E se uma salina não produzisse apenas sal, mas também futuro?
À primeira vista, uma salina parece guardar apenas aquilo que vemos: a água rasa, o brilho branco do sal, as aves recortadas contra o céu e o desenho rigoroso dos tanques. Mas, sob essa paisagem aparentemente imóvel, esconde-se um tesouro. Não é ouro, nem repousa num cofre. É feito de lama, raízes, caule folhas e frutos — são as ervas marinhas — que retiram carbono da atmosfera ajudando a mitigar as terríveis alterações climáticas!

O projecto Sal C surgiu da ideia pioneira do professor doutor Rui Santos de plantar ervas marinhas nos canais de abastecimento de água de salinas tradicionais, para sequestrar carbono da atmosfera. Especialista em carbono azul e presidente da BlueZ C Institute, Rui Santos conversou com Miguel Silveira, sócio da MadeinSea, que acolheu a ideia com entusiasmo. Quando abordadas, Filomena Sintra, presidente da Câmara de Castro Marim, e Silvia Madeira directora da Eurocidade do Guadiana, abraçaram o projecto. Finalmente, este consórcio obteve o prémio “Promove” da Fundação La Caixa em 2023 e pôs mãos à obra!

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezcinstitute.com)
Tudo começou com gestos modestos. Repararam-se muros, ajustaram-se profundidades, instalaram-se comportas e melhorou-se a circulação da água que passou a renovar-se ao longo de todo o ano. Só depois, já criado um habitat apropriado, se transplantaram cuidadosamente as ervas marinhas.
Os primeiros transplantes de Zostera marina não sobreviveram.
Mas tinham sido criadas as condições para que a vida encontrasse o seu caminho, e ela encontrou-o! Sem que tivesse havido intervenção direta dos investigadores nesse sentido, a erva marinha Ruppia spiralis apareceu e expandiu-se rapidamente.
Porém, chuvas intensas trouxeram nutrientes da bacia do Guadiana, desencadeando o crescimento de algas verdes que cobriram as ervas marinhas e lhes retiraram luz. Algumas plantas enfraqueceram; outras recuperaram meses depois. Esta história de avanços, perdas e recomeços vale mais do que uma narrativa de sucesso perfeito. A natureza não é uma máquina obediente. Tem ritmos próprios e surpreende tanto pela sua fragilidade como pela sua resistência.
Outra espécie de ervas marinhas, Zostera noltei, que estava presente residualmente reagiu à melhoria das condições hidrológicas expandindo-se até cobrir completamente o fundo do canal de entrada de água. Para potenciar este crescimento fizeram-se transplantes para outro canal contíguo que tiveram muito sucesso. Com a vegetação chegaram camarões, robalos, sargos, tainhas, peixes-rei, linguados e chocos. Onde antes víamos apenas água e sedimento, surgiu uma pradaria submersa. E esta fauna tão biodiversa veio habitá-la.
E foi então que o tesouro se revelou!
Os sedimentos dos tanques estudados guardam cerca de cem toneladas de carbono orgânico no primeiro metro de profundidade. A partir do momento em que passaram a existir ervas marinhas, entre 2024 e 2025, o carbono armazenado à superfície aumentou cerca de 20%, correspondendo a uma incorporação anual de CO2 no sedimento da ordem de 2 toneladas por hectare!
O tesouro não se resume ao sucesso no sequestro de carbono. Está na possibilidade de reunir funções que durante demasiado tempo separamos: a actividade económica humana e a preservação da natureza. O projeto Sal C mostrou que a tradição e a inovação não têm de ser inimigas. A actividade salineira tradicional pode impactar positivamente o ambiente sequestrando carbono da atmosfera, aumentando a biodiversidade e ajudando a mitigar as alterações climáticas. Tudo graças à introdução destas ilustres desconhecidas: as ervas marinhas.
A expressão “tesouro escondido” descreve não apenas aquilo que estava oculto nos sedimentos, mas também a nossa dificuldade em reconhecer valor no que não é imediatamente visível ou comercializável. Vemos o sal porque o podemos colher e vender. Não vemos com a mesma facilidade o carbono enterrado, o abrigo oferecido a um peixe bebé, a água filtrada por um ecossistema ou o conhecimento acumulado por quem trabalha há décadas nas salinas. Contudo, a nossa vida depende precisamente desses bens silenciosos.
Talvez a crise ecológica seja também uma crise de perceção. Destruímos frequentemente aquilo que não aprendemos a ver. É neste sentido que actua o Wonderlab — Laboratório de Maravilhamento — da BlueZ C Institute. Conhecer começa pelo espanto que logo estimula a curiosidade: aproximarmo-nos da água, olhar através da superfície e descobrir que um simples canal contém relações complexas entre plantas, animais, sedimentos, clima e pessoas. Quando nos maravilhamos perante aquilo que agora vemos, não queremos destruir aquilo que amamos.
Vivemos numa época fascinada por soluções imediatas. Perante as alterações climáticas, procuramos uma tecnologia salvadora, um número tranquilizador ou uma fórmula que permita continuar tudo como antes. As salinas ensinam-nos outra coisa. É preciso observar o ritmo da água, perceber quando uma espécie prospera ou desaparece, aceitar o erro e corrigir o caminho. Cuidar não é impor um plano rígido ao mundo; é aprender a responder ao que a natureza nos diz.
A pergunta que surge agora é: como continuar? Quem deve cuidar destes ecossistemas híbridos, simultaneamente naturais e produtivos? Quem beneficia dos serviços que prestam? E quem suporta os custos da sua manutenção? A conservação não pode depender apenas da boa vontade dos produtores ou de financiamentos temporários. Se as salinas sequestram carbono, melhoram a água, conservam espécies e valorizam o território, esses benefícios públicos devem ser reconhecidos nas políticas, nos mercados e nas decisões coletivas.
O inovador projeto Sal C que se iniciou em 2023 e que chegou ao seu fim agora, em 2026, demonstrou que salinas tradicionais podem acolher ervas marinhas que sequestram carbono da atmosfera, a uma escala 8 a 30 vezes superior às florestas verdes, ajudando a mitigar as terríveis alterações climáticas. Urge reduplicar esta descoberta!
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Se quiser saber mais aceda ao site www.bluezcinstitute.com.
Lá encontrará o documentário “Sal C — O Tesouro Escondido” bem como outros dois artigos sobre este projecto, ambos publicados aqui, no Cultura.Sul / Postal do Algarve:
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: E se os peixes falassem? | Por Maria João Neves















