À medida que os carros elétricos e híbridos plug-in se tornam mais comuns em Portugal, a pergunta começa a surgir em muitos prédios: se um morador carrega o carro elétrico na garagem, a conta fica para ele ou para todo o condomínio?
A resposta depende da forma como o ponto de carregamento está instalado, mas a regra geral é simples. Segundo o site Razão Automóvel, especializado em assuntos auto, quando o carregador serve apenas um condómino, os custos de instalação e de eletricidade devem ser suportados por esse utilizador, e não pelo condomínio.
O enquadramento legal atual também aponta nesse sentido. De acordo com o artigo 23.º do Decreto-Lei n.º 93/2025, que aprovou o novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica, é admitida a instalação de pontos de carregamento em edifícios existentes, por qualquer condómino, a expensas do próprio, desde que sejam cumpridos os requisitos técnicos aplicáveis.
Quem usa deve pagar
O princípio mais importante é este: o custo da energia deve ser pago por quem utiliza o carregador. Se o ponto de carregamento estiver ligado ao contador individual do condómino, o consumo entra diretamente na fatura de eletricidade desse morador. Esta é, normalmente, a solução mais simples, porque evita acertos posteriores e discussões entre vizinhos.
Quando o carregador é ligado ao quadro de serviços comuns do prédio, a situação exige mais controlo. Nesse caso, deve existir medição ou outro sistema fiável de imputação do consumo, para garantir que a eletricidade usada no carregamento do veículo não é paga por todos os condóminos.
A DGEG explica que, em edifícios multifamiliares, os pontos de carregamento podem ser alimentados pela instalação individual da fração, pelo quadro de colunas do edifício ou pelo quadro dos serviços comuns, desde que sejam respeitadas as regras técnicas aplicáveis.
O condomínio pode recusar?
A instalação de carregadores em prédios tem enquadramento legal em Portugal. O Decreto-Lei n.º 93/2025 prevê regras para facilitar a instalação de pontos de carregamento em edifícios existentes. Em regra, o condomínio não pode recusar livremente a instalação de um ponto de carregamento num lugar individual, desde que os custos sejam assumidos pelo condómino interessado e a instalação cumpra as regras técnicas e de segurança.
Há, no entanto, exceções. A administração do condomínio pode opor-se se, no prazo de 90 dias, avançar com uma solução comum que assegure os mesmos serviços, a mesma tecnologia e as necessidades dos potenciais utilizadores. Também pode haver oposição se o edifício já tiver um ponto de carregamento ou tomada elétrica para uso partilhado com essas características.
A instalação pode ainda ser travada se colocar comprovadamente em risco a segurança de pessoas ou bens, se dificultar a circulação nas vias comuns de acesso ou se impedir o cumprimento das regras de acessibilidade nos espaços comuns. Nestes casos, a decisão deve ser fundamentada e tomada dentro dos prazos legais.
E se os cabos passarem por zonas comuns?
Mesmo quando o carregador fica no lugar privativo do morador, a instalação pode obrigar à passagem de cabos por zonas comuns, como garagens, paredes técnicas ou áreas de circulação.
Nesses casos, o condómino deve comunicar por escrito a intenção à administração do condomínio, com pelo menos 30 dias de antecedência. Quando aplicável, a comunicação também deve ser dirigida ao proprietário.
A comunicação serve para permitir a avaliação da solução técnica, garantir a segurança da instalação e evitar conflitos futuros.
A passagem por zonas comuns não significa, por si só, que o condomínio tenha de pagar. Significa apenas que a obra tem de ser coordenada com a administração e respeitar as regras técnicas aplicáveis.
Quem paga a instalação?
Se o carregador for para uso individual, a instalação é paga pelo condómino que a pediu. Isto inclui o equipamento, a mão de obra, a cablagem, eventuais adaptações técnicas e qualquer verificação necessária para garantir que o sistema fica seguro e funcional.
A Razão Automóvel sublinha que a instalação de um ponto de carregamento individual é da responsabilidade do utilizador interessado. O condomínio só assume custos quando aprova uma solução coletiva ou quando a assembleia decide avançar com um sistema comum para vários moradores, definindo também a forma de repartição ou cobrança dos consumos.
Carregadores partilhados funcionam de outra forma
Se o prédio optar por instalar um sistema comum, destinado a vários condóminos, o modelo de pagamento deve ser definido pelo condomínio.
Nestes casos, é habitual recorrer a cartões de utilizador, aplicações, códigos de acesso ou sistemas de autenticação. Assim, cada morador paga apenas a energia que consumiu.
Este modelo evita que a conta da eletricidade seja distribuída por todos, incluindo quem não tem carro elétrico ou não usa o carregador.
Atenção às tomadas comuns
O maior risco de conflito surge quando alguém carrega o carro a partir de uma tomada comum da garagem, sem medição individual e sem autorização clara.
Nessa situação, a energia pode estar a ser paga pelo condomínio através da conta dos serviços comuns. Além de levantar questões de justiça entre condóminos, uma solução improvisada pode representar riscos de segurança elétrica.
O ACP alerta que o carregamento em tomadas domésticas deve ser tecnicamente validado, porque uma tomada comum pode não estar preparada para carregamentos prolongados e repetidos. Extensões, ligações improvisadas ou tomadas usadas de forma contínua para carregamento automóvel devem ser evitadas.
O carregamento deve ser feito através de equipamento adequado e instalação validada por técnico habilitado, respeitando o Guia Técnico das Instalações Elétricas para Alimentação de Veículos Elétricos, aprovado pela DGEG.
Seguro e responsabilidade
O carregamento de veículos elétricos é seguro quando a instalação é feita corretamente, mas não deve ser tratado como uma simples ligação doméstica.
O Decreto-Lei n.º 93/2025 e a Portaria n.º 118/2026/1 preveem seguro obrigatório de responsabilidade civil para Operadores de Pontos de Carregamento. Nos carregadores privados instalados para uso individual, a situação pode ser diferente, mas a recomendação prática mantém-se.
Antes de avançar, convém confirmar se o seguro multirriscos da fração ou do condomínio cobre situações como curto-circuitos, incêndios, danos elétricos ou problemas durante o carregamento.
Nos sistemas partilhados, o condomínio pode ainda ponderar uma cobertura específica na apólice comum do edifício.
O que fazer antes de instalar
O condómino interessado deve pedir uma avaliação técnica, confirmar a potência disponível, comunicar a intenção à administração do condomínio quando a instalação passe por zonas comuns e garantir que o consumo fica devidamente medido ou imputado.
Também deve guardar faturas, certificados, comprovativos da instalação e comunicações feitas ao condomínio. Estes documentos podem evitar dúvidas futuras, sobretudo se houver mudança de proprietário, avaria ou discussão sobre consumos.
No final, a resposta é direta: em regra, o condomínio não deve pagar a eletricidade do carro elétrico de um vizinho. Quem carrega, paga. O condomínio só entra na conta se aprovar uma solução coletiva ou se o carregamento estiver ligado aos serviços comuns sem medição nem controlo, situação que deve ser corrigida para que o consumo seja imputado a quem realmente utiliza o carregador.
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