Há um paradoxo que não consegue deixar de incomodar quem trabalha no turismo: as empresas dizem que lhes faltam pessoas qualificadas; as pessoas que saem do país dizem que lá conseguem melhores condições; e nós continuamos a investir em formação como se os certificados fossem a solução que falta.
Provavelmente não seja.
A formação profissional é importante. Pode abrir portas, desenvolver capacidades, criar oportunidades. Mas o seu propósito não termina com um certificado. A questão que importa é outra: o que acontece depois de alguém aprender e adquirir competências? Coloca-as em prática? São reconhecidas? Permitem progressão? Garantem uma remuneração compatível com a responsabilidade?
No Algarve vemos isto de perto. A cada nova época de turismo, as empresas precisam recrutar, integrar e formar pessoas para necessidades já conhecidas. Nem sempre é por falta de qualificações, mas por uma desconexão entre o que a formação promete, o que o trabalho oferece e como a sociedade valoriza (ou não) quem sabe fazer.
Quando a imagem das profissões começa cedo
Cresci na Alemanha e recordo-me de, desde a escola primária, representantes de diferentes profissões visitarem as nossas aulas. Não para nos vender uma carreira, era mais subtil. Era para mostrar que existem caminhos diferentes, que há competência e dignidade em profissões técnicas, operacionais e práticas. Ninguém nos disse qual escolher; mostrou-nos que havia escolhas.
Esta experiência deixa uma pergunta atual: que imagem transmitimos aos jovens sobre as profissões? Será que damos a conhecer, com a mesma naturalidade e respeito, os diferentes caminhos possíveis? Ou continuamos a reproduzir a ideia de que alguns percursos são, por natureza, menos dignos?
Não se trata de idealizar outro país ou importar receitas prontas. Trata-se de reconhecer que a valorização das profissões começa antes do diploma, começa na forma como as mostramos aos jovens.
Lá fora somos mais; cá somos menos
Tenho ouvido esta frase repetidamente: “Lá fora somos considerados uma mais-valia. Aqui, não.” E frequentemente vem acompanhada de: “O salário é incomparável com o que existe em Portugal.”
Isto não é uma regra universal. Os países, as profissões, as empresas são diferentes. Mas também não deve ser ignorado quando é referido por pessoas que conhecem mais de uma realidade profissional.
A questão não é apenas saber se um diploma é valorizado. É perceber se as competências são reconhecidas, se encontram condições para serem aplicadas, se permitem assumir responsabilidades reais e progredir profissionalmente, se o trabalho é pago de forma compatível com essas responsabilidades.
A remuneração depende de vários fatores: da atividade desenvolvida, da produtividade, da organização, da capacidade económica das empresas, das condições de mercado. A formação não elimina esses fatores. Mas a discussão sobre valorização de competências não pode estar desligada dos salários e das condições de trabalho. Se queremos compreender por que razão alguns profissionais procuram oportunidades noutros países, temos de olhar para a experiência profissional completa, e não apenas para a existência de um diploma.
Aprender com outras experiências
Alguns países desenvolveram sistemas de formação dual que merecem análise. Não porque existam modelos prontos para copiar, mas porque permitem observar outras formas de articular aprendizagem, participação das empresas, formação prática e reconhecimento de competências.
O interesse está em estudar os mecanismos, compreender as condições que os tornam possíveis e perguntar o que poderá ser adaptado à nossa realidade. Essa discussão deve preceder qualquer tentativa de generalização, e a avaliação não deve limitar-se a indicadores administrativos (ações realizadas, certificados emitidos), mas a impactos reais: estabilidade profissional, progressão, qualidade de vida no trabalho, capacidade das organizações para reter conhecimento.
Uma discussão que envolve todos
A valorização da formação profissional não depende apenas das instituições que formam. Envolve empresas que recrutam e organizam o trabalho, profissionais que aplicam competências, investigadores, decisores públicos e parceiros sociais.
Importa ouvir quem vive estas realidades.
- Às pessoas que trabalharam em Portugal e noutros países:
- Que diferenças encontrou no reconhecimento de competências, responsabilidades, condições de trabalho, remuneração?
- Às empresas: • Que obstáculos dificultam o investimento em formação e progressão profissional?
- Às instituições de formação e decisores:
- Como podemos aproximar a aprendizagem do trabalho real?
Não se trata de escolher antecipadamente um modelo. Trata-se de compreender melhor os problemas, confrontar perspetivas diferentes e explorar caminhos que possam ser testados e melhorados.
A pergunta que fica
Se queremos que a formação contribua verdadeiramente para transformar realidades, talvez devamos começar por olhar com atenção para aquilo que acontece depois de aprender, e para a forma como, enquanto sociedade, reconhecemos e valorizamos quem sabe fazer.
Porque a mudança não começa com mais certificados. Começa com a vontade de escutar quem vive o terreno, de testar abordagens diferentes e de reconhecer que profissões técnicas, operacionais e práticas são, simplesmente, profissões.
Sobre o Autor
Luís Filipe é Técnico Superior no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), Centro de Formação Profissional de Faro, desde 2021. Licenciado em Turismo pela Universidade do Algarve, tem 38 anos de experiência profissional em hotelaria, liderança de equipas e desenvolvimento de pessoas, tendo passado por papéis como Director Geral de hotelaria, professor de formação profissional e formador em turismo, hotelaria, alemão e inglês.
Ao longo dos últimos anos, desenvolveu três linhas de investigação estruturadas sobre formação profissional, qualificação e desenvolvimento regional no turismo: o EH5, Ecossistema Humano em Turismo, o Algarve Talent 365 e um estudo de análise estratégica sobre sistemas de formação profissional dual. Estes trabalhos exploram a relação entre formação, reconhecimento de competências, condições de trabalho e retenção de talento no setor.
Falante nativo de português e alemão, com inglês fluente, e tendo vivido em contextos profissionais diferentes, interessa-se particularmente pela comparação de modelos de qualificação e pela forma como diferentes sistemas abordam a valorização de profissões técnicas e operacionais.
Nota: Este artigo reflete exclusivamente a opinião pessoal do autor e não representa a posição ou visão institucional do IEFP ou de outra qualquer entidade ou organismo.
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