O Algarve parece caminhar, com inquietante celeridade, para a condição de mero peão no xadrez da política nacional, instrumentalizado, previsível, e raramente decisivo.
A ausência de figuras políticas com verdadeiro enraizamento social e carisma público não é apenas um problema de rostos, mas de substância.
Os atuais representantes algarvios na Assembleia da República revelam, salvo honrosas exceções, uma preocupante indigência política, não enquanto indivíduos, mas enquanto expressão de um sistema que privilegia a sobrevivência partidária sobre a representação genuína.
Defendem-se estruturas, não territórios, preservam-se carreiras, não comunidades.
Quando uma região deixa de produzir, ou de reconhecer, lideranças com identidade própria, com pensamento autónomo e ação comprovada no espaço público, o problema transcende a política e torna-se cultural.
A representação degrada-se, tornando-se uma formalidade desprovida de conteúdo.
O Algarve, nesse cenário, deixa de ser sujeito político para se tornar objeto de decisões alheias.
É neste contexto que a introdução de círculos uninominais, já consagrada na Constituição da República Portuguesa, assume particular relevância.
Não como panaceia, mas como instrumento potencial de um acercamento dos eleitos aos eleitores.
A responsabilização individual, a ligação direta ao território e o escrutínio contínuo poderiam constituir um antídoto contra a atual lógica de nomeação vertical, onde as estruturas partidárias se sobrepõem à vontade das comunidades.
A composição atual dos deputados eleitos pelo círculo do Algarve é, infelizmente, sintomática desta realidade, demasiadas vezes, não espelha a diversidade social, económica e cultural da região, funcionando antes como prolongamento das direções partidárias nacionais.
O Parlamento perde, assim, uma oportunidade de integrar vozes verdadeiramente representativas de uma das regiões mais singulares do país.
Reconheço, contudo, a minha relativa inexperiência nas intricadas dinâmicas da seleção de candidatos e das nomeações político-partidárias.
Talvez me faltem os códigos internos, os equilíbrios invisíveis, os compromissos tácitos que sustentam o sistema.
É possível, concedo, que esteja equivocado.
Que os círculos uninominais não sejam solução, ou que o problema seja mais complexo do que aparenta.
Ainda assim, permanece a inquietação.
Porque, persistindo o modelo atual, corremos o risco de institucionalizar o conformismo, de premiar o alinhamento acrítico e de perpetuar uma cultura de proximidade ao poder em detrimento do serviço público.
O “amiguismo” deixa então de ser desvio para se tornar norma silenciosa.
Talvez tudo isto não passe de uma reflexão imperfeita, uma entre muitas possíveis.
Afinal, de politiquices pouco sei, ou, quem sabe, sei apenas o suficiente para delas desconfiar.
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