Há uma discussão que regressa ao Algarve todos os anos, quase com a mesma pontualidade com que chegam os primeiros voos cheios de turistas: a falta de trabalhadores no turismo. Quando o verão se aproxima, hotéis, restaurantes, empresas de animação turística e transportes começam a procurar pessoas para preencher os lugares que ficaram vazios. Fala -se de falta de mão de obra, de dificuldade em contratar e de empresas obrigadas a recorrer ao recrutamento no estrangeiro para conseguir funcionar.
É uma realidade. Mas o diagnóstico está incompleto.
O Algarve não tem apenas um problema de falta de trabalhadores. Tem um problema de qualificação, valorização e retenção de profissionais.
Os números ajudam a perceber o paradoxo. O turismo continua a crescer: nos primeiros três meses de 2026, a hotelaria portuguesa registou 13,6 milhões de dormidas, mais 1,3% do que no mesmo período do ano anterior. Em março, os proveitos hoteleiros do Algar ve cresceram 11,9% em termos homólogos.
Há turistas. Há procura. Há negócio.
Mas quem trabalha nesta economia consegue viver dela?
Em 2024, a remuneração base média mensal no alojamento, restauração e similares foi de cerca de 995 euros, bastante abaixo da média nacional, que ultrapassava os 1.300 euros. Ao mesmo tempo, o custo de viver no Algarve continua a afastar-se da realidade salarial de muitos trabalhadores. Em junho de 2026, o preço mediano anunciado para arrendamento na região rondava os 15,5 euros por metro quadrado. Em Loulé ultrapassava os 18 euros e em Albufeira os 16 euros. Em Faro, um quarto rondava os 400 euros mensais.
A equação é difícil de ignorar. Uma pessoa pode trabalhar num hotel em Faro ou num restaurante em Albufeira e, simultaneamente, ter cada vez mais dificuldade em encontrar um lugar acessível para viver.
Por isso, talvez a pergunta não deva ser apenas “onde vamos encontrar trabalhadores?”.
Talvez devêssemos perguntar: “Como conseguimos convencer alguém a fazer do turismo uma carreira e do Algarve a sua casa?”
Esta diferença é fundamental. Um trabalhador pode preencher uma vaga durante uma temporada. Um profissional acumula experiência, conhece o território, domina línguas, aprende a lidar com diferentes clientes e torna -se progressivamente mais valioso para a empresa e para o destino.
No turismo, esta distinção é particularmente importante. Um rececionista que conhece o Algarve e sabe resolver um problema não está apenas a fazer check -in. Um motorista que conhece a região e sabe comunicar com o cliente não está apenas a transportar algu ém. Um empregado de mesa que conhece a gastronomia e domina o serviço não está apenas a levar pratos à mesa.
Estão todos a vender o destino.
O próprio setor reconhece a necessidade de qualificação. O programa “Competências do Futuro Algarve”, promovido pelo Turismo de Portugal, pelo Turismo do Algarve e pelas Escolas de Hotelaria e Turismo, qualificou cerca de 800 profissionais entre 2024 e 202 5.
É uma iniciativa importante, mas também revela uma realidade: recrutar não chega. É preciso formar. E, depois, é preciso conseguir manter essas pessoas.
Porque de pouco serve formar um profissional hoje se amanhã ele abandona o setor porque não consegue pagar uma casa, constituir família ou imaginar um futuro na região.
Esta não é uma questão de nacionalidade. O Algarve precisa de trabalhadores portugueses e estrangeiros. A questão deve ser competência: formação, línguas, conhecimento do setor, capacidade de comunicação e condições para evoluir.
O problema é que estamos presos num ciclo difícil de quebrar: salários pouco competitivos dificultam a contratação; a dificuldade em contratar aumenta a rotatividade; a rotatividade reduz a experiência acumulada; e a falta de experiência prejudica a consis tência do serviço.
Depois perguntamo -nos porque faltam profissionais.
Talvez porque durante demasiado tempo nos preocupámos em encontrar pessoas suficientes para trabalhar no turismo, mas não o suficiente em criar condições para que essas pessoas quisessem continuar.
O Algarve precisa, por isso, de mais do que campanhas de recrutamento. Precisa de uma estratégia regional que ligue turismo, formação, habitação, transportes e emprego . Precisa de aproximar empresas, escolas e instituições públicas. Precisa de criar percursos profissionais e não apenas empregos sazonais.
Porque uma região turística não pode ser sustentável se as pessoas que trabalham para a sustentar não conseguem viver nela. É fácil medir o sucesso através de dormidas, passageiros ou receitas. Mas há outras perguntas que deveríamos começar a fazer: quantos profissionais permanecem no setor depois de cinco anos? Quantos conseguem progredir? Quantos jovens conseguem construir aqui uma carreira? Quantos trabalhadores conseguem transformar um emprego de verão numa profissão?
O Algarve não pode competir apenas através das praias, do clima ou dos hotéis. Esses atributos existem noutros destinos. A verdadeira diferença está na experiência — e a experiência é feita por pessoas.
O verdadeiro luxo de um destino não está apenas num hotel de cinco estrelas. Está no profissional que sabe resolver um problema antes de ele se transformar numa reclamação, no motorista que conhece cada estrada, no empregado que sabe explicar o que está a servir e no rececionista que faz um visitante sentir que escolheu o destino certo.
Essa experiência não se improvisa num verão.
E um profissional não se constrói de um dia para o outro.
O Algarve não precisa simplesmente de mais pessoas para trabalhar. Precisa de criar razões para que as pessoas que trabalham cá queiram ficar.
Porque um destino turístico de excelência não se mede apenas pelos turistas que consegue trazer.
Mede-se também pelos profissionais que consegue convencer a ficar.
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