Há um fenómeno curioso que acontece todos os anos por estas bandas: chega agosto e o Algarve aumenta de população sem aumentar de tamanho.
As estradas continuam com a mesma largura. Os supermercados não ganham corredores novos durante a noite. Os lugares de estacionamento, por alguma razão que a ciência ainda não conseguiu explicar, não se reproduzem. E as praias, lamentavelmente, não esticam.
Só que, de repente, parece que Portugal inteiro decidiu vir ter connosco.
E ainda bem.
Convém esclarecer isto antes que alguém interprete esta crónica como um apelo à instalação de um posto fronteiriço depois de Almodôvar.
Venham.
Nós gostamos de receber.

Eu própria nasci em Lisboa, filha de mãe lisboeta e pai farense, e vivo no Algarve há anos suficientes para considerar que, entre herança familiar e usucapião, já adquiri o direito de resmungar com agosto.
E resmungo.
Porque agosto, no Algarve, não é propriamente um mês.
É um estado de espírito.
Uma simples deslocação passa a exigir planeamento estratégico.
— Vamos ali?
Em fevereiro, “vamos ali” significa ir.
Em agosto significa: a que horas? Por onde? Há estacionamento? É mesmo necessário? Não podemos ir em outubro?
Ir à praia, então, aproxima-se perigosamente de uma operação militar.
Moro a poucos minutos da Praia de Faro. Em teoria, sou uma privilegiada. A praia está praticamente à porta.
Em teoria.
Em agosto, cá em casa, uma ida à praia começa com aquilo que só posso descrever como uma reunião do Estado-Maior.
Consultam-se acessos. Avaliam-se horários. Estudam-se percursos alternativos.
— E se sairmos às oito?
Depois lembramo-nos de que temos filhos e que conseguir colocar uma família inteira dentro de um automóvel às oito da manhã, em férias, constitui por si só uma operação militar independente.
E o estacionamento?
Silêncio.
É normalmente neste momento que abandonamos a Praia de Faro e acabamos a fazer praia no concelho de Loulé.
Não necessariamente porque seja melhor.
Porque conseguimos chegar lá.
Há qualquer coisa de deliciosamente absurda em viver praticamente ao lado de uma praia e percorrer quilómetros à procura de outra porque, durante agosto, os poucos minutos que nos separam da primeira pertencem ao domínio da ficção.
Mas seria profundamente injusto contar apenas esta metade da história.
Porque agosto também respira vida.
As ruas enchem-se. As noites prolongam-se. Há peixe na grelha, copos nas esplanadas, música, festas e sunsets junto ao mar. Há crianças que descobrem pela primeira vez as nossas praias e famílias que regressam há tantos anos que aquele pedaço do Algarve já faz parte das memórias delas.
Há línguas diferentes nas ruas, restaurantes cheios e uma energia que não existe em nenhuma outra altura do ano.
E precisamos dela.
Precisamos de quem chega, de quem fica nos nossos hotéis, come o nosso peixinho, descobre as nossas cidades, dança nas nossas festas e fica em silêncio durante alguns segundos perante um pôr do sol que nós, por o termos tão perto, às vezes nos esquecemos de olhar.
O turismo é fundamental para o Algarve. Faz viver empresas, cria trabalho e sustenta milhares de famílias. E receber bem quem nos escolhe também faz parte desta terra.
Talvez a nossa relação com agosto seja, simplesmente, um pouco contraditória.
Em agosto queremos sossego.
Em janeiro queixamo-nos de que está tudo demasiado sossegado.
Em agosto resmungamos porque o restaurante está cheio.
Em novembro passamos pelo mesmo restaurante vazio e comentamos:
— Isto agora está morto.
Não somos fáceis.
Talvez nenhum amor verdadeiro seja completamente coerente.
O Algarve vive e respira durante todo o ano. Em agosto, simplesmente, respira mais depressa.
Por isso, venham.
Vão à praia. Comam o peixinho. Fiquem para o sunset. Dancem. Passeiem. Aproveitem as noites quentes e façam todas aquelas coisas que nós passamos onze meses a dizer que também faremos quando tivermos tempo.
São muito bem-vindos.
Só vos pedimos alguma compreensão se encontrarem um residente com um olhar ligeiramente perdido, depois de quarenta minutos à procura de estacionamento.
Não é falta de hospitalidade.
É agosto.
E, quando estiverem parados numa fila interminável a perguntar como é possível haver tanta gente no Algarve, olhem para o carro ao lado.
Provavelmente estaremos lá nós.
A resmungar.
Mas contentes por terem vindo.
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