Há pessoas que gostam genuinamente de cozinhar.
Eu não sou uma delas.
Convém esclarecer: eu sei cozinhar. Consigo alimentar uma família inteira sem provocar uma intoxicação alimentar nem justificar a intervenção dos bombeiros.
Simplesmente não gosto.
Nunca compreendi inteiramente o entusiasmo de passar duas horas a preparar uma coisa que, quinze minutos depois, desapareceu.
Admiro quem sente prazer nisso. A sério.
Eu preferia estar a ler. Ou a escrever. Ou a estudar qualquer coisa absolutamente inútil sobre uma civilização desaparecida há três mil anos.

Confesso: talvez seja demasiado intelectual para apreciar devidamente o potencial emocional de um refogado. Já com a casa arrumada, a conversa é outra.
Gosto. Muito. Incomoda-me profundamente ver coisas fora do sítio. Gosto de entrar numa divisão e encontrar aquela maravilhosa ilusão de que quatro seres humanos não vivem realmente ali.
O problema começa quando não me limito a arrumar. Quando decido limpar a sério. Esta semana aconteceu. Olhei para um dos pisos da casa e pensei:
— Hoje é que vai ser.
Esta frase devia estar classificada como sinal de perigo.
Há ainda um pequeno pormenor que torna toda esta operação particularmente agradável: sou alérgica ao pó. Não é uma daquelas alergias conceptuais em que uma pessoa diz que “não se dá bem com pó”. Espirro, fico congestionada, fico mesmo maldisposta e, atualmente, cheguei à fase em que, para fazer determinadas limpezas em casa, ponho uma máscara.
Portanto, imaginem a cena.
Eu, de máscara, aspirador na mão, determinada a vencer domesticamente.
Aspirei. Arrastei coisas. Baixei-me. Levantei-me. Voltei a baixar-me. Estiquei-me para sítios onde provavelmente nenhum ser humano precisava de se esticar.
E, a determinada altura, fiz um movimento perfeitamente banal.
Foi o suficiente.
As minhas costas apresentaram a demissão.
1 Imediatamente.
Sem aviso prévio.
Sem negociação.
Sem sequer cumprirem o período legal de pré-aviso.
Fiquei direita.
Ou melhor, tentei.
Porque, quatro dias depois, continuo a deslocar-me pela casa com a elegância de uma senhora de 127 anos. Estou torta.
Ando devagar.
Levantar-me exige planeamento estratégico.
Baixar-me tornou-se uma memória distante.
Se alguma coisa cai ao chão, passa imediatamente a pertencer ao chão.
É dele.
Não vou buscá-la.
E tudo isto porquê? Porque resolvi ser responsável e limpar a casa.
É aqui que começo a sentir uma profunda injustiça cósmica.
Eu trabalho. Tenho uma vida profissional. Tenho filhos. Tenho mil coisas para fazer.
E, apesar disso, num assomo de responsabilidade doméstica, sacrifico parte do meu tempo livre e aparentemente também algumas vértebras para proporcionar à minha família uma casa apreciavelmente limpa. Não peço uma medalha.
Não peço uma cerimónia.
Nem sequer espero que alguém componha um hino em minha homenagem.
Mas talvez pudesse esperar que o chão permanecesse limpo durante, digamos, vinte e quatro horas.
Não.
Porque existem crianças.
E as crianças marimbam-se completamente para o esforço doméstico dos adultos.
Não o fazem por mal.
2 É pior.
Nem sequer reparam.
Uma criança entra numa divisão acabada de limpar e não pensa:
“Que chão maravilhoso. A minha mãe deve ter-se esforçado imenso.”
Não.
Pensa:
“Comia uma bolacha.”
E as crianças têm um talento extraordinário para escolher alimentos com capacidade de fragmentação nuclear.
Bolachas.
Pão.
Cereais.
Coisas que entram inteiras na mão de uma criança e, três segundos depois, cobrem uma área de aproximadamente doze metros quadrados.
No dia seguinte, lá estavam elas.
As migalhas.
No chão que eu tinha aspirado.
Eu, de costas tortas, contemplei-as.
Elas contemplaram-me.
E pensei: Obrigada pela consideração.
Quatro dias de dores. Uma máscara. Uma crise alérgica evitada por pouco.
Para isto.
Durante alguns minutos considerei seriamente uma nova política doméstica: deixar o pó acumular até ao teto e esperar que toda a gente acabasse soterrada nele.
Infelizmente, recordei-me de que sou alérgica.
Nem sequer posso desistir da limpeza com dignidade.
A Natureza retirou-me essa possibilidade.
Foi então que comecei a reconsiderar algumas das minhas posições relativamente ao futuro da humanidade.
3 Sempre disse que não queria um robô dentro de casa.
Não me seduz particularmente a ideia de uma criatura tecnológica a circular entre nós, observar os nossos hábitos e, eventualmente, concluir que é intelectualmente superior aos habitantes da casa.
Mas começo a mudar de opinião.
Aliás, neste momento, se aparecer no mercado uma ajudante robô que aspire, limpe o pó, apanhe migalhas e seja capaz de olhar para uma criança com uma bolacha na mão e dizer:
— Nem penses.
Eu quero ser pioneira.
Não tenho qualquer problema em contribuir para o avanço tecnológico da humanidade.
Venha a inteligência artificial.
Venha a robótica.
Venha o futuro.
Pode até dominar o mundo.
Desde que, antes disso, aspire a sala.
Eu, entretanto, vou fazer aquilo que a experiência me ensinou ser mais seguro.
Vou sentar-me.
Abrir um livro.
E esperar que as costas recuperem.
A casa talvez nunca esteja impecável.
Os miúdos vão continuar a fazer migalhas.
E eu vou continuar alérgica ao pó.
Mas começo a perceber que talvez a verdadeira evolução humana não tenha sido o domínio do fogo, a invenção da roda ou a chegada à Lua.
Talvez seja finalmente inventarmos alguém que limpe a casa por nós. De preferência sem coluna vertebral para lesionar.
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