Há qualquer coisa de peculiar na democracia liberal contemporânea. Em teoria, o poder não pertence a ninguém; é um objeto transitório, disputado em eleições periódicas, onde os cidadãos decidem quem governa. Na prática, porém, o sistema parece viver obcecado por uma figura muito específica: o eleitor que muda de ideias.
Paradoxalmente, nada parece inquietar mais as lideranças partidárias do que o eleitor fiel, aquele que permanece décadas a votar no mesmo partido com a consistência de um relógio suíço. O cidadão que não vacila, não questiona e não se deixa seduzir por novas promessas é quase uma anomalia democrática. Afinal, para que serviriam as campanhas eleitorais, os debates televisivos, os slogans cuidadosamente testados e os programas apresentados em papel couché brilho, se todos mantivessem as mesmas escolhas de sempre?
Levada ao extremo, a lógica é irresistível. Se todos os eleitores permanecessem estáveis e resignados, bastaria realizar eleições uma única vez. Arquivava-se o resultado numa gaveta do Estado, distribuíam-se cópias pelos arquivos nacionais e seguia-se, com tranquilidade, rumo à eternidade política. Felizmente para os partidos, existem os indecisos — essa espécie protegida sem a qual boa parte da indústria eleitoral entraria rapidamente em colapso.
É por isso que cada mudança de voto é celebrada como uma pequena epifania democrática. O cidadão que durante quarenta anos não mudou de barbeiro, de marca de café ou de clube de futebol transforma-se subitamente num herói da renovação política quando decide trocar de cruzinha partidária. Os analistas analisam, os comentadores comentam e os estrategas partidários descobrem sinais históricos em oscilações que, muitas vezes, caberiam numa conversa de café.
A democracia moderna parece depender desta permanente mobilidade eleitoral. É necessário convencer os eleitores de que a mudança é indispensável, urgente e, de preferência, iminente. Daí o esforço quase épico dos partidos para arrancar os cidadãos do conforto dos seus hábitos. E assim se alimenta a esperança de que aqueles eleitores aparentemente incapazes de abandonar os chinelos, o roupão de domingo ou a chávena de café de cevada sejam tocados pela revelação súbita proporcionada por um cartaz eleitoral particularmente inspirado ou por um programa partidário cuja leitura rivaliza, em emoção, com a dos manuais escolares digitais.
Não admira, por isso, que muitos observadores já falem de um voto “à la carte”, mais volátil e personalizado do que o antigo voto de dever ou de pertença ideológica. O eleitor-consumidor escolhe, experimenta, abandona e regressa, como quem percorre as prateleiras de um supermercado político cada vez mais concorrencial.
Mas esta mobilidade não trouxe necessariamente maior confiança. Pelo contrário. Entre eleição e eleição acumulam-se ilusões, desilusões e frustrações. Em praticamente todas as democracias ocidentais cresce a desconfiança em relação aos políticos. Incapazes de cumprir promessas, de resolver problemas estruturais ou de responder às inquietações mais imediatas dos cidadãos, os responsáveis políticos são frequentemente vistos como especialistas da palavra abundante e da eficácia escassa.
A suspeita agrava-se quando se instala a perceção de que a principal preocupação dos governantes não é governar, mas cuidar dos seus interesses e da sobrevivência eleitoral. As sondagens substituem a bússola, a popularidade ocupa o lugar da estratégia e o próximo ciclo eleitoral torna-se mais importante do que a próxima geração.
Neste contexto, o desencantamento político alastra. Os partidos já não moldam as identidades dos seus eleitores como outrora, as lealdades enfraquecem e os votos de protesto multiplicam-se. Cresce a disponibilidade para punir elites consideradas incompetentes, cínicas ou excessivamente agarradas aos seus privilégios.
É neste terreno fértil que o populismo encontra espaço para prosperar. A rejeição das instituições tradicionais intensifica-se, enquanto discursos simplificadores, por vezes xenófobos, conquistam uma normalidade que há poucas décadas pareceria impensável. Ainda assim, não faltam partidos que insistem em interpretar os conflitos políticos atuais através de categorias herdadas de um mundo desaparecido, como se os problemas do século XXI continuassem a caber integralmente nos esquemas mentais do período entre guerras.
O resultado traduz-se numa política desacreditada e numa democracia permanentemente submetida a exame. Vivemos numa época hipermoderna, individualista e profundamente desconfiada, onde as expectativas são elevadas e a tolerância para a frustração é cada vez menor.
Charles de Gaulle dizia que “toda a política que não promete sonhos está condenada”. A frase continua atual. A dúvida é outra: quem ainda acredita nos sonhos que a política promete? E, sobretudo, onde se encontra hoje o fôlego das ambições políticas, a ambição capaz de as transformar em algo mais do que um slogan de campanha?
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