Neste tempo em que a velocidade substitui a reflexão, em que a tecnologia avança mais depressa do que a consciência, em que a inteligência artificial promete tudo e tudo questiona, em que a guerra volta a procurar legitimidade moral, em que o trabalho humano corre o risco de se tornar peça descartável de uma engrenagem sem rosto, é raro surgir uma voz capaz de interromper o ruído. Uma voz serena, mas firme. Uma voz que recorda limites, quando o mundo celebra apenas a ausência deles.
Leão XIV chegou ao pontificado sem estridência. Mas há inícios que não precisam de espetáculo. Precisam apenas de clareza. E a Encíclica Magnifica Humanitas é precisamente isso: um gesto de clareza num tempo de confusão moral. Um texto que devolve densidade às palavras humanidade, responsabilidade e dignidade. E que recusa aceitar como inevitável aquilo que apenas resulta da desistência ética.
O Papa fala-nos da inteligência artificial como a nova Torre de Babel. Não pela tecnologia em si, mas pela tentação antiga que nela regressa: a ilusão de omnipotência. A ideia de que tudo o que pode ser criado deve necessariamente ser usado. A crença de que o progresso técnico contém, por si só, progresso humano. Recorda-nos que uma civilização pode acumular conhecimento e, ainda assim, perder sabedoria.
Fala-nos da contenção, palavra quase desaparecida do léxico contemporâneo. Contenção como virtude política. Como prudência civilizacional. Como consciência de que há fronteiras que existem para proteger o humano de si próprio. Afirma que delegar decisões morais em algoritmos não representa apenas um erro técnico; representa uma abdicação espiritual. E deixa uma pergunta incómoda: quem responde pela consciência quando a consciência deixa de responder?
É também neste contexto que Leão XIV estabelece um paralelo particularmente poderoso entre a inteligência artificial e o desarmamento nuclear. Recorda que a Igreja há muito se comprometeu com o desarmamento atómico como serviço à paz e à dignidade humana. E acrescenta que também a inteligência artificial precisa hoje de ser “desarmada”: libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte. Porque, tal como a energia nuclear, a tecnologia nunca pode ser neutra quando colocada ao serviço do poder sem consciência. As decisões sobre a técnica, insiste, nunca devem ser separadas da responsabilidade moral de quem as toma.
Enfrenta também, com rara frontalidade, a teoria da “guerra justa”. Num tempo em que os conflitos regressam revestidos de justificações estratégicas, geopolíticas ou até humanitárias, Leão XIV recusa a normalização da violência. Recusa a transformação da morte em cálculo aceitável. Refere que nenhuma guerra permanece justa quando os civis se tornam estatística, quando a destruição se converte em espetáculo, quando a linguagem militar substitui a linguagem humana. Fala de paz, não como ingenuidade, mas como exigência moral. Porque a paz não é ausência de conflito; é presença de humanidade.
E fala-nos do trabalho. Do novo proletariado invisível. Dos homens e mulheres substituídos silenciosamente, fragmentados pela lógica da produtividade absoluta, avaliados por métricas que ignoram cansaço, família, tempo e afeto. Fala de uma servidão administrada por notificações e disponibilidade permanente. De uma precariedade sofisticada que transforma a insegurança em normalidade. Recorda que o trabalho não pode ser apenas função económica. Tem de continuar a ser espaço de dignidade, participação e sentido.
Leão XIV escreve como quem observa o mundo sem ilusões, mas sem ceder ao cinismo. Há na Magnifica Humanitas uma coragem rara: a coragem de impor perguntas num tempo obcecado por respostas rápidas. A coragem de defender o humano quando tudo parece empurrar para a sua diluição.
Depois de tudo isto, continua a acreditar. A acreditar que a técnica pode servir sem dominar. Que a política pode recuperar grandeza. Que a economia pode reencontrar justiça. E que o verdadeiro risco do nosso tempo talvez não seja o excesso de tecnologia, mas a ausência de consciência capaz de a limitar.
Foi talvez essa rara combinação de lucidez e esperança que me trouxe de volta a este espaço de escrita. Para poder continuar a acreditar.
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