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ANA ALEXANDRA RESENDE - Arqueóloga e escritora. Foto DR
Ensino, Opinião

Não sou um tapa-buracos. Sou professora | Por Ana Alexandra Resende

“Tenho 2.132 dias de serviço docente, sou licenciada em História e trabalho há mais de duas décadas em Arqueologia. Durante anos servi para ensinar. Recuso-me agora a aceitar que o sistema me trate como descartável”

10:05 4 Setembro, 2026 10:13 4 Setembro, 2026
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Há momentos em que ficar calado deixa de ser prudência e começa a parecer consentimento. Eu cheguei a esse momento.

Tenho 2.132 dias de serviço docente. Faço questão de escrever o número porque estou cansada das abstrações, das “necessidades temporárias”, dos “horários”, dos “procedimentos”, das “habilitações”, dos códigos, das listas e de toda uma linguagem burocrática atrás da qual acabam por desaparecer pessoas, vidas, famílias e anos de trabalho.

Sou licenciada em História, variante Arqueologia, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Sou arqueóloga há mais de duas décadas. Investiguei, publiquei, apresentei trabalhos científicos, dirigi intervenções arqueológicas, coordenei equipas e assumi responsabilidades profissionais. E sou professora. Ao longo do meu percurso docente tenho lecionado em escolas dos concelhos de Faro, Loulé e São Brás de Alportel, em diferentes níveis de ensino. Ensinei História, História e Geografia de Portugal, História e Cultura das Artes, Área de Integração e Cidadania e Desenvolvimento. Não falo, portanto, de uma passagem ocasional pela Educação. Tenho 2.132 dias de serviço docente. Tenho anos de salas de aula, alunos, avaliações, reuniões e responsabilidades. Tenho uma profissão.

Imagem gerada através de Inteligência Artificial

Durante estes anos preparei aulas, corrigi testes, avaliei alunos, participei em reuniões e conselhos de turma, falei com encarregados de educação, acompanhei jovens, resolvi problemas e assumi responsabilidades. Durante 2.132 dias, o Estado português considerou-me suficientemente competente para colocar alunos à minha frente e confiar-me uma das responsabilidades mais sérias que uma sociedade pode entregar a alguém: ensinar os seus filhos.

Mas chega setembro e parece que tudo pode voltar à estaca zero.

E é aqui que eu digo: basta.

Não sou uma solução de emergência que se retira de uma gaveta quando faltam professores e se volta a guardar quando o problema parece resolvido. Não sou uma reserva de mão de obra para os momentos em que os horários ficam vazios. Não sou alguém que serve em outubro porque não apareceu mais ninguém e que em setembro do ano seguinte pode voltar a ser tratada como se nunca tivesse entrado numa sala de aula.

Não sou um tapa-buracos. Não sou descartável. Sou uma profissional.

E não escrevo isto contra os professores profissionalizados. Essa seria a forma mais fácil e mais injusta de desviar esta discussão. Respeito a sua formação, a sua carreira e os seus direitos. Não quero passar à frente de ninguém, não quero uma vaga oferecida e não quero que se baixe um milímetro a exigência necessária para ser professor. Quero precisamente o contrário: quero um sistema exigente, mas quero também um sistema coerente.

Se consideram que a quem tem formação científica e milhares de dias de serviço falta formação pedagógica, então criem mecanismos sérios e acessíveis de profissionalização. Formem-nos. Avaliem-nos. Exijam-nos. Obriguem-nos a demonstrar competências. Façam tudo aquilo que seja necessário para garantir a qualidade da escola pública. Mas não nos usem durante anos e depois façam de conta que esses anos não contam.

Porque isto já ultrapassa largamente a minha situação profissional. Esta discussão obriga-nos a perguntar que escola estamos a construir e, sobretudo, que mundo estamos a formar dentro dela.

Eu sou professora de História. E recuso a ideia de que ensinar História consiste em despejar datas, nomes de reis, batalhas e tratados para dentro da cabeça de adolescentes até ao próximo teste. História serve para muito mais do que isso. Serve para ensinar um jovem a perguntar porquê, a desconfiar de explicações demasiado fáceis, a comparar fontes, a reconhecer propaganda, a distinguir um facto de uma opinião e uma opinião de uma mentira, a perceber como se constrói o poder, como nascem os extremismos, como morrem democracias e como sociedades aparentemente civilizadas podem cometer os erros mais extraordinários.

Que mundo queremos formar?

Queremos jovens incapazes de ter uma opinião própria? Pessoas que chegam à idade adulta convencidas de que o mundo é simples, confortável e cheio de unicórnios? Cidadãos que acreditam no primeiro vídeo que lhes aparece num ecrã, no primeiro slogan que lhes oferece uma explicação fácil ou no primeiro líder que lhes garante que todos os problemas complexos têm uma solução de três palavras?

É isso que queremos entregar ao futuro?

Porque um cidadão sem pensamento crítico é um cidadão extraordinariamente fácil de manipular. E isso devia preocupar-nos muito mais do que qualquer ranking escolar.

O mundo não é feito de unicórnios. O mundo é feito de interesses, conflitos, poder, ciência, economia, cultura, religião, migrações, desigualdades, conquistas extraordinárias e erros humanos absolutamente aterradores. É feito de sociedades que avançaram e recuaram, de direitos que foram conquistados e perdidos, de democracias que nasceram e morreram. E é precisamente por isso que precisamos de História, Filosofia, Ciência, Literatura, Matemática e de professores que não estejam apenas preocupados em fazer os alunos acertar numa cruzinha, mas em ensiná-los a pensar.

Talvez a Arqueologia tenha acentuado esta minha maneira de olhar para o mundo. Passo grande parte da vida profissional a estudar aquilo que outras sociedades deixaram para trás e aprendi uma coisa que nenhuma sociedade contemporânea deveria esquecer: não existe civilização vacinada contra a estupidez coletiva. As sociedades também desaprendem. Também normalizam o absurdo. Também se habituam à mediocridade. Também trocam conhecimento por certezas confortáveis e pensamento crítico por slogans. E depois ficam espantadas com aquilo em que se transformaram.

É por isso que me revolta ver a Educação reduzida tantas vezes a um gigantesco exercício administrativo de preenchimento de horários. Não estamos a preencher horários. Estamos a formar pessoas. Estamos a formar os médicos que um dia nos vão tratar, os engenheiros que construirão as nossas pontes, os jornalistas que terão de separar informação de propaganda, os políticos que tomarão decisões em nosso nome, os professores que ensinarão os nossos netos e, acima de tudo, os cidadãos que terão nas mãos o futuro das nossas democracias.

E é neste contexto que surge agora o Decreto-Lei n.º 175/2026. Entre outras alterações, o diploma admite, em determinadas circunstâncias de contratação de escola e quando não existam candidatos que preencham os requisitos prioritários previstos na lei, a contratação de licenciados cuja licenciatura corresponda à área científica da disciplina a lecionar ou que disponham de pelo menos 120 ECTS nessa área.

Confesso que li aquelas palavras e senti uma mistura difícil de explicar entre esperança, incredulidade e revolta.

Porque eu sou licenciada em História.

E estamos, há anos, a discutir a minha possibilidade de ensinar… História.

Sei perfeitamente que esta alteração não me transforma automaticamente numa professora profissionalizada. Sei que não elimina prioridades, não apaga os regimes jurídicos existentes nem resolve por decreto todos os problemas de acesso à profissão. Não preciso que simplifiquem a lei para mim.

O que preciso é que alguém responda a uma pergunta muito mais simples: o que pretende o Estado português fazer com profissionais que têm formação científica adequada e que ele próprio mantém durante anos dentro das suas escolas?

No meu caso, essa pergunta tem um número: 2.132 dias.

E existe ainda um episódio no meu percurso que torna tudo isto quase surreal. Num determinado ano letivo fui colocada para ensinar História. Entrei na escola, atribuíram-me turmas e comecei a trabalhar. Durante cerca de dois meses fui professora para todos os efeitos práticos: havia alunos, havia aulas, havia responsabilidade e havia trabalho realizado. Depois, a colocação foi anulada porque se entendeu que eu não possuía a qualificação exigida para aquele grupo de recrutamento, e esse período acabou por não ser contabilizado para os concursos docentes.

Parem um segundo e pensem nisto.

Eu não podia ser professora. Mas tinha sido professora.

Os alunos existiram. As aulas existiram. O trabalho existiu. A responsabilidade existiu. Aquilo que desapareceu administrativamente foi o valor profissional do tempo em que tudo isso aconteceu.

É profundamente injusto.

E estou cansada de fingir que não é.

Não quero pena. Não quero favores. Não quero privilégios. Quero respostas. Quero saber como pode um Estado considerar uma pessoa suficientemente qualificada para lhe entregar turmas, alunos e responsabilidades e, depois, tratá-la como uma peça descartável de uma engrenagem administrativa. Quero saber durante quantos anos é aceitável manter profissionais neste limbo. Quero saber quantos milhares de dias são necessários para que a experiência deixe de ser uma nota de rodapé e passe a significar alguma coisa.

E quero saber como é possível discutirmos incessantemente a falta de professores sem termos a coragem de discutir seriamente o destino daqueles que já lá estão.

Chega de chamar professores quando o sistema está desesperado e de os esquecer quando a emergência passa. Chega de transformar setembro num concurso anual de sobrevivência para pessoas e famílias que não sabem onde estarão a trabalhar algumas semanas depois. Chega de confundir exigência com burocracia e precariedade com flexibilidade. Chega de utilizar a vocação, a responsabilidade e o sentido de dever dos professores como se fossem recursos infinitos.

Eu quero exigência. Quero professores preparados, cultos e cientificamente competentes. Quero formação pedagógica séria. Quero avaliação. Quero responsabilidade. Quero professores capazes de entrar numa sala e dizer a um aluno: “Não acredites em mim só porque sou tua professora. Pergunta. Investiga. Compara. Pensa. E depois argumenta.”

É essa escola que eu quero.

Porque é dessa escola que saem cidadãos livres.

E talvez tenha chegado o momento de aplicarmos ao próprio sistema educativo aquilo que ensinamos aos nossos alunos: questionar, procurar evidências, identificar contradições e recusar respostas que não fazem sentido.

É exatamente isso que estou a fazer.

Chamo-me Ana Resende. Sou licenciada em História, variante Arqueologia. Sou arqueóloga há mais de duas décadas. Sou investigadora. Sou professora. Tenho 2.132 dias de serviço docente.

Não estou a pedir que acreditem que sou capaz de ensinar.

Já o fiz. Durante 2.132 dias.

Por isso, não me chamem apenas quando faço falta.

Não sou um tapa-buracos. Não sou descartável. Sou professora. E já não me calo.

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