Há poucas coisas capazes de suspender o mundo. Uma guerra não o faz. Uma crise económica também não. As eleições mais importantes dividem -nos; um Mundial aproxima-nos. Durante noventa minutos, um pescador em Cabo Verde, um estudante em Buenos Aires, um empresário em Tóquio e uma família em Faro olham para o mesmo relvado e vivem a mesma ansiedade. É talvez o fenómeno mais democrático da era moderna.
Costuma dizer-se que o futebol é apenas um jogo. Nunca foi. O futebol sempre foi um espelho. E, por vezes, um espelho diz -nos mais sobre o estado do mundo do que qualquer cimeira internacional ou relatório económico.
Vivemos uma época em que a política parece ter regressado à lei do mais forte. Multiplicam-se guerras, cresce a influência de líderes que confundem firmeza com arrogância e normaliza-se a ideia de que quem detém mais poder pode moldar as regras à sua conveniência. É um tempo em que as grandes potências falam cada vez mais alto e os pequenos são frequentemente remetidos para segundo plano.
Mas chega o Campeonato do Mundo e, de repente, a ordem estabelecida vacila.
No futebol, não há porta-aviões que marquem golos. Não há arsenais nucleares que defendam um pontapé de canto. Não há Produto Interno Bruto que transforme um penálti em golo. Dentro das quatro linhas, desaparecem os privilégios da geopolítica. Restam apenas talento, organização, coragem e a capacidade de resistir quando tudo parece perdido.
É por isso que um país com poucos milhões de habitantes pode fazer tremer uma superpotência. Que uma seleção sem tradição pode eliminar outra repleta de estrelas. Que um pequeno possa, durante noventa minutos, obrigar um gigante a lembrar-se de que também sangra.
Talvez seja precisamente essa a beleza do futebol: recordar-nos que o mérito continua a existir num mundo demasiado habituado ao peso da influência.
Também por isso o Mundial desperta paixões que ultrapassam o desporto. Durante algumas semanas, países que raramente ocupam manchetes passam a ser conhecidos por milhões. Bandeiras normalmente esquecidas aparecem em varandas, cafés e ecrãs de televisão. Povos que quase nunca têm voz tornam-se protagonistas. É uma rara inversão da lógica internacional, onde nem sempre os maiores são os mais importantes. É evidente que o futebol não resolve os problemas do mundo. Não acaba com guerras, não elimina a pobreza nem derruba ditaduras. Quem acreditar nisso estará condenado à desilusão. A História já nos ensinou que a euforia de um verão dificilmente altera décad as de tensão política ou social.
Mas também seria ingénuo desvalorizar aquilo que um Mundial representa.
Durante algumas semanas, o mundo aprende a celebrar países que normalmente ignora. Aprende a admirar culturas diferentes sem medo delas. Aprende que uma camisola nacional pode unir pessoas de todas as origens. Num tempo em que tantos insistem em dividir sociedades entre “nós” e “eles”, o futebol continua a demonstrar que o talento não conhece fronteiras, religiões ou etnias.
Essa talvez seja a sua maior vitória.
Naturalmente, nem tudo é virtuoso. O futebol moderno transporta consigo os mesmos defeitos que encontramos na política: interesses económicos, dirigentes mais preocupados com receitas do que com adeptos, decisões discutíveis, relações de conveniência com quem detém poder. Nenhuma organização internacional está imune à tentação de confundir influência com integridade.
Mas talvez seja precisamente aí que reside a maior ironia.
Mesmo quando os bastidores falham, o jogo insiste em escapar ao controlo de quem acredita poder decidir tudo. A bola continua a desafiar previsões. O favorito continua a cair. O improvável continua a acontecer. E essa imprevisibilidade é uma pequena vitóri a da liberdade sobre a arrogância.
Num mundo onde quase tudo parece calculado por algoritmos, sondagens e interesses estratégicos, continua a existir um espaço onde o impossível acontece com uma frequência desconcertante.
É por isso que o Campeonato do Mundo continua a fascinar gerações.
Não apenas porque queremos saber quem levanta a taça.
Mas porque, durante algumas semanas, somos autorizados a acreditar que o mérito ainda consegue derrotar o poder, que os pequenos ainda podem vencer os grandes e que nem tudo está decidido antes de começar.
Talvez seja apenas uma ilusão.
Mas, olhando para o estado do mundo, é uma ilusão da qual precisamos desesperadamente.
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