Quando um dia tu chegares, talvez eu já esteja cansado de esperar. Talvez tenha aprendido a não olhar tantas vezes para a porta. Talvez tenha construído rotinas para não sentir a falta do que ainda não aconteceu. Não confundas a minha cautela com indiferença. Há esperas que se tornam silenciosas para sobreviverem. Há corações que continuam a acreditar, mas deixam de anunciar a esperança para não a exporem novamente ao abandono.
Aproxima-te devagar.
Não para que duvides do que sentes, mas para que respeites aquilo que, em mim, ainda precisa de tempo. E, quando vires as minhas imperfeições, não apenas as que conto com alguma beleza, mas as que me tornam difícil, contraditório e humano, não te peço que as ames todas. Peço-te que não uses nenhuma delas como arma. Corrige-me sem me diminuíres. Confronta-me sem me humilhares. Diz-me a verdade sem transformá-la numa forma de crueldade.
Eu quero fazer o mesmo contigo: ver-te por inteiro e não recuar diante da parte de ti que não cabe na imagem que imaginei.
Porque amar não é encontrar alguém sem sombras. É reconhecer a luz sem negar tudo aquilo que ela revela.
Quando um dia tu chegares, traz os teus sonhos, mas deixa espaço para os meus. Traz a tua liberdade, porque não quero que te apagues para caberes ao meu lado. Não preciso que abandones o mundo para me escolheres. Preciso apenas de sentir que, entre tantas possibilidades, há em ti uma vontade serena de regressar a nós.
E, se chegares assim, sem jogos, sem máscaras, sem a vaidade de parecer invulnerável, talvez eu tenha coragem de te entregar aquilo que guardei durante tanto tempo.
Não será perfeito. Será precioso.
Dar-te-ei o meu riso sem defesa, os meus medos sem disfarce, os meus dias luminosos e aqueles em que precisarei que me recordes que a noite não dura para sempre. Dar-te-ei a confiança que só existe quando alguém sabe que pode partir e, ainda assim, escolhe ficar. Dar-te-ei o lugar onde a minha voz repousa quando já não consegue explicar-se.
E então, quando um dia tu chegares, não precisaremos de fazer barulho.
Bastará que te sentes ao meu lado.
Bastará que a tua mão encontre a minha como se reconhecesse o caminho.
Bastará que fiques, depois de veres.
E eu ficarei também.
Não por medo da solidão, nem pela promessa impossível de que nada mudará, mas porque, entre todas as formas de atravessar o tempo, terei escolhido atravessá-lo contigo.
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