Consta que Santo António pregou aos peixes e que eles o escutaram. Mas terá acontecido o contrário? Terão os peixes, em algum momento, falado com Santo António?
Há perguntas que parecem infantis apenas porque ainda não tivemos coragem de as levar a sério. Esta é uma delas. “E se os peixes falassem?” À primeira vista, soa a fábula, a história para crianças, a truque literário para imaginar um mundo encantado. Mas talvez seja precisamente esse o problema: habituámo-nos de tal forma a considerar muda a vida que nos rodeia que só conseguimos imaginar a sua voz através da fantasia.
Os peixes não falam como nós. As ervas marinhas não escrevem relatórios. Os sapais não convocam conferências de imprensa. Um rio poluído não apresenta queixa num tribunal. Uma pradaria submarina degradada não se levanta numa assembleia municipal para dizer que está a desaparecer. Uma comunidade de moluscos não envia uma carta ao ministro.
E, no entanto, todos comunicam.
Comunicam pela presença e pela ausência, pelo crescimento e pelo colapso, pela abundância e pelo silêncio. Comunicam quando os cardumes desaparecem, quando a água aquece, quando os ciclos de reprodução falham, quando uma pradaria marinha perde densidade ou quando a vida regressa a um lugar onde antes parecia impossível.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezcinstitute.com)
É desta inquietação que parte a proposta Zoöp. O termo combina a palavra grega “zoë” —vida, com cooperação. Tentando banir o antropocentrismo, uma Zoöp é uma organização que tenta deixar de agir como se estivesse fora da natureza e passa a reconhecer-se como parte de um ecossistema vivo. Em vez de tratar plantas, animais, fungos, solos, águas e microrganismos como cenário, paisagem ou recurso, procura incluir os seus interesses nos processos de decisão.
Para isso, cria a figura do Speaker for the Living: alguém com a responsabilidade de representar os seres vivos não humanos nas decisões humanas.
A ideia pode parecer estranha. Como pode alguém falar por uma árvore, por uma ave, por um peixe ou por uma bactéria? Não haverá aqui uma arrogância humana disfarçada de humildade ecológica? Talvez. Mas a alternativa dominante é ainda mais arrogante: tomar decisões como se esses seres não existissem, ou como se a sua existência só importasse quando serve os interesses humanos.
É uma ideia muito fora da caixa, dirá o leitor, mas como passar do platónico mundo das ideias para a nossa realidade sensível?
Justamente, um projeto-piloto da Nova Bauhaus Europeia (NEB) adotou o modelo Zoöp para incorporar interesses de seres não humanos aos processos de tomada de decisão em diversos projetos-piloto europeus. Portugal não apenas aderiu a esta ideia, mas inovou sugerindo a criação da Bauhaus of the Seas (BoS), que deriva de um manifesto criado em 2020 por diversos investigadores, designers e arquitetos de Portugal onde se propõe uma mobilização em escala continental para alcançar ambições de sustentabilidade, inclusão e estética em torno de corpos hídricos. O projeto-piloto (BoS) realizou-se em sete localidades da UE, correspondendo a quatro tipologias de ecossistemas aquáticos: lagoa em Veneza (Itália), rio em Lisboa e Oeiras (Portugal), mar em Öresund (Suécia) e Génova (Itália), e oceano no Delta (Roterdão). O BoS propõe uma abordagem na qual projetos-piloto buscam integrar uma agenda interdisciplinar, intergeracional e interespécies para demonstrar a viabilidade dos valores da NEB — beleza, sustentabilidade e inclusão — em relação a esses corpos hídricos.
É aqui que a inteligência artificial pode desempenhar um papel inesperado. Não como oráculo, nem como substituto da ciência, da experiência local ou da responsabilidade ética, mas como uma espécie de tradutor ecológico.
Sensores, câmaras, hidrofones, gravadores acústicos, imagens de satélite, drones, dados ambientais e observações de campo podem recolher esses sinais. A inteligência artificial pode depois ajudar a reconhecer padrões invisíveis ou difíceis de detetar: certos sons que indicam maior atividade de peixes; silêncios que revelam perturbação; alterações subtis na qualidade da água; sinais de stress ecológico; mudanças na forma como determinadas espécies usam, abandonam ou recuperam um habitat.
Mas é importante dizê-lo com cuidado. A inteligência artificial não deve fingir que sabe o que um peixe “quer”, que uma planta “pede” ou que uma pradaria marinha “pensa”. Isso seria apenas uma nova forma de ventriloquismo tecnológico. O que ela pode fazer é tornar perceptíveis sinais que, de outro modo, permaneceriam dispersos, invisíveis ou inaudíveis.
