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ANA ALEXANDRA RESENDE - Arqueóloga e escritora. Foto DR
Opinião

A vida não começa amanhã | Por Ana Alexandra Resende

“Se decidirmos que começamos verdadeiramente a viver quando tivermos dinheiro suficiente, estabilidade suficiente, tempo suficiente e problemas suficientemente pequenos, talvez seja prudente levar uma cadeira”

07:30 3 Setembro, 2026 16:50 2 Setembro, 2026 | Cristina Mendonça
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Há uma frase particularmente perigosa na língua portuguesa: “Amanhã faço.”

É uma frase pequena, aparentemente inofensiva, até sensata. Amanhã telefono. Amanhã começo. Amanhã vou lá. Amanhã marcamos aquele jantar. Amanhã leio aquele livro. Amanhã tenho mais tempo.

Depois há uma versão mais sofisticada, própria da idade adulta:

“Quando as coisas acalmarem.”

Esta é extraordinária.

Porque as coisas nunca acalmam.

Quando termina um problema começa outro. Quando finalmente pagamos uma conta aparece a seguinte. Quando acaba um ano letivo já estamos a preparar o próximo. Quando os filhos deixam de precisar de nós para uma coisa começam a precisar para outra. Quando resolvemos o carro é a casa. Quando não é a casa é o trabalho. Quando o trabalho finalmente parece encaminhado, avaria qualquer coisa que até ontem desconhecíamos ser essencial à existência humana.

E assim vamos tratando da vida.

Só que, às vezes, esquecemo-nos de a viver.

Provavelmente é uma das grandes contradições do nosso tempo. Nunca tivemos tantas ferramentas destinadas a poupar-nos tempo e nunca pareceu faltar-nos tanto tempo para aquilo que verdadeiramente importa.

Temos máquinas que lavam a roupa e a loiça, aspiradores que passeiam sozinhos pela casa, aplicações que nos entregam comida à porta, telemóveis que permitem resolver em minutos aquilo que antigamente exigiria uma manhã inteira.

E, ainda assim, estamos cansados.

Permanentemente cansados.

Sem tempo.

Sempre a correr para qualquer coisa que vem a seguir.

Talvez tenhamos cometido um erro curioso: transformámos o tempo que poupámos em tempo disponível para fazer ainda mais coisas.

E depois há o dinheiro.

O dinheiro merece um capítulo próprio na história das coisas que inventámos para facilitar a vida e que, ocasionalmente, acabam a mandar nela.

Imagem gerada através de Inteligência Artificial

É evidente que as contas têm de ser pagas. É evidente que é preciso trabalhar, fazer escolhas responsáveis, pensar no futuro e garantir que há comida na mesa e eletricidade quando carregamos no interruptor.

Mas há uma fronteira súbtil entre ser responsável e passar a vida inteira preocupado com a próxima coisa que poderá correr mal.

Porque haverá sempre qualquer coisa.

Se decidirmos que começamos verdadeiramente a viver quando tivermos dinheiro suficiente, estabilidade suficiente, tempo suficiente e problemas suficientemente pequenos, talvez seja prudente levar uma cadeira. A espera promete ser longa.

E é aqui que me ocorre a deformação profissional de quem passou grande parte da vida a olhar para pessoas mortas.

A Arqueologia tem destas ironias.

Escavamos casas onde alguém viveu. Encontramos pratos onde alguém comeu, moedas que alguém guardou, objetos que alguém perdeu, paredes que alguém construiu convencido, provavelmente, de que ficariam ali para sempre. Encontramos pequenas coisas. E são quase sempre as pequenas coisas que tornam aquelas pessoas extraordinariamente humanas. Um brinquedo. Uma conta de colar. Uma tigela reparada em vez de deitada fora. Uma inscrição. Um objeto banal que alguém decidiu conservar.

Séculos depois, tentamos reconstruir aquelas vidas a partir dos vestígios que deixaram. Quem viveu aqui? O que fazia? O que comia? Em que acreditava? Quem amava?

É curioso passarmos tanto tempo a tentar perceber como viveram aqueles que já desapareceram e termos, por vezes, tanta dificuldade em lembrar-nos de viver enquanto ainda cá estamos.

E viver não significa necessariamente fazer uma viagem à volta do mundo, despedirmo-nos amanhã, vender a casa e partir numa carrinha em direção ao pôr-do-sol. Aliás, suspeito que ao terceiro dia alguém estaria a discutir porque não há água quente na carrinha.

Viver pode ser uma coisa muito menos cinematográfica.

Pode ser tomar um café sem olhar para o telefone. Telefonar à pessoa de quem nos lembrámos em vez de pensar “um destes dias telefono”. Ir ver o mar só porque está ali. Fazer um jantar diferente numa terça-feira absolutamente banal. Dizer “gosto de ti” enquanto ainda podemos dizê-lo. Sentarmo-nos à mesa e estarmos realmente à mesa. Olhar para os nossos filhos enquanto ainda têm a idade que têm hoje. Porque também aqui existe uma armadilha.

Passamos anos a desejar que cresçam um bocadinho. Que durmam a noite inteira. Que deixem as fraldas. Que consigam vestir-se sozinhos. Que entrem para a escola. Que façam os trabalhos sem precisarem de nós. Que sejam mais autónomos. E um dia são. E então talvez déssemos tudo para voltar a ouvir uma voz pequenina chamar-nos porque não consegue apertar um botão.

A vida tem este péssimo sentido de humor.

Só percebemos frequentemente que uma coisa era preciosa quando ela deixou de ser quotidiana.

Talvez por isso devêssemos aprender a desconfiar das ervilhas debaixo do colchão. As pequenas coisas que deixamos para amanhã porque hoje não vale a pena. Uma conversa. Um pedido de desculpa. Um abraço. Uma visita. Uma vontade. Um sonho pequenino. Uma coisa que nos incomoda e que vamos empurrando para o lado porque “agora não é altura”. Uma ervilha não incomoda muito. Mas vamos colocando outra. E outra. E outra. Até que um dia percebemos que passámos anos a dormir desconfortavelmente numa cama que fomos nós próprios enchendo.

Não precisamos de uma vida extraordinária. Esse é outro engano contemporâneo.

Não precisamos de estar permanentemente felizes, realizados, apaixonados, produtivos, inspirados e fotografáveis. Precisamos apenas de não nos esquecermos dentro de uma vida absolutamente normal. De continuar curiosos. De fazer coisas porque sim. De reparar nas pessoas. De não deixar que todos os gestos importantes dependam de uma ocasião especial. De perceber que estar não é apenas ocupar o mesmo espaço. De dizer. De dar. De receber. De fazer. De querer. De viver.

Sobretudo, talvez precisemos de deixar de pensar na vida como uma coisa que começará depois. Depois de pagarmos isto. Depois de resolvermos aquilo. Depois de termos mais tempo. Depois de os filhos crescerem. Depois de mudarmos de trabalho. Depois de nos reformarmos. Depois.

Há demasiados “depois” numa existência humana. E vinte anos parecem uma eternidade quando olhamos para a frente. Até olharmos para trás e percebermos a velocidade com que passaram os últimos vinte.

Por isso talvez valha a pena guardar uma pergunta para aquelas manhãs em que acordamos já preocupados com tudo aquilo que ainda temos de resolver:

E hoje?

Não o que temos de fazer hoje. Isso sabemos de cor.

O que vamos viver hoje? Pode ser uma coisa pequenina. Provavelmente será. Mas são essas pequenas coisas que, um dia, alguém encontrará nos vestígios que deixámos e tentará usar para perceber quem fomos.

Nós ainda temos uma vantagem sobre esse arqueólogo do futuro. Ainda cá estamos. Ainda podemos escolher.

A vida não começa quando finalmente estiver tudo resolvido. Não começa quando tivermos tempo. Não começa quando deixarmos de ter medo. Não começa amanhã.

É esta.

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