Não gosto de funerais. Nunca gostei.
Das poucas vezes que vou, saio de lá com a mesma pergunta a ecoar dentro de mim:
Será que isto podia ter sido evitado?
Talvez por isso prefira hospitais.
Prefira visitar quem ainda está vivo.
Quem ainda pode regressar a casa.
Quem ainda pode abraçar os filhos, rir com os netos, voltar a sentar-se à mesa da família.
Faço essas visitas há mais de 40 anos, todas as quintas-feiras no Hospital de Faro.
Quando vou a funerais de homens na faixa etária dos 50, 60, 70 anos Pergunto quase sempre à viúva:
— “Ele fumava?” E quase sempre ouço um “sim” dito em voz baixa.
O tabaco não mata apenas pulmões.
Rouba aniversários.
Rouba Natais.
Rouba abraços.
Rouba anos inteiros de vida às famílias.
Diversos estudos mostram que um fumador vive, em média, menos 15 anos do que um não fumador. Quinze anos.
Quantos momentos cabem em quinze anos?

A medicina preventiva continua a chegar tarde demais. E o combate sério ao tabagismo continua, demasiadas vezes, a ficar apenas nas intenções.
Mas há algo profundamente poderoso: o amor da família.
Já vi muitos filhos pedirem ao pai para deixar de fumar. Já vi netos esconderem os cigarros do avô.
Já vi homens endurecidos pela vida emocionarem-se porque uma criança lhes disse:
— “Avô, eu quero que estejas comigo quando eu crescer.” E, às vezes, é isso que faz a diferença.
Não são estatísticas.
Não são campanhas.
Não são avisos nos maços.
É o amor.
Por isso, deixo aqui um apelo simples:
falem com quem fuma.
Esclareçam, sensibilizem, motivem à decisão.
Não com julgamento.
Com carinho.
Com insistência.
Com amor.
Porque deixar de fumar não é apenas viver mais.
É ficar mais tempo junto daqueles que nos querem vivos.
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