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ANA ALEXANDRA RESENDE - Arqueóloga e escritora. Foto DR
Cultura, Gastronomia, Opinião

A verdadeira arma secreta de Portugal | Por Ana Alexandra Resende

“Um território pequeno, atravessado durante milénios por povos, culturas, guerras, migrações e encontros, que foi absorvendo sabores, transformando receitas e sentando toda essa História à mesa”

07:30 1 Setembro, 2026 19:00 31 Agosto, 2026 | Cristina Mendonça
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Há uma frase que atravessou gerações, tradicionalmente atribuída a Júlio César a propósito dos Lusitanos:

«Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar.»

A autoria pode ser discutida e os historiadores gostam dessas discussões, eu incluída, mas a frase ficou.

E, depois de uns dias a atravessar Portugal, comecei a pensar que talvez tenhamos passado séculos a interpretá-la mal. Talvez o problema nunca tenha sido governar os Lusitanos. Talvez o verdadeiro problema fosse conseguir passar por cá sem se sentar à mesa.

Tenho uma teoria. Não está publicada em nenhuma revista científica, não foi sujeita a revisão por pares e dificilmente sobreviveria a um congresso de História Antiga. Mas resulta de vários dias de trabalho de campo, observação direta e de sucessivas derrotas gastronómicas sofridas em território nacional.

Eu estou de dieta. Ou, pelo menos, estava quando saí de Faro.

Imagem gerada através de Inteligência Artificial

Viajei pelo país com as melhores intenções: contenção, disciplina, escolhas sensatas e aquela determinação ingénua de quem acredita sinceramente que é possível atravessar Portugal recusando comida.

Primeiro veio Tomar.

E, em Tomar, apareceu o pernil.

Um magnífico pernil, daqueles que tornam absolutamente ridícula qualquer tentativa de falar em calorias. Há momentos em que uma pessoa tem de reconhecer que está perante forças superiores e capitular com dignidade.

Capitulei.

Ainda assim, mantive alguma esperança. Um pernil não destrói uma dieta. É um desvio. Um incidente. Uma contingência logística.

Depois cheguei a Belmonte.

E em Belmonte puseram-me uma morcela à frente. Não era uma morcela qualquer. Era uma daquelas coisas capazes de fazer uma pessoa fechar os olhos por alguns segundos e reconsiderar todas as decisões que tomou até àquele momento. Fui às lágrimas. Literalmente. Não sei se pela morcela, se pela consciência de que a dieta acabava de morrer definitivamente diante dos meus olhos. Provavelmente pelas duas coisas.

Depois veio Vila Viçosa. E os enchidos. A partir daí deixei de fingir. E comecei a olhar para a História de Portugal com outros olhos.

Nós estudamos invasões, conquistas, reconquistas, exércitos, muralhas, cercos, tratados e estratégias militares. Sabemos quem entrou, quem saiu, quem conquistou o quê e quem tentou conquistar outra coisa qualquer.

Mas talvez tenhamos negligenciado uma variável fundamental.

A taberna.

Imagino um exército a entrar neste território cheio de intenções bélicas. Homens cansados, cobertos de pó, carregados de armas, com ordens precisas e um objetivo militar perfeitamente definido.

Até alguém dizer: “Sentem-se primeiro. Comam qualquer coisa”.

E pronto. É aqui que qualquer estratégia começa a desmoronar-se. Porque em Portugal ninguém oferece propriamente «qualquer coisa».

Aparece pão. Depois aparece queijo. Depois alguém diz que tem ali um enchido caseiro que «é só para provar».

Chega o azeite. Entretanto surge um prato que não estava previsto.

E há sempre alguém que pergunta:

— Então não come mais nada?

Como é que se mantém uma invasão nestas condições?

Imagino o comandante a tentar reunir as tropas enquanto metade dos homens discute se aquele queijo é melhor do que o da terra anterior e a outra metade está à espera da sobremesa.

Ao fim de duas horas já ninguém se lembra muito bem ao que vinha.

E o pior é que não há escapatória geográfica possível. Podiam tentar pelo Norte. Má ideia. Entre rojões, alheiras, presunto, fumeiro, cabrito, vitela, caldo-verde e broa, uma campanha militar corria sérios riscos de terminar antes de atravessar o Douro. E se chegassem a Trás-os-Montes, entre uma posta, um bom fumeiro e tudo aquilo que aquelas terras sabem fazer à mesa, era provável que começassem a procurar casa em vez de território para conquistar.

