Nos últimos dias, tenho reparado num fenómeno curioso: parece que o mundo inteiro anda à procura de sinais.
Um eclipse deixa de ser apenas um eclipse. Uma chuva de estrelas ganha significados escondidos. Um sismo acontece num ponto do planeta e, poucas horas depois, já há quem encontre uma ligação com outro ocorrido a milhares de quilómetros. Os planetas alinham-se, a Lua muda de cor, a Terra treme, o céu ilumina-se e as redes sociais enchem-se de profecias, previsões e anúncios de que alguma coisa muito grande está prestes a acontecer.
Talvez esteja. Mas talvez não seja aquilo que pensamos.
A Terra tem cerca de 4,54 mil milhões de anos. É um número tão absurdo à escala da nossa existência que quase perde significado. Muito antes de existirmos, já os continentes se separavam, os oceanos nasciam e desapareciam, as montanhas se erguiam, os vulcões explodiam e as placas tectónicas se movimentavam.

Provavelmente seja precisamente isso que mais nos custa aceitar: o planeta não precisa de nós para continuar a existir. Nós é que precisamos dele.
E, no entanto, construímos cidades, fronteiras, Estados, religiões, ideologias, partidos, exércitos e muros. Discutimos porque alguém acredita num Deus diferente do nosso, fala outra língua, nasceu do outro lado de uma linha desenhada num mapa ou simplesmente vê o mundo de maneira diferente.
Depois a Terra mexe-se durante vinte segundos e, subitamente, todas essas certezas parecem extraordinariamente pequenas. Um terramoto não pergunta em quem votámos. Uma inundação não verifica a nossa religião. Uma tempestade não pede o passaporte antes de atravessar uma fronteira.
Perante as grandes forças da Natureza, voltamos todos à condição mais elementar que tantas vezes parecemos esquecer: somos humanos.
Li recentemente uma reflexão cuja ideia não me saiu da cabeça: talvez fosse melhor começarmos a derrubar as barreiras que construímos entre nós antes que outras forças acabem por derrubar as paredes à nossa volta. Não como ameaça. Como metáfora.
Vivemos realmente um período estranho. Há guerras, populações deslocadas, discursos cada vez mais agressivos e uma facilidade assustadora em transformar quem pensa de maneira diferente num inimigo. E há, sobretudo, muito medo.
Talvez por isso proliferem profecias e previsões apocalípticas. O medo procura explicações e nós precisamos de acreditar que existe uma narrativa, que os acontecimentos estão ligados, que alguém sabe o que vem a seguir.
Compreendo que alguém olhe para uma Lua avermelhada e encontre nela uma passagem bíblica. Que outro veja um alinhamento planetário e lhe atribua significado espiritual. E que outro simplesmente olhe para o céu e diga: “bonito”. Há espaço para todos. O problema começa quando deixamos de contemplar e começamos a ter medo.
Não precisamos de escolher entre ciência e esperança. A ciência diz-nos que a Terra é um planeta geologicamente ativo, que os sismos fazem parte da sua dinâmica, que os eclipses são previsíveis e que as chuvas de meteoros têm explicações naturais. E saber isto não torna o Universo menos extraordinário. Talvez o torne ainda mais.
Há poucos dias, durante o eclipse, milhões de pessoas fizeram uma coisa raríssima: pararam. Saíram de casa, foram para varandas, praias, campos e ruas e levantaram os olhos. Durante alguns minutos, pessoas que provavelmente discordariam profundamente sobre política, religião, guerras e fronteiras estavam exatamente a fazer a mesma coisa: a olhar para o céu.
Depois vieram as Perseidas e voltámos a olhar.
Talvez o Universo não nos estivesse a mandar mensagem nenhuma. Talvez sejamos nós que precisamos de retirar uma mensagem disso. Somos muito pequenos, mas somos muitos. E estamos todos aqui, no mesmo planeta, sobre as mesmas placas tectónicas e debaixo do mesmo céu.
No meio destas conversas, houve uma observação que me ficou particularmente na cabeça. Veio da minha filha de nove anos. Falávamos sobre sismos e sobre aquilo que poderíamos fazer para estarmos mais preparados quando ela disse que havia lugares que deviam ser reforçados para serem mais seguros: os hospitais, as escolas e os supermercados.
Pensei nisso. Hospitais. Escolas. Supermercados.
Não falou de profecias nem quis saber quando seria o próximo sismo. Pensou nos lugares de que precisaríamos se alguma coisa acontecesse. Nesta simplicidade há certamente uma lição importante para nós, adultos.
Porque existem riscos reais e devemos preparar-nos para eles. Devemos melhorar a segurança dos edifícios, proteger infraestruturas essenciais, conhecer os procedimentos de emergência e ensinar às crianças o que fazer. Isso chama-se prevenção. Não medo.
Podemos discutir o futuro e tentar antecipá-lo, mas não podemos ficar tão obcecados com aquilo que poderá acontecer depois que nos esqueçamos daquilo que podemos fazer agora.
Porque o depois não interessa nada ao Agora e ao Já. Não no sentido de ignorarmos o futuro. Precisamente no sentido contrário: o futuro constrói-se no presente.
Enquanto discutimos aquilo que poderá acontecer amanhã, há guerras a acontecer hoje. Há pessoas que precisam de cuidados hoje. Há escolas que precisam de proteger crianças hoje. Há seres humanos que precisam de outros seres humanos hoje.
Passamos demasiado tempo a perguntar o que será do mundo quando dev~iamos passar um pouco mais de tempo a perguntar o que estamos a fazer com ele.
Talvez não venha aí o fim do mundo. Talvez venha apenas mais um dia. E, se vier, já não será pouco.
Será mais uma oportunidade para percebermos que não precisamos de pensar todos da mesma maneira para caminharmos na mesma direção. Podemos acreditar ou não acreditar. Podemos rezar, meditar, estudar as estrelas ou simplesmente contemplá-las.
Mas talvez possamos concordar numa coisa: não vale a pena esperar que as paredes caiam para descobrirmos que nunca precisámos de tantos muros.
Há poucos dias, milhões de nós parámos para olhar na mesma direção. Para cima.
Provavelmente agora esteja na altura de fazermos uma coisa ainda mais difícil: olharmos uns para os outros.
E percebermos que, perante a imensidão do Universo e as forças extraordinárias deste pequeno planeta que habitamos, aquilo que nos separa é infinitamente menor do que aquilo que nos une.
Se há alguma coisa que estes dias nos podem ensinar, não é que devemos ter medo do céu ou da Terra. É que talvez devêssemos cuidar um pouco melhor daquilo que existe entre ambos.
Nós.
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