Já estamos habituados, ao Algarve nunca ofereceram nada, tivemos sempre o bom gosto de conquistar tudo.
A história começa em 1249, quando D. Afonso III decidiu que esta ponta sul também dava jeito ao mapa.
E foi aí que ficou traçado o nosso destino, o de região decorativa, útil quando convém e esquecida quando não faz falta.
Afinal, o próprio rei fez questão de distinguir, “Rei de Portugal e dos Algarves“, como quem diz, isto é tudo meu, mas aquilo ali é… outra coisa.
Durante algum tempo, fomos também uma escolha curiosa para resolver problemas do resto do país, havia ladrões, criminosos, gente incómoda e de má rês?
Mandem-nos para o Algarve, servimos como uma espécie de política de reciclagem humana.
O poder central, fosse de coroa ou de gravata republicana, manteve sempre uma coerência admirável, lembrar-se do Algarve sobretudo quando era preciso, ou quando dava jeito fingir que se lembrava.
Até que alguém teve uma epifania revolucionária, e se o sol… e a praia… servissem para alguma coisa além de dar fisionomia de mourama ?
De repente, aquelas gentes trigueiras, com um leve perfume a herança mourisca, deixaram de ser um pormenor exótico e passaram a ser um ativo estratégico.
O Algarve, imagine-se, afinal era útil.
Mas afinal, para onde nos leva este pó das obras prometidas e o silêncio espesso das gavetas ministeriais?
O Algarve espera, como sempre, e, no entretanto, vai desesperando com alguma dignidade.
O novo Hospital Central do Algarve ?
Está previsto o início para 2028.
Se não houver derrapagens, o que seria um momento verdadeiramente revolucionário na história da obra pública nacional, talvez em 2031 veja a luz do dia. Convém lembrar que já se fala nele desde 2006.
A esta altura, o pó das gavetas onde o projeto repousa já não é pó, é património arqueológico.
E a Barragem da Foupana?
Prometida desde 2007, pensada desde 1991, inscrita em planos e revisões que dariam para encher prateleiras inteiras.
Diz-nos o poder central, com aquele paternalismo sereno, que é um projeto estratégico de longo prazo.
Traduzindo, não é para já.
A prioridade, garantem, é outra barragem, a de Alportel, essa sim, com horizonte em 2030.
A Foupana, coitada, que espere.
A água também, já agora.
E o Metrobus, essa criatura moderna anunciada em 2023 com conclusão prevista para 2029 ?
Jaz, ao que parece, no mesmo estado metafísico de tantos outros projetos, existe no discurso, mas não no mundo.
Um conceito platónico de mobilidade, guardado numa gaveta particularmente poeirenta.
Quanto à dessalinizadora, essa obra quase quântica, ora está em Albufeira, ora já não está, ora avança, ora recua, parece obedecer mais às leis da incerteza política do que às da engenharia.
Nem os autarcas sabem muito bem onde começa ou acaba a decisão, quanto mais os cidadãos.
No fundo, o problema talvez seja filosófico, confundimos intenção com ação, anúncio com realidade, futuro com presente.
Governar tornou-se, demasiadas vezes, um exercício de retórica adiada.
Por isso, talvez fosse prudente inverter o processo, em vez de deixarem os projetos a acumular o pó nas gavetas, façam das obras o verdadeiro pó, aquele que se levanta no terreno, que incomoda, que prova que algo está, de facto, a acontecer.
Mas, claro, isto sou eu a cismar.
De pó, gavetas, obras e outras subtilezas da política nacional, pouco ou nada percebo.
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