O cancro não é uma doença contagiosa. Podemos abraçar uma pessoa com cancro, partilhar a casa, a comida ou a cama. As células cancerígenas pertencem à pessoa onde “nasceram” e, se entrarem noutro organismo, o sistema imunitário reconhece-as como estranhas e elimina-as.
Mas há algumas exceções. E acaba de ser descoberta uma outra bastante extraordinária.
Desde 2012, pescadores e biólogos começaram a encontrar, no lago Memphremagog, entre os Estados Unidos e o Canadá, peixes-gato da espécie Ameiurus nebulosus com grandes manchas negras na pele. Algumas eram pequenas e planas. Outras formavam massas escuras, por vezes sobrepostas, que podiam invadir outros tecidos. Eram melanomas, um agressivo cancro da pele. E, em alguns estudos, estas manchas apareciam em quase um terço dos animais.
A primeira suspeita foi talvez a mais óbvia: poluição. O lago tinha sofrido grandes inundações em 2011 e poderia ter recebido substâncias cancerígenas. Outra possibilidade seria um vírus.
Mas nenhuma destas explicações encaixava bem nos dados.
Quando os investigadores sequenciaram o DNA dos tumores, encontraram algo muito mais estranho. Os melanomas de peixes diferentes eram geneticamente muito semelhantes entre si – mais semelhantes uns aos outros do que às células saudáveis dos próprios peixes onde estavam a crescer. Partilhavam centenas de milhares de alterações genéticas.
Isto só fazia sentido se aqueles tumores tivessem uma origem comum.
Ou seja, em algum momento, uma célula de um peixe transformou-se numa célula cancerígena. Depois dividiu-se. E, de alguma forma que ainda não conhecemos, algumas das suas descendentes passaram para outro peixe, instalaram-se nele e continuaram a multiplicar-se. Depois passaram para outro. E para outro.
O que se transmite, portanto, não é um vírus que provoca cancro. É o próprio cancro.
E esta é uma distinção muito importante. Num cancro causado por um vírus, como acontece em alguns tumores humanos, por exemplo associados ao vírus do papiloma humano (HPV), o que está ser transmitido entre pessoas é o vírus. Cada tumor desenvolve-se depois, independentemente, a partir das células da pessoa infetada. Mas neste caso dos peixes-gato, as células cancerígenas são elas próprias o agente contagioso. São, de certa forma, um parasita constituído por células de um animal que se assume já ter morrido há muito tempo.
Conhecíamos já exemplos deste fenómeno em cães, nos diabos-da-Tasmânia e em alguns moluscos marinhos. Este novo estudo, publicado na prestigiada revista científica Nature, descreve o primeiro caso conhecido num peixe e também o primeiro num ecossistema de água doce.
Ainda não sabemos como estas células passam de peixe para peixe. Os animais juntam-se e entram em contacto durante a reprodução, o que pode facilitar a transmissão. Também é possível que algumas células sobrevivam temporariamente na água ou nos sedimentos e entrem através da pele, das guelras ou da boca. E ainda não sabemos quão perigoso é este cancro para a população: ao contrário do tumor facial contagioso dos diabos-da-Tasmânia, que é quase sempre fatal, outros cancros transmissíveis podem coexistir com os seus hospedeiros durante muito tempo.
Há, contudo, uma outra pergunta interessante.
Durante muito tempo pensámos no cancro como uma doença confinada ao organismo onde surge. Uma célula nossa deixa de obedecer às regras, multiplica-se e, por vezes, acaba por nos matar. Mas estes casos mostram que, em circunstâncias muito raras, uma linhagem de células cancerígenas pode escapar desse destino. Pode abandonar o indivíduo onde “nasceu”, colonizar outros organismos (uma espécie de metástase externa!) e continuar a evoluir independentemente ao longo das gerações.
Nesse momento, torna-se difícil dizer onde acaba o tumor e começa o “parasita”.
E talvez seja essa a parte mais fascinante desta descoberta: não foi apenas encontrado um novo cancro num peixe. Foi encontrado um cancro que, algures na sua história, deixou de precisar do animal onde surgiu para continuar a sobreviver.
Citações:
Curd, E.E., Hart, S.F.M., Lubkowitz, J. et al. Brown bullhead catfish melanoma represents a novel transmissible cancer. Nature (2026). https://doi.org/10.1038/s41586-026-10828-6
Hannah Siddle. Skin cancer spreads between catfish in a freshwater lake. Nature (News and Views) (2026) https://doi.org/10.1038/d41586-026-02287-w
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