Ontem aconteceu uma coisa extraordinária.
E não, não estou propriamente a falar apenas do eclipse.
Esse já estava marcado há bastante tempo e o Sol e a Lua, ao contrário de nós, parecem ter uma admirável capacidade para cumprir agendas.
Estou a falar de outra coisa.
Durante alguns minutos, milhões de pessoas fizeram exatamente o mesmo: pararam e olharam para o céu.

Em países diferentes. Em cidades diferentes. Em praias, ruas, varandas, montanhas e jardins. Uns com óculos próprios para o efeito, outros com equipamentos dignos da NASA e, seguramente, alguns com soluções caseiras capazes de provocar arrepios a qualquer oftalmologista.
Até aqueles que garantiam não estar particularmente interessados acabaram, provavelmente, por espreitar.
Só um bocadinho.
Só para ver.
Porque podemos fingir indiferença perante muitas coisas, mas continuamos a ser uma espécie bastante curiosa quando o céu resolve fazer alguma coisa diferente.
E depois vieram as Perseidas.
Como se o Universo, já tendo conseguido a nossa atenção, tivesse decidido aproveitar.
Primeiro fez-nos olhar para o Sol.
Depois pediu-nos que esperássemos pela noite.
E voltámos a olhar para cima.
Talvez tenha sido isso que mais me impressionou nestes últimos dias.
Não o eclipse. Não as estrelas cadentes. Mas nós.
Nós, humanos.
Tão extraordinariamente capazes de discordar sobre praticamente tudo.
Política, religião, guerras, fronteiras, futebol, educação, alterações climáticas, alimentação, turismo, estacionamento e, no Algarve em agosto, provavelmente até sobre quem chegou primeiro à rotunda.
Vivemos num mundo que parece ter desenvolvido uma extraordinária competência para nos colocar em lados opostos.
E ultimamente o mundo anda particularmente convulso.
Há guerras. Há violência. Há discursos cada vez mais agressivos. Há povos inteiros a sofrer. Há medo, intolerância e uma estranha facilidade em olharmos para o outro e vermos primeiro aquilo que nos separa.
Talvez por isso estes minutos me tenham tocado tanto.
Porque, por breves instantes, aconteceu precisamente o contrário.
Olhámos todos na mesma direção.
Não pensámos todos da mesma maneira.
E ainda bem.
Pensar todos da mesma maneira seria terrivelmente aborrecido e, provavelmente, uma péssima ideia.
Somos feitos de histórias diferentes, experiências diferentes, convicções, culturas, medos, sonhos e maneiras muito particulares de compreender o mundo.
Mas olhar na mesma direção é outra coisa.
É reconhecer que, apesar de tudo aquilo que nos separa, ainda existem coisas diante das quais conseguimos simplesmente parar.
Um eclipse.
Uma chuva de estrelas.
Um céu que escurece quando não devia.
Um risco de luz que atravessa a noite.
E durante alguns segundos ninguém pergunta de onde vem a pessoa que está ao lado, em quem vota, que Deus tem, ou se não tem nenhum, que língua fala ou de que lado de uma fronteira nasceu.
Olha.
Simplesmente olha.
Talvez esteja a fazer-nos falta isso.
Não outro eclipse, necessariamente. Seria exigir demasiado ao sistema solar resolver os problemas da humanidade.
Mas alguma coisa que nos faça levantar a cabeça.
Que nos recorde que estamos todos aqui.
Neste pequeno planeta.
Ao mesmo tempo.
Por um período assustadoramente breve.
Passamos tanto tempo curvados sobre ecrãs, problemas, contas, discussões e pequenas urgências que facilmente nos esquecemos da dimensão extraordinária dessa coincidência.
Estamos vivos.
Aqui.
Agora.
E partilhamos o mesmo céu.
Depois, evidentemente, alguém pega no telemóvel para fotografar uma estrela cadente e passa os cinco minutos seguintes a tentar perceber porque é que na fotografia só aparece um quadrado preto.
Continuamos a ser humanos.
Talvez seja precisamente por isso que estes momentos são tão bonitos.
Porque não nos tornam melhores.
Não resolvem guerras.
Não apagam fronteiras.
Não acabam com o ódio nem fazem desaparecer aquilo que nos divide.
Mas durante alguns minutos suspendem tudo isso.
E lembram-nos de uma possibilidade.
A de conseguirmos olhar juntos para alguma coisa.
O eclipse passou.
As Perseidas também.
Hoje voltaremos às notícias, às discussões, às urgências e a esse mundo inquieto que parece tantas vezes determinado a dividir-se em pedaços cada vez mais pequenos.
Mas ficou-me esta imagem.
Milhões de pessoas espalhadas pelo planeta, algumas fascinadas, outras curiosas, outras jurando que não ligavam nenhuma, mas todas, nem que fosse por um instante, de cabeça levantada.
Talvez a humanidade não precise de olhar toda da mesma maneira.
Talvez precise apenas de se lembrar, de vez em quando, de que ainda consegue olhar na mesma direção.
E que, acima de todas as nossas diferenças, continua a haver um céu que é de todos.
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