A capacidade de condensar ideias em poucas palavras atravessa hoje diversas culturas e disciplinas científicas. Rui Soares, antigo professor de Matemática e fundador da Associação Internacional de Paremiologia (AIP), explicou ao POSTAL do ALGARVE como ciência e tradição podem caminhar lado a lado.
Uma admiração pelos provérbios desde cedo
Para Rui Soares, o interesse pelos provérbios começou desde cedo, em contexto familiar. “Em casa começávamos a ouvir os pais e amigos falarem com provérbios, lendas, lengalengas. Posso dizer que começou aí o meu gosto por provérbios”, recorda.
Mais tarde, já enquanto professor de Matemática, percebeu que os provérbios poderiam ser uma ferramenta pedagógica bastante útil. “Os alunos queixam-se muitas vezes de que os exemplos na Matemática são sempre sobre a própria Matemática. Então, em vez de dar exemplos exclusivamente matemáticos, usava os provérbios para explicar determinada matéria”, refere.
Para Rui Soares, os provérbios partilham com a Matemática uma característica importante: ambos sintetizam grandes ideias em poucas palavras. “Os provérbios são expressões pequenas, mas que encerram grandes ideias. As fórmulas matemáticas também são ferramentas para sintetizar situações da vida real. O que sempre me atraiu foi a capacidade de síntese dos provérbios”, sublinha.
A criação da Associação Internacional de Paremiologia
Para além do valor pedagógico dos provérbios, Rui Soares encontrou neles uma forma de aproximar povos e culturas. Durante um período de licença sabática na Finlândia, dedicou-se ao estudo da língua finlandesa e percebeu que os provérbios o ajudavam a compreender melhor o idioma e a cultura daquele país. “Sendo o provérbio uma expressão curta, ajudava-me muito a aprender finlandês. Comecei então a estudá-los mais profundamente”, explica.
Durante essa estadia na Finlândia, teve ainda a oportunidade de entrevistar a filha de Matikussi, uma referência na paremiologia finlandesa, que continua o legado do pai. Com o seu apoio, Rui Soares organizou o 1.º Colóquio Interdisciplinar sobre Provérbios, em Tavira, no ano de 2007, ainda antes da fundação oficial da associação. O evento inaugural contou com participantes de 16 países diferentes. “No ano seguinte, em 2008, formalizámos na conservatória a criação da Associação Internacional de Paremiologia”, refere. Desde então, o congresso reúne anualmente, em Tavira, participantes de mais de 25 países. O próximo encontro está agendado para novembro deste ano.
Provérbios como ponte entre culturas
Diferentes culturas possuem formas distintas de olhar o mundo e a vida, e os provérbios não são exceção, adaptando-se às realidades locais. “É muito notório nos provérbios relacionados com animais e plantas, porque existem espécies em Portugal que não existem na Finlândia e vice-versa. Em vez de olharmos literalmente para as palavras, devemos tentar compreender o que está por detrás delas, pois isso aproxima-nos e mostra-nos que, afinal, não somos assim tão diferentes”, salienta Rui Soares. “Hoje posso afirmar com certeza que os provérbios ajudam a aproximar povos e culturas”, acrescenta.
No que consiste um provérbio? É possível chegar à sua origem?
Segundo Rui Soares, um provérbio é “uma forma condensada de expressar a experiência de vida acumulada ao longo dos tempos, tal como os números representam valores muito grandes com poucos dígitos”. O tamanho também é relevante. “O número mínimo de palavras num provérbio é duas, porque quanto mais curto for, sem perder o sentido, melhor. O mais habitual é serem expressões até sete palavras”, afirma.
Determinar com exatidão a origem histórica dos provérbios é uma tarefa quase impossível, reconhece o fundador da Associação Internacional de Paremiologia. “Sabemos que têm milhares de anos, mas não conseguimos precisar exatamente quando surgiram”, refere, explicando que os provérbios podem surgir de acontecimentos históricos, contos, fábulas, lendas, frases de sábios ou mesmo peças de teatro. Esta dificuldade revela como os provérbios nascem da própria vivência humana e evoluem consoante o contexto cultural.
O trabalho de Rui Soares mostra que a sabedoria popular não está desatualizada nem é incompatível com a ciência. Pelo contrário, complementa-a e acrescenta-lhe uma dimensão profundamente humana. Os provérbios fazem parte do quotidiano e são ferramentas fundamentais no ensino e na compreensão do mundo.
Marta Santos / HD






















