Ainda não estou em mim. A notícia não justificava apenas apreensão — exigia uma espécie de abalo interior difícil de nomear, um desconforto que ultrapassa o nojo e se instala como uma ferida aberta na ideia que queremos viver em sociedade, dela muito esperando. Uma criança cega, de apenas seis anos, agredida por colegas durante a hora de almoço, num espaço que deveria ser de proteção, aprendizagem e cuidado. A Escola Básica da Azeda, em Setúbal, surge aqui não apenas como cenário, mas como símbolo de algo que falhou de forma estrondosa.
Tudo parece, de facto, demasiado básico — e não no sentido pedagógico da simplicidade, mas na crueza de um comportamento que revela ausência de estrutura, de limites, de empatia. A agressão não é apenas física: é moral, social, coletiva. É a materialização de um vazio que se vai insinuando silenciosamente, até explodir em episódios que nos obrigam a olhar para o espelho com desconforto.
Pergunto-me, com uma insistência quase obsessiva, onde começa esta falha. Será no espaço doméstico, onde se deveriam fundar os primeiros alicerces de respeito pelo outro? Que modelos são oferecidos a estas crianças? Que linguagem emocional lhes é ensinada — ou omitida? Porque a violência, mesmo na infância, raramente nasce no vazio; ela aprende-se, absorve-se, reproduz-se. E quando chega à escola, não chega de forma inocente.
Mas a escola, enquanto instituição, também não pode refugiar-se na desculpa da origem. Educar não é apenas transmitir conteúdos — é formar cidadãos, é ensinar a convivência, é estabelecer fronteiras claras entre o aceitável e o intolerável. A chamada “gramática do respeito” não é opcional nem acessória: é central. E quando uma criança pede ajuda repetidamente sem resposta, quando um grupo agride e ninguém intervém de imediato, o que está em causa não é apenas uma falha pontual — é uma quebra sistémica.
E, ainda assim, no meio deste cenário desolador, há um detalhe que resiste: duas crianças, também de seis anos, tentaram ajudar. Duas. Esse gesto mínimo, quase invisível, revela que nem tudo está perdido — mas também evidencia o contraste brutal com a inação dos adultos. Onde estavam aqueles que deveriam garantir segurança? Como é possível que o sofrimento se prolongue até que o acaso — um “ajuntamento de alunos” — desperte a atenção de uma auxiliar?
A ideia de que somos um “projeto de vir a ser”, como propôs Martin Heidegger, torna-se aqui inquietante. Que tipo de devir está em curso quando a violência se manifesta tão cedo, de forma tão desprovida de contenção? Que caminhos estão a ser trilhados por estas crianças — tanto as que agridem como as que assistem, silenciam ou ignoram?
Talvez o mais perturbador seja precisamente isso: o silêncio. A ausência de interrupção. A normalização progressiva do inaceitável. Porque o problema não é apenas o ato em si, mas o contexto que o permite, que o prolonga, que não o trava de imediato.
Sinto-me agredido, sim — não apenas pela notícia, mas pelo vazio que ela expõe. Um vazio de responsabilidade, de vigilância, de humanidade. E perante esse vazio, impõe-se uma recusa clara, inequívoca, quase desesperada: isto não pode ser apenas mais um episódio. Isto não pode ser absorvido pela rotina informativa e esquecido no dia seguinte.
Isto não é apenas lamentável. Isto é intolerável.
E, acima de tudo, isto é vergonhoso.
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