Desperta, uma vez mais, o clima outonal dos recém-chegados universitários. Os campi povoam-se dos costumeiros rituais de passagem, mantos negros que cortam o vento, cartazes que gritam promessas e constelações de jovens em efervescência. E algures entre eles — detalhe que de tão repetido se tornou hábito, despertando uma terna e persistente melancolia —, descobre-se o olhar zeloso de uma mão-cheia de encarregados de educação.
Era o batismo da maioridade para aquela juventude em flor. Cruzavam as soleiras da academia com o peito suspenso entre o deslumbramento e a vertigem, como quem descobre, finalmente, que o mundo transborda os muros da infância. Dispersavam-se por todas as áreas do saber: da precisão das ciências económicas e bagaceiras às geografias mais fluidas do humano, como a sociologia. Pareciam almas perfeitamente prontas para decifrar os mistérios do comércio, as tramas sociais e o pulsar da civilização; contudo, caminhavam ainda amparados pela sombra doce e tardia das suas origens.
Confesso que, mesmo no tempo em que habitava as salas de aula como docente, este modus faciendi já me intrigava. E a memória, no seu inevitável poder, faz-me recuar no tempo.
Lembro-me de cruzar o limiar do ensino superior sem que os meus pais fossem convocados para qualquer receção, liturgia de acolhimento ou sessão solene destinada a tutelar os passos do filho. À época, ninguém estranhava que um jovem, ao pisar a universidade, fosse acolhido pelo estatuto da maioridade — tratado, sem hesitações, como alguém com idade e arbítrio para responder pelos próprios atos.
Mesmo antes, nos anos que rodearam a velha quarta classe — designação que a pedagogia contemporânea olha hoje com a terna condescendência reservada às peças arqueológicas —, os pais raramente profanavam o chão da escola. E nós, estudantes desse tempo ido, teríamos visto nessa guarda pretoriana uma intrusão inadmissível, uma quase ofensiva invasão da nossa privacidade.
Recordo-me, aliás, de uma tarde na transição do quinto para o sexto ano — hoje rebatizado de décimo ano de escolaridade, pois a educação tem evoluído imenso, sobretudo na virtuosa arte de mudar os nomes às coisas — em que a minha mãe me acompanhou para formalizar a matrícula. Senti, diante da instituição, o peso de uma vergonha profunda por me ver sob aquela tutela familiar. Naquele tempo, uma das expressões que mais ecoava entre nós era categórica: “Não há pai para a gente.”
Era o nosso grito de independência. Talvez houvesse ali uma ponta de arrogância juvenil, é certo. Mas era, acima de tudo, a afirmação de uma soberania legítima.
Hoje, pelo contrário, parece ter-se instalado uma espécie de síndrome coletiva de tutela prolongada. A criança cresce, muda de escola, ingressa na universidade, talvez parta em mobilidade académica pela União Europeia — dependendo, naturalmente, da autorização dos interessados e da folga financeira dos pais —, talvez se aventure num mestrado, talvez não. Tira a carta de condução, exerce o direito de voto e, em prodígios de audácia, talvez consiga até resgatar uma profissão. Contudo, ao longo de todo o caminho, haverá sempre uma instituição vigilante, pronta a convocar os progenitores para lhes decifrar os labirintos do quotidiano.
O diagnóstico é o de uma curiosa paralisia civilizacional: tornámo-nos titãs na engenharia e infantis no carácter. Domesticámos os algoritmos, inventámos carros que estacionam por instinto e enviámos sondas aos confins do cosmos; contudo, perante o mistério de uma secretaria universitária, vemo-nos obrigados a convocar os pais de um adulto vacinado para, com paciência pedagógica, lhes apontar a direção do guiché. Eis a apoteose da nossa era: o jovem prodígio já conquistou a academia, mas os pais permanecem como a bússola sagrada que lhes diz em que balcão devem chorar o requerimento.