Pode transformar variações de temperatura, oxigénio ou biodiversidade numa composição sonora. Pode converter a atividade de peixes, aves ou insetos numa paisagem acústica. Pode gerar alertas quando um ecossistema mostra sinais de stress. Pode traduzir dados complexos numa linguagem acessível a gestores, cidadãos e decisores políticos.
Esta escuta mediada pela tecnologia só é eticamente aceitável se permanecer ancorada na ciência. Para evitar que a inteligência artificial invente, exagere ou “alucine”, deve trabalhar em circuito fechado, alimentada apenas por informação científica validada e por dados recolhidos pelos investigadores. Não se trata de deixar a máquina imaginar a natureza. Trata-se de a usar para tornar mais audível aquilo que a natureza já expressa.
Depois, cabe aos humanos — cientistas, comunidades, gestores e, sobretudo, ao Speaker for the Living — interpretar esses sinais com responsabilidade.
A proposta Zoöp aproxima-se, assim, de uma ética da escuta. E é aqui que o pensamento de Freya Mathews se torna particularmente fecundo. A filósofa considera que a crise ecológica nasce de uma falha metafísica: imaginámos o mundo como coisa, e não como presença; como recurso, e não como interlocutor. Para Mathews, a natureza não é um conjunto de objetos mudos, mas uma realidade viva, expressiva e relacional. Uma floresta, um rio, uma zona húmida ou um recife não falam como uma pessoa, mas manifestam-se. Escutar a natureza não significa projetar nela os nossos desejos, nem romantizar os ecossistemas como se fossem sempre harmoniosos. Significa reconhecer que o mundo mais-que-humano tem formas próprias de existência, e que essas formas devem limitar, orientar e transformar a ação humana.
Vista a esta luz, uma organização deixa de ser apenas um conjunto de pessoas, edifícios, contratos e orçamentos. Passa a ser um nó dentro de uma teia ecológica. O jardim deixa de ser decoração. O lago deixa de ser elemento paisagístico. O solo deixa de ser superfície. A luz artificial deixa de ser apenas uma necessidade humana e passa a ser também uma perturbação para insetos, aves e morcegos. A fachada de um edifício deixa de ser apenas arquitetura e pode tornar-se habitat.
Esta mudança exige humildade. A modernidade habituou-nos a imaginar a solução dos problemas ambientais como grandes atos de domínio técnico: restaurar, compensar, capturar carbono, construir infra-estruturas verdes, gerir serviços dos ecossistemas. Tudo isso pode ter valor. Mas a proposta Zoöp sugere algo anterior: antes de gerir, é preciso pertencer; antes de compensar, é preciso escutar; antes de restaurar, é preciso compreender a relação que foi quebrada.
Saber que uma pradaria marinha armazena carbono, protege juvenis de peixe e estabiliza sedimentos é fundamental. Mas talvez ainda não seja suficiente. É preciso perceber também que essa pradaria tem uma forma própria de habitar o mundo: uma temporalidade, uma vulnerabilidade e uma potência de vida que não se reduzem ao seu valor para nós. A ciência mede; a ética pergunta como devemos viver diante daquilo que a ciência revela.
E se os peixes falassem? Talvez nos dissessem que a água turva, o ruído, a ancoragem, a pesca excessiva, a dragagem e a poluição não são abstrações ambientais, mas experiências corporais para quem vive imerso nelas. Talvez nos dissessem que a nossa liberdade de usar o mar tem de encontrar limite na liberdade de todos os outros seres que lá vivem.
Porém, talvez os peixes não falassem em tom acusatório. Talvez o seu discurso fosse apenas uma exigência de reciprocidade. A ética ambiental não precisa de transformar a natureza num tribunal contra os humanos. Pode antes convidar-nos a abandonar a solidão da espécie dominante.
A proposta Zoöp não pede que as organizações deixem de ser humanas. Pede que deixem de ser apenas humanas. Se os peixes falassem, talvez não nos pedissem que pensássemos como peixes. Pediriam apenas que deixássemos de pensar como se só os humanos pensassem, sentissem, sofressem, habitassem e tivessem futuro.
A grande transformação está aqui: passar de uma cultura antropocêntrica e altamente hierarquizada, com os humanos no topo da pirâmide, para uma cultura horizontal onde se prioriza a coexistência simbiótica de todas as espécies, humanos e mais que humanos.
A filosofia começa muitas vezes quando uma pergunta simples deixa de parecer simples. Esta é uma dessas perguntas.
E se os peixes falassem?
Talvez a resposta seja: falam.
Nós é que ainda estamos a aprender a escutar.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Um jardim fora do tempo | Por Maria João Neves














