O cérebro está ativo todos os dias e a todas as horas, ajudando a regular funções essenciais do corpo, a memória, a atenção e o humor. No entanto, alguns hábitos aparentemente inofensivos podem, quando repetidos ao longo do tempo, prejudicar a saúde do cérebro, segundo neurologistas ouvidos pela publicação norte-americana EatingWell, especializada em alimentação, nutrição, saúde e bem-estar
A EatingWell reuniu alertas de especialistas em neurologia sobre cinco comportamentos frequentes que merecem ser repensados. Entre eles estão dormir pouco, passar demasiado tempo sentado, abusar dos estímulos digitais, consumir muitos alimentos ultraprocessados e ignorar problemas de audição.
Sono curto pode comprometer a saúde do cérebro
Tratar o sono como algo secundário é um dos hábitos apontados pelos especialistas. Durante o descanso, o cérebro continua ativo e participa em processos importantes, como a consolidação da memória e a eliminação de resíduos através do chamado sistema glinfático, que, segundo a Cleveland Clinic, ajuda a limpar substâncias de que o cérebro já não precisa.
A neurologista Kimberly Idoko, citada pela mesma fonte, explica que dormir pouco ou ter um sono fragmentado pode deixar incompletos estes processos, afetando funções cognitivas. O neurologista Rab Nawaz Khan acrescenta que problemas como a apneia do sono não tratada podem reduzir o sono profundo reparador e interferir com a memória, a regulação emocional e a saúde vascular.
Passar muito tempo sentado também exige atenção
Outro hábito destacado é permanecer longos períodos sentado e fazer pouca atividade física. De acordo com Rab Nawaz Khan, citado pela mesma fonte, o sedentarismo pode prejudicar o fluxo sanguíneo para o cérebro, a saúde metabólica e a resistência vascular, fatores relevantes para o envelhecimento cognitivo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que qualquer quantidade de atividade física é melhor do que nenhuma e que todos os grupos etários devem limitar o tempo passado em comportamento sedentário.
Já os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos indicam que a atividade física pode ajudar a pensar, aprender, resolver problemas, melhorar a memória e reduzir o risco de declínio cognitivo e demência.
Excesso de estímulos digitais pode fragmentar a atenção
O uso constante do telemóvel, das redes sociais, dos e-mails e de outras notificações também é referido pelos neurologistas. Kimberly Idoko afirma à EatingWell que a exposição permanente a estímulos digitais mantém o cérebro em estado de alerta, fragmentando a atenção e dificultando as condições necessárias para a memória e a regulação emocional.
A multitarefa agrava este cenário. Segundo o neurologista William Scott Burgin, citado pela mesma publicação, o cérebro não executa duas tarefas complexas ao mesmo tempo, mas alterna entre elas, consumindo atenção e recursos mentais. Com o tempo, esta alternância frequente pode aumentar a distração e reduzir o desempenho da memória.
Alimentos ultraprocessados podem afetar a saúde do cérebro
Os especialistas alertam ainda para o consumo frequente de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas. Segundo a EatingWell, padrões alimentares ricos neste tipo de produtos estão associados a inflamação e alterações metabólicas que podem influenciar a saúde do cérebro.
A American Academy of Neurology também divulgou um estudo publicado na revista Neurology que associa maior consumo de ultraprocessados, como refrigerantes, batatas fritas e bolachas, a maior risco de problemas de memória e pensamento, bem como de AVC. A própria academia sublinha, contudo, que o estudo mostra uma associação e não prova uma relação direta de causa e efeito.
Ignorar problemas de audição pode aumentar a carga cognitiva
A audição é outro fator muitas vezes esquecido quando se fala de saúde do cérebro. Rab Nawaz Khan explica que, perante perda auditiva não tratada ou exposição repetida a sons altos, o cérebro precisa de trabalhar mais para descodificar os sons, aumentando a carga cognitiva.
O National Institute on Aging, dos Estados Unidos, também refere que estudos têm mostrado maior risco de demência em adultos mais velhos com perda auditiva, quando comparados com pessoas da mesma idade sem esse problema. Por isso, avaliar alterações na audição e procurar acompanhamento pode ser importante para proteger a saúde cognitiva a longo prazo.
Pequenas mudanças podem ajudar a proteger a saúde do cérebro
Os neurologistas ouvidos pela EatingWell recomendam medidas simples, mas consistentes: manter horários de sono regulares, reduzir ecrãs antes de dormir, levantar-se com mais frequência ao longo do dia, praticar atividade física, privilegiar alimentos menos processados e estar atento a sinais de perda auditiva.
Apesar de nenhum hábito isolado determinar, por si só, a saúde do cérebro, a repetição diária de escolhas menos saudáveis pode ter impacto ao longo do tempo. A boa notícia é que muitos destes fatores podem ser ajustados com mudanças graduais na rotina, ajudando a apoiar a memória, a atenção e o bem-estar geral.
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