás de uma frase que, à primeira vista, parecia não ter profundidade nenhuma. E se a frase for contraditória com outra proferida há seis horas, melhor ainda: há mais material para análise.
No fundo, Trump descobriu uma forma admirável de estimular o emprego qualificado. Onde antes bastaria alguém dizer uma coisa e fazer outra, temos agora uma vasta comunidade de intérpretes dedicada a explicar-nos que dizer uma coisa e fazer outra pode ser, afinal, uma sofisticadíssima forma de coerência.
A manhã produz uma declaração. A tarde corrige-a. A noite desmente ambas. E, entretanto, três canais de televisão organizam painéis para discutir a consistência da linha estratégica.
No dia seguinte, recomeça tudo.
Talvez devêssemos, por isso, deixar de falar das contradições de Donald Trump. Uma contradição pressupõe que alguém ainda espere consistência. E talvez esse seja o nosso erro.
Trump não se contradiz: Trump diversifica.
E os comentadores não tentam adivinhar o que ele quer dizer: prestam um serviço público essencial, protegendo-nos do perigoso hábito de acreditar que as palavras significam aquilo que significam.
É, sem dúvida, uma parceria perfeita.
Trump fala.
Os especialistas explicam.
Trump desmente.
Os especialistas reinterpretam.
E nós, espetadores, ficamos finalmente a saber aquilo que ele teria querido dizer — se, por hipótese, soubesse exatamente o que estava a dizer.
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