Um aroma semelhante ao do caril pode surpreender quem percorre os campos dunares de uma conhecida praia do sotavento algarvio. Não vem necessariamente de um restaurante nem de comida preparada nas proximidades. Na Praia do Barril, sensivelmente a meio da Ilha de Tavira, cresce a perpétua-das-areias, uma pequena planta capaz de libertar esse cheiro característico.
Segundo o Município de Tavira, a praia estende-se por uma estreita faixa de areia fina e branca e apresenta uma diversidade natural onde se destacam tanto a vegetação dunar como algumas espécies de fauna. Entre estas encontram-se as bocas-cava-terra, pequenos caranguejos característicos deste tipo de ambiente.
Planta que denuncia a presença pelo cheiro
A perpétua-das-areias, de nome científico Helichrysum italicum subsp. picardi, pode atingir entre cerca de 10 e 35 centímetros de altura. Segundo o portal Biodiversidade, apresenta uma base lenhosa, folhas estreitas de tonalidade verde-prateada e pequenas flores amarelo-douradas.
É precisamente o aroma que torna a planta particularmente fácil de reconhecer. A mesma fonte explica que a fragrância, proveniente dos seus óleos essenciais, é frequentemente associada ao caril e pode tornar-se especialmente evidente quando a planta é tocada. Apesar da semelhança no cheiro, não existe relação direta com a conhecida mistura de especiarias utilizada na culinária.
Flores podem aparecer durante vários meses
O período de floração pode começar ainda durante o inverno, em fevereiro, embora seja mais intenso entre maio e setembro. As pequenas flores amarelas agrupam-se nas extremidades dos caules e ajudam a tornar a espécie mais visível entre a restante vegetação das dunas.
De salientar que a perpétua-das-areias ocorre sobretudo em áreas litorais, preferindo solos arenosos, secos e bem drenados. Em Portugal pode ser encontrada ao longo da costa, incluindo em dunas estabilizadas e outros habitats próximos do mar, onde está adaptada ao vento, à exposição solar e à reduzida disponibilidade de água.
Dunas escondem mais do que areia
Na Praia do Barril, esta vegetação integra um espaço de elevado interesse natural. O Município de Tavira destaca os vastos campos dunares que envolvem a zona balnear e onde é possível encontrar espécies adaptadas às condições exigentes deste ambiente costeiro.
A perpétua-das-areias é também procurada por diferentes polinizadores. Abelhas, moscas, formigas, borboletas e traças entre as espécies que podem visitar as suas flores, existindo mesmo espécies que utilizam esta planta como fonte de alimento ou hospedeiro.
Praia guarda ainda memórias da pesca do atum
Contudo, a singularidade do Barril não se resume ao património natural. O espaço atualmente utilizado como apoio à praia corresponde a uma antiga armação dedicada à pesca do atum, atividade que durante décadas teve uma importância particular nesta zona do Algarve.
Ali é ainda possível observar o casario original ligado à antiga faina e vários vestígios dessa atividade. Entre os elementos mais conhecidos encontra-se o chamado “cemitério das âncoras”, onde dezenas de âncoras permanecem alinhadas na areia como testemunho da pesca do atum que marcou esta costa.
O cheiro pode ser a primeira pista
Assim, quem percorre a Praia do Barril pode encontrar num mesmo espaço vestígios históricos, fauna própria dos ambientes dunares e uma vegetação adaptada às condições do litoral. Entre essas plantas, a perpétua-das-areias destaca-se por uma característica que não precisa sequer de ser vista para ser notada.
Se, durante um passeio pelas dunas, surgir inesperadamente um cheiro semelhante ao do caril, a origem pode estar precisamente nesta pequena planta de flores amarelas. Na ilha de Tavira, o aroma tornou-se mais uma das particularidades naturais de uma praia onde a paisagem conserva também memórias de uma das antigas atividades piscatórias do Algarve.
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