Trabalho continua mais taxado do que antes da Troika
A carga fiscal sobre o trabalho em Portugal recuou desde o máximo registado em 2023, mas continua claramente acima dos níveis anteriores à intervenção da Troika e também da média dos países da OCDE.
Segundo os dados da OCDE, a chamada tax wedge — indicador que mede o peso conjunto do IRS e das contribuições para a Segurança Social pagas por trabalhadores e empregadores sobre o salário médio — atingiu 41,4% em 2023. Em 2025, esse valor desceu para 39,3%, o que representa uma redução de 2,1 pontos percentuais em dois anos.
Apesar desta descida, Portugal mantém uma carga fiscal sobre o trabalho bastante superior à registada antes do período de assistência financeira. Entre 2000 e 2010, antes da intervenção da Troika, a média portuguesa situava-se nos 36,6%. Ou seja, mesmo depois da redução recente, a tax wedge em 2025 continua 2,7 pontos percentuais acima da média pré-Troika.
O agravamento mais expressivo ocorreu precisamente durante os anos da assistência financeira, entre 2011 e 2014, quando o país adotou um conjunto de medidas de consolidação orçamental que aumentaram a tributação sobre os rendimentos do trabalho. O que começou como resposta a uma emergência financeira acabou por se prolongar no tempo, transformando-se num novo patamar fiscal. A série mostra que, apesar de algumas oscilações, Portugal nunca regressou de forma sustentada aos níveis anteriores à crise.
A comparação internacional também é desfavorável. Em 2025, a tax wedge portuguesa situava-se nos 39,3%, enquanto a média da OCDE era de 35,1%. A diferença, de 4,2 pontos percentuais, mostra que o trabalho em Portugal continua a suportar uma tributação mais pesada do que a verificada, em média, nas economias desenvolvidas.
Este peso fiscal tem consequências económicas relevantes. Uma carga elevada sobre o trabalho reduz o rendimento disponível das famílias, limita a capacidade de poupança e consumo, aumenta os custos de contratação para as empresas e pode travar a criação de emprego. Também torna mais difícil a progressão salarial líquida e reduz a competitividade do país na atração e retenção de talento.
A descida verificada desde 2023 é, por isso, positiva. Mas os dados mostram que ainda não representa uma reversão estrutural. Portugal continua com uma carga fiscal sobre o trabalho superior à do período pré-Troika e acima da média da OCDE.
- Os factos vistos à lupa por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do POSTAL com o Instituto +Liberdade

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