Chamam-lhe renovação.
Vendemo-la como progresso.
Aplaude-se como inevitável.
Mas, na prática, o que se instala, silencioso, elegante, politicamente higiénico, é outra coisa, uma forma socialmente aceitável de exclusão.
Um preconceito sem protestos de rua, sem hashtags de indignados, sem custo reputacional.
O idadismo político.
Vivemos numa época que se orgulha de combater discriminações sejam elas de género, de raça, de classe, e muito bem.
Mas tolera, com desconcertante naturalidade, a ideia de que há uma idade “certa” para ter poder e outra para o abandonar.
Não por falhar.
Não por errar.
Mas simplesmente por existir há mais tempo.
No Algarve, como em tantas geografias, o processo não é bruto.
É sofisticado.
Não se afastam os mais velhos, reposicionam-se.
Não se excluem, enquadram-se.
Não se silenciam, concede-se-lhes palco… desde que não tenham guião. Assembleias, conselhos consultivos, colunas de opinião, espaços onde a palavra sobrevive, mas a decisão evapora.
Uma inclusão coreografada que encobre uma exclusão real.
Uma espécie de reforma antecipada da influência. E tudo isto em nome de uma ideia aparentemente incontestável, é preciso dar lugar aos mais jovens.
É verdade.
Sempre foi.
Mas desde quando “dar lugar” passou a significar “retirar competência” ?
Desde quando a política se tornou um exercício de substituição automática, como se fosse um estágio com prazo de validade?
Há aqui um equívoco perigoso, ou talvez conveniente.
Confunde-se renovação com rotatividade.
Energia com capacidade.
Novidade com mérito.
A realidade, porém, tem o péssimo hábito de contrariar narrativas confortáveis.
O poder global continua, em larga medida, nas mãos de líderes como Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin, Salman bin Abdulaziz Al Saud ou Benjamin Netanyahu. Goste-se ou não, e há muito por onde não gostar, eles continuam a decidir guerras, economias e equilíbrios internacionais.
Não foram empurrados para conselhos consultivos para não bloquear o futuro.
Nem lhes pediram que escrevessem artigos enquanto outros governam.
Isto não é um elogio.
É um facto incômodo, o poder não funciona segundo modas geracionais.
Do ponto de vista sociológico, liderança não é uma função biológica, é relacional. Não depende da idade cronológica, mas da capacidade de ler contextos, de decidir sob pressão, de construir legitimidade.
A experiência acumulada, tantas vezes tratada como peso morto, é, na verdade, capital.
E capital raro.
Desperdiçá-lo não é modernidade.
É má gestão.
Filosoficamente, o problema é ainda mais fundo. Esta obsessão com a juventude revela uma cultura desconfortável com o tempo. Valoriza-se o imediato sobre o duradouro.
A velocidade sobre a reflexão.
A aparência de mudança sobre a substância da decisão.
Transformou-se a política numa espécie de mercado de consumo rápido, de lideranças como produtos, ideias como tendências, ciclos como estações.
Hoje serve.
Amanhã substitui-se.
Mas governar não é isto.
Nunca foi.
Uma democracia adulta não elimina gerações, articula-as.
Não promove monoculturas, vive da fricção entre diferenças, incluindo a etária.
O que está a emergir, porém, é uma política homogénea, ansiosa, impaciente, e, ironicamente, pouco tolerante.
Até à idade.
E há uma ironia que poucos parecem dispostos a reconhecer, os que hoje afastam os mais velhos, amanhã serão afastados pelo mesmo critério.
É a lógica descartável aplicada ao poder.
Hoje és, renovação.
Amanhã és, resíduo.
No fundo, a pergunta que realmente importa raramente é feita.
Queremos líderes jovens ou líderes competentes?
Porque não são sinónimos.
Nunca foram.
Isto não é um apelo à gerontocracia.
Nem uma resistência nostálgica ao novo.
É uma recusa clara de um erro antigo com nova linguagem, a da ideia de que o valor político tem prazo de validade. A chamada geração dos anos 50, entrave.
É memória viva.
tantas vezes tratada como passado, não é um
É arquivo de erros já pagos, de soluções já testadas, de crises já atravessadas. Ignorá-la não é progresso.
É uma amnésia coletiva.
E sociedades sem memória não inovam, repetem.
Talvez, no fim, o verdadeiro problema não seja a idade.
Seja, talvez , o incómodo que causa quem já viu demasiado para acreditar em soluções fáceis.
Porque quem já viveu o suficiente não é mais lento.
É apenas mais difícil de enganar.
E isso, num tempo de políticas performativas e decisões superficiais, não é uma desvantagem.
É uma ameaça.
Leia também: Politicamente (in)correto: Entre o pó das obras e o silêncio das gavetas, o Algarve espera | Por Francisco Moleiro















