No mês passado, falámos no projecto Sal C – Valorização das Salinas para o Sequestro de Carbono e Mitigação das Alterações Climáticas, uma iniciativa pioneira liderada pela BlueZ C, uma spinoff da Universidade do Algarve especializada na conservação marinha e na economia do carbono. Desenvolvido em colaboração com o Município de Castro Marim, a Eurocidade do Guadiana e a empresa MadeinSea, o projecto Sal C propõe uma nova abordagem para as salinas tradicionais. O objetivo é adaptá-las para funcionarem como sumidouros naturais de carbono, através da plantação de ervas marinhas nos canais de alimentação de água, operacionalizando o conceito inovador de sequestro de carbono branco, uma vertente emergente na mitigação das alterações climáticas.
Falou-se então sobre os aspectos científicos deste projecto. Agora queremos focar-nos na sua vertente educativa. A BlueZ C criou um WonderLab — Laboratório de Maravilhamento — que pretende desenhar experiências capazes de disseminar ciência através do encantamento. É neste enquadramento que nasce a experiência Alice pelas Salinas, que se estreia precisamente neste mês de Junho, o mês em que se celebra o Dia Mundial da Criança. Quer-se trazer para a ciência esse olhar fresco, o espírito de curiosidade e, sobretudo, o espanto sorridente que desperta a vontade de aprender. Participantes do Café Filosófico voluntarizaram-se para este projecto e terão a sua sessão no dia 16 de Junho. Será uma manhã de prática filosófica dedicada à ética e à estética ambiental.
Como todos sabemos a heroína de Lewis Carroll está constantemente a aumentar ou a diminuir de tamanho, ao longo de todo o romance, o que a faz perceber o mundo de perspectivas muito diferentes. Assim, inspirada nas diferenças de escala vividas por Alice no País das Maravilhas os participantes irão explorar a olho nu, mas também com lupa e microscópio, o ecossistema do sapal dos taludes dos tanques das salinas da MadeinSea.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
Alice pelas Salinas propõe uma travessia sensorial pelas escalas visíveis e invisíveis da vida nas salinas, evocando uma mudança no modo como percebemos o mundo natural. Ao contrário da visão mecânica e utilitária do ambiente, esta experiência convida-nos a mergulhar num ecossistema frágil e interdependente, utilizando o corpo e os sentidos como instrumentos de conhecimento.
Esta proposta alinha-se com a filosofia de Freya Mathews (1949 -), a filósofa australiana especialista em Ética Ambiental, à qual já dedicámos vários artigos. Vejamos como Alice pelas Salinas se pode converter numa experiência imersiva onde teoria e prática convergem numa ética do ser-com.
A ontologia do mundo vivo
Em oposição ao dualismo ocidental que separa o humano da natureza, a filósofa propõe uma ontologia relacional e animada do mundo. Influenciada pelo pampsiquismo e pela ecologia profunda, Mathews sustenta que a Terra — e cada uma de suas partes — é dotada de actividade, sensibilidade e valor intrínseco. O mundo, para ela, é um sujeito responsivo, um Tu com quem podemos dialogar.

Neste sentido, a experiência Alice pelas Salinas é um convite à reconexão com o mundo não-humano através da curiosidade, da observação e da empatia. Ao observar de perto — a olho nu e com lupa ou microscópio — um dos ecossistemas mais delicados e ricos da zona costeira, os participantes são desafiados a repensar a sua relação com o ambiente, usando o quadro ético dos 3Hs: Habitat, Co-Habitantes e Hábitos.
Habitat: a paisagem viva das salinas
Em vez de tratar o Habitat como um simples pano de fundo ecológico, com uma atenção mais demorada, o Habitat revela-se como um organismo vivo, onde cada planta e cada grão de sal participam num equilíbrio ancestral. Com o auxílio de instrumentos de ampliação temos acesso a um microcosmos pulsante de vida e de adaptação. Damo-nos conta das plantas halófitas que resistem à salinidade extrema através de microestruturas nas folhas que conservam a água, e excretam o sal.
Afinal, em vez de um cenário, o Habitat é uma casa partilhada onde se enfrentam desafios invisíveis aos olhos distraídos. Damo-nos conta de que tal como o homem é salineiro as plantas também o são. Aliás, já o eram muito antes de o homem se ter lembrado de tal! É uma lição de humildade.
Co-Habitantes: reconhecer as outras vidas
Através da lupa e dos microscópios os participantes são confrontados com a complexidade dos co-Habitantes das salinas — plantas com pelos microscópicos, organismos quase invisíveis, sinais da presença de aves e insectos. Esta aproximação física e simbólica gera um deslocamento: deixamos de estar acima para começar a estar com. Esta mudança de escala convida à empatia inter-espécies, essencial para uma ética ambiental que reconheça os direitos de existência de todas as formas de vida, mesmo as que não nos são úteis ou visíveis. É o início de um pensamento biocêntrico, onde o valor de um ser não se mede pela sua serventia, mas pela sua existência própria.

Freya Mathews rompe com a ideia de que apenas os seres humanos são sujeitos éticos. Para ela, todas as formas de vida merecem consideração, porque todas são manifestações do Uno vivo. Observar os pelos nas folhas, os mecanismos de excreção de sal, ou as formas de conservação da água torna-se, então, um acto de reconhecimento de alteridades. Não estamos sozinhos; habitamos um mundo plural, animado e significativo.
Apercebemo-nos também de um delicado equilíbrio ecológico que revela como cada organismo está intimamente ajustado ao seu meio. Ao aproximar-se dessa realidade com respeito e curiosidade, o participante enriquece a sua capacidade de escuta ecológica.
Hábitos: o olhar que transforma
A observação detalhada que Alice pelas Salinas promove é, acima de tudo, um exercício de atenção ética. Desenvolver o hábito de ver — verdadeiramente ver — é talvez o primeiro passo para alterar o modo como nos relacionamos com a natureza. O simples acto de parar, observar e registar transforma o observador. O hábito de observar gera um novo hábito: o de cuidar, valorizar e proteger. A ação ética não se resume a evitar danos, mas passa a incluir o cultivo de relações ecológicas positivas: celebrar, cuidar, colaborar com o mundo natural.
A experiência Alice pelas Salinas introduz essa possibilidade ao convidar cada participante a partilhar o que descobriu e como se sentiu em relação ao mundo que observou. É um exercício de eco-reflexividade no Café Filosófico que abre caminho para a prática do cuidado ecológico quotidiano.
Do encantamento à responsabilidade
Alice pelas Salinas demonstra que a educação ambiental pode (e deve) ir além da transmissão de conhecimento científico. Quando se oferece uma experiência estética e sensorial que desperta o encantamento, abre-se espaço para uma ética do envolvimento. O mundo natural deixa de ser uma abstração ou um recurso, e passa a ser um conjunto de relações vivas, frágeis e dignas de respeito. Trata-se de uma prática de reconexão ontológica onde o ser humano reaprende a escutar o mundo natural como presença viva. Essa escuta dá origem a uma ética em que deveres abstratos propiciados pelo conhecimento científico adquirem uma resposta afectiva, sensível ao mundo como um outro sujeito.
Num tempo de crise ecológica, Alice pelas Salinas convida-nos a restabelecer um pacto de convivência com a Terra — um pacto que começa com a atenção aos detalhes, com o encantamento humilde e com a escolha deliberada de viver de forma responsiva. As salinas, com sua beleza e vida pulsante, tornam-se assim numa espécie de portal ético: mostram-nos que tudo o que vive — mesmo aquilo que mal se vê — merece respeito, preservação, cuidado.
Num tempo de crise ecológica, precisamos de mais Alices — pessoas dispostas a mudar de escala, a questionar hábitos, e a coabitar o planeta com humildade e responsabilidade.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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