Podiam tentar pelas Beiras. Também não aconselho. Há queijo da Serra. Basta. Mas, caso alguém ainda resistisse, haveria borrego, cabrito, enchidos, pão, azeite e uma quantidade bastante pouco razoável de maneiras de convencer um ser humano de que comer mais um bocadinho não faz mal nenhum.

No Centro, a resistência também não melhorava. Leitão, pernil, pratos de forno, sopas, carnes demoradamente cozinhadas e receitas que parecem ter sido concebidas especificamente para impedir qualquer pessoa de abandonar a mesa.

Descendo, Ribatejo e Alentejo tratariam do que sobrasse. Açordas, ensopados, migas, porco, borrego, pão, azeite, ervas aromáticas, enchidos…

Sobretudo pão.

O Alentejo conseguiu uma coisa extraordinária: provar que um pedaço de pão pode transformar-se praticamente em tudo.

E depois havia o Algarve. Ah, o Algarve! Depois de vários dias de carnes, enchidos, queijos e tentações sucessivas, comecei a sentir aquela saudadinha muito particular de casa. Do meu peixinho assado. Simples. Fresco. Com umas batatinhas e aquela saladinha montanheira, com tomate, pepino, pimento, cebola, orégãos e o sabor do verão algarvio dentro de uma travessa.

E de repente percebi que até a saudade portuguesa se manifesta através da comida.

Uma pessoa pode estar a comer maravilhosamente a centenas de quilómetros de casa e, ainda assim, pensar:

— Ai, o que eu comia agora era um peixinho assado…

Mas também seria um erro imaginar que o Algarve se resume à leveza do peixe.

Porque depois chegam a cataplana, o polvo, o atum, as conquilhas, o arroz de lingueirão, o xarém, os doces de amêndoa, o figo, a alfarroba…

E lá se vai novamente a dieta.

Nem o Atlântico nos salva.

Na Madeira esperariam a espetada, o bolo do caco, o peixe-espada e tantas outras armadilhas.

E nos Açores bastaria colocar um cozido, um bom queijo ou um prato de peixe à frente do invasor e esperar pacientemente pela rendição.

Talvez tenha sido esse o nosso verdadeiro sistema defensivo ao longo dos séculos. Não apenas castelos. Não apenas muralhas. Não apenas espadas. Comida.

Porque Portugal muda extraordinariamente depressa à mesa.

Mudam as paisagens, os sotaques, o pão, os queijos, os enchidos, os peixes, os doces e até a maneira como se insiste para que alguém coma mais um bocadinho.

Mas permanece qualquer coisa.

A comida portuguesa não é apenas comida. É território. É memória. É família.

É uma receita que passou de uma avó para uma mãe e de uma mãe para uma filha. É aquilo que se cozinha numa festa e aquilo que se coloca diante de quem chega. É uma das nossas primeiras formas de hospitalidade e, muitas vezes, uma das coisas de que sentimos mais falta quando estamos longe.

Há países onde se recebe alguém perguntando como correu a viagem.

Nós também fazemos isso.

Mas pouco depois vem inevitavelmente:

— Já comeu?

E talvez esteja aí uma parte importante de quem somos.

Um território pequeno, atravessado durante milénios por povos, culturas, guerras, migrações e encontros, que foi absorvendo sabores, transformando receitas e sentando toda essa História à mesa.

Por isso, quanto mais penso naquela velha frase sobre o povo dos confins da Ibéria que não se governava nem se deixava governar, mais desconfio de que nos falta uma parte da história.

Talvez alguns tenham tentado governar-nos. Talvez outros tenham tentado conquistar-nos.

Mas gostava de saber quantos conseguiram resistir depois de alguém lhes dizer: “Antes disso, sente-se aqui. Prove só isto”.

É apenas uma teoria. Por enquanto. A investigação continua. E, infelizmente para a minha dieta, ainda falta muito Portugal.

Embora, confesso, neste momento já tenha saudades do meu peixinho assado e da minha salada montanheira.

Há coisas contra as quais nem uma viajante resiste.

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