Está quase a começar a época alta, esse momento do ano em que o Algarve encena prosperidade e o país inteiro aceita o guião sem pedir ensaio geral.
Chegam milhões.
Partem milhões.
E, no intervalo, instala-se a coreografia perfeita de um sistema que aparenta funcionar, até ao exato instante em que deixa de funcionar.
Funciona?
Funciona o suficiente para manter a narrativa.
Nunca o suficiente para garantir a sustentabilidade.
O verdadeiro milagre algarvio não é o clima.
É a capacidade de operar, ano após ano, no limiar da ruptura sem colapsar de forma definitiva.
Uma espécie de economia de esforço máximo sustentada por um pacto silencioso, trabalhadores que aguentam, serviços que improvisam e um Estado que observa. Isto não é acaso.
É modelo.
Comecemos pelo trabalho, ou pela sua ausência seletiva.
A chamada “falta de mão de obra” não é um fenómeno natural.
Não é migração sazonal espontânea.
É uma consequência direta de uma equação simples, salários baixos, maior precariedade, mais habitação inacessível é igual a deserção racional.
Não faltam trabalhadores.
Faltam as condições.
O Algarve tornou-se um laboratório de desvalorização laboral onde se exige padrão europeu com práticas de periferia económica.
E quando o mercado responde, como sempre responde, a solução não é corrigir, mas sim substituir.
Importa-se mão de obra, roda-se pessoas, normaliza-se o desgaste.
O turismo, aqui, não consome apenas território. Consome gente.
Do ponto de vista sociológico, o resultado é previsível, a perda de identidade profissional, a fragmentação social e um tecido laboral descartável, sem continuidade nem pertença.
Um sistema que não fixa pessoas também não fixa qualidade.
Depois há o território físico, ou a sua gestão cronicamente adiada.
A mobilidade no Algarve é menos uma questão de transporte e mais um sintoma político.
A EN 125 permanece como monumento vivo à indecisão pública, de anos de concessões, reversões e responsabilidades diluídas produziram um artefacto tipicamente nacional, ninguém resolve, todos justificam.
Na saúde, entramos no domínio da ficção institucional.
Um sistema desenhado para uma população é subitamente forçado a responder a três ou quatro vezes mais.
E responde, como ?
Com exaustão.
A chamada “resiliência” dos profissionais de saúde é, na prática, a tradução elegante de uma falha estrutural.
Não é capacidade, é a ausência de alternativa.
O heroísmo forçado não é política pública.
E, como variável inevitável, regressam os incêndios.
Todos os anos excepcionais.
Todos os anos previsíveis.
Todos os anos são tratados como surpresa.
A prevenção continua a existir sobretudo em relatórios.
No terreno, a realidade oscila entre o insuficiente e o tardio.
Portugal domina a arte de conhecer o problema e adiar a solução.
Mas há um domínio onde o Algarve é exemplar, o entretenimento.
Festas, festivais, eventos, inaugurações, uma hiperatividade recreativa que contrasta violentamente com a inércia estrutural.
Como se governar fosse animar.
Como se a programação cultural pudesse substituir a planificação estratégica. Não pode.
O Algarve tornou-se uma economia de fachada, vende excelência, entrega esforço, promete qualidade e pratica o remendo.
Depende cada vez mais de fatores externos, o clima, a geografia, a tolerância social, e cada vez menos de decisão política consistente.
E isto tem consequências.
Um território que vive para picos não se desenvolve, desgasta-se.
Um modelo cuja economia é excessivamente dependente da sazonalidade tende a gerar riqueza de forma concentrada, ao mesmo tempo que distribui a vulnerabilidade por grande parte da sociedade.
Este desequilíbrio estrutural limita a resiliência do território e expõe trabalhadores e comunidades a ciclos de instabilidade.
Acaba por emergir uma espécie de “república de verão”, em que a atividade se intensifica de forma acelerada durante alguns meses, mas perde continuidade e relevância no restante do ano, comprometendo uma estratégia de desenvolvimento mais equilibrada e sustentável.
Mas politicamente, isto é confortável.
Permite adiar reformas, diluir responsabilidades e celebrar resultados imediatos. Sociologicamente, é corrosivo, precariza vidas, fragmenta comunidades e transforma o trabalho em mera sobrevivência temporária.
A pergunta, portanto, não é nova, mas continua sem resposta séria.
O Algarve está preparado para aquilo que vende ?
A resposta honesta é não.
Está preparado no que não depende de nós, o sol, o mar, a paisagem.
Falha onde depende exclusivamente de decisão política, habitação, trabalho, serviços públicos, prevenção e infraestruturas.
E essa falha não é recente.
É estrutural.
E, mais grave, é conhecida.
Sem intervenção séria, o ciclo repete-se ano após ano.
Verão de euforia estatística.
Inverno de esquecimento político.
E, pelo meio, um território progressivamente mais frágil a sustentar uma imagem cada vez mais difícil de manter. No fim, quando tudo falha, filas, hospitais saturados, estradas colapsadas, incêndios, resta o consolo habitual, o Algarve volta aos telejornais.
Não como exemplo.
Mas como aviso.
E talvez esse seja o verdadeiro problema, já não estamos perante uma exceção. Estamos perante um sistema que opera com uma precisão quase exemplar, não apesar das suas falhas aparentes, mas precisamente por causa delas.
Funciona exatamente como foi desenhado, a produzir determinados resultados, a reproduzir certas hierarquias e a normalizar desigualdades que depois se apresentam como inevitáveis.
A sua maior eficácia talvez resida na capacidade de se apresentar como imperfeito, quase acidental, quando na verdade é profundamente coerente naquilo que gera. Admiti-lo, contudo, permanece um exercício, que se apresenta como politicamente desconfortável.
Não por falta de evidência, mas porque reconhecer o desenho implica questionar quem segura o lápis.
E, nesse ponto, a correção política revela-se menos como um gesto de civilidade e mais como uma elegante forma de adiar o confronto com aquilo que, no fundo, já todos perceberam, ainda que prefiram tratá-lo como uma infeliz coincidência.
Mas talvez isto não passe de uma divagação de quem observa mais do que decide, do turismo e do verão pouco sei em teoria, embora, como tantos, lhes conheça bem as consequências na prática.
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