Há no cenário uma graça óbvia, mas também um vislumbre sinistro. A infância, outrora entendida como uma breve e fulgurante estação da vida, converteu-se numa espécie de comarca vitalícia. Os pais já não caminham ao lado; agem como procuradores, dobram as esquinas primeiro, filtram o oxigénio e traduzem o mundo a herdeiros feitos perfeitos mudos.
Antecipam cada solavanco do caminho e, numa solicitude quase anestesiante, poupam-lhes o incómodo de descobrir que a vida adulta alberga uma instituição severa e incontornável chamada responsabilidade.
Talvez estejamos a confundir afeto com tutela, proximidade com servidão, e cuidado com a gerência permanente da vida alheia. No fundo, capitulámos: aceitámos que crescer se tornou uma experiência demasiado áspera para ser confiada, sem filtros, aos seus próprios interessados. Só assim se explica o jardim-de-infância em que se transformou o ensino superior, perante a perplexidade e a queixa impotente dos docentes.
Afinal, se o rapazote foi minuciosamente treinado para nunca tropeçar no empedrado da vida, seria de uma soberba crueldade exigir que marchasse a solo ao cruzar os pórticos da academia. Se assim é, que se oficialize a farsa. Poderíamos estrear a época com a Sessão de Boas-Vindas aos Pais do Primeiro Emprego, instruindo as famílias sobre os horários, os ordenados e a conduta profilática da sua prole perante o patronato. Logo depois, organizar-se-iam os comités parentais de habitação, para assegurar que nenhuma criatura angélica se perca na escolha do teto, nos humores do senhorio ou, valha-nos Deus, no abismo de pagar a própria renda.
Mais à frente, já no horizonte da maturidade, seriam de elementar justiça as Sessões de Acompanhamento Familiar Pré-Matrimonial. Ali, os pais seriam devidamente informados sobre as agruras da vida conjugal, a aritmética da economia doméstica e a feição mais aceitável do número de telefonemas filiais por semana — blindando o jovem contra os sobressaltos de uma vida a dois que, sem a devida triagem materna, seria de todo intolerável.
Para os labirintos de maior complexidade, criar-se-ia, por fim, uma Comissão de Acompanhamento Familiar Permanente. Uma estância, também ela superior, destinada a supervisionar audácias de alto risco: comprar um automóvel usado, mudar de carreira, gerar descendência ou adquirir uma panela Air Fryer sem a devida consulta prévia e parental.
Sempre tive por certo de que educar uma criança consistia, entre outras artes, em prepará-la para a liberdade. Eu, que mimetizo a velha máxima e finjo que nunca me engano e raramente tenho dúvidas, sempre fiz o entendimento de que a infância deve ser ensinada a caminhar para que logre andar sozinha; a pensar para que ouse decidir; a cair para que aprenda a reerguer-se; e, acima de tudo, a deixar de precisar dos pais. Só quando o cordão umbilical se rompe por inteiro nasce, finalmente, o cidadão. Havia, nesse lento desapego, uma espécie de pequena morte consentida: a criança tinha de sepultar progressivamente a dependência dos progenitores para poder ascender à condição de adulto.
Hoje, raras são as minhas certezas; habito, em contrapartida, um território sitiado por dúvidas sobre o rumo deste empreendimento. Esboça-se, afinal, uma explicação inteligível para esta engenharia que molda cidadãos emancipados por lei, ativos na engrenagem económica e munidos do direito ao voto, mas que persistem em atravessar a existência sob o manto benigno — e anestesiante — de uma menoridade tutelada.
E depois, numa hipocrisia social retumbante, admiramo-nos de que os mais novos tenham dificuldade em crescer. É o curso social das coisas. Se nunca os deixarmos desmamar da infância, restará aos pais, pelo menos, a consoladora e patética vantagem de continuar a ver o seu nome inscrito nas convocatórias escolares até à fragilidade que acompanha os anos, desconfio eu, com os meus botões. E, nessa altura, com a ironia do tempo a morder-nos os calcanhares gretados, talvez já seja o próprio filho a receber a convocatória para a reunião de pais… dos seus próprios pais.